top of page

A escrita por trás dos roteiros da "Junina Traquejo"

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 2 dias
  • 5 min de leitura

Por Natyelle Soares

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Palavras iniciais


Quando se escreve para a quadrilha junina, não tem uma regra, sabe? Tem vezes que a ideia brota da vida, do corpo, das emoções, ou de um troço que nem dá para explicar. É assim para Hérica Araújo roteirista da Junina Traquejo. É tudo meio imprevisível.

A arte sempre esteve do lado dela. Desde pequena, vivia em meio ao circo e a cultura popular da família. Por parte de mãe, ela vem de uma linhagem circense — os famosos Irmãos Araújo, do Globo da Morte. Cresceu ajudando na apresentação, fazendo mágica, brincando com malabares, mergulhada nas lembranças que hoje viraram combustível para criar histórias intensas que tomam vida na quadra.

Nesse papo com a colunista Natyelle Soares, Hérica conta como as ideias chegam, fala das inquietações, e desse jeito de criar que vive mudando até chegar ao para o público.



Trajetória e encontro com a arte


[NATYELLE] Queria saber do seu caminho com a arte e como você começou a escrever pros festejos juninos.

[HÉRICA] Nem sei dizer o momento certo em que tudo começou. Arte sempre foi coisa de casa. A família da minha mãe é do circo; meus tios ajudaram a criar o Globo da Morte no Brasil. Eu já cresci no meio dos equipamentos, ajudando o mágico, o palhaço, quem estivesse por perto. Para a gente, brincar era fazer mágica, malabares, era esse universo. Agora, os roteiros para a quadrilha vieram depois. O Wanderson me chamou para assumir na Traquejo depois que o roteirista antigo saiu. Como eu já fazia parte do Grupo Máquina Teatral, ele achou que eu dava conta.


[N] Você já escrevia antes? Como você acabou nesse mundo junino?

[H] Já sim, mas não tem um começo certo. Veio de oficinas, de vivências. Às vezes é uma conversa de esquina, uma história que escutei, uma música. Isso tudo vira material para o roteiro, vira metáfora. Acabei indo nesse caminho pela poesia desses ciclos. Não é só a festa em si. O São João é forte, mas tem algo a mais. Eu vejo ali uma forma de manter tradição, de resistir com a identidade nordestina.


A roteirista Hérica Araújo, responsável pela construção narrativa da "Quadrilha Traquejo". Foto: Reprodução/Internet
A roteirista Hérica Araújo, responsável pela construção narrativa da "Quadrilha Traquejo". Foto: Reprodução/Internet

A concepção dos roteiros


[N] Como nasce um roteiro para Traquejo? Vem do tema, personagem, emoção...?

[H] Cada vez é de um jeito. Tem dia que nasce do tema, outro de uma sensação, às vezes de um personagem, ou uma ideia aleatória. A emoção tem muito peso, a dor também. Do nada pinta uma cena, um nome, uma faísca. Aí, só depois, percebo que dá para transformar numa história de quadrilha.


[N] Você cria tudo sozinha ou rola uma troca com a galera?

[H] No fim das contas, é sempre coletivo, de algum modo. Mesmo um roteiro que tem minha cara nasce de algo que vivemos juntos. Nunca rolou um processo 100% coletivo, mas não fecho a porta para isso.


[N] Quando você começa a escrever, já imagina as cenas acontecendo na quadra? E sua escrita mudou como nesse tempo?

[H] Quase nunca. No começo, tudo parece bagunçado, fora de controle. As cenas vêm em impulso, vou organizando depois para entender o que encaixa ou não. Minha escrita mudou demais. Ganhei confiança. Antes, era teatro demais, hoje deixo a dança mandar, porque o espetáculo precisa desse movimento.



Processo criativo


[N] O que te inspira e como você equilibra tradição e novidade?

[H] A inspiração chega sem pedir licença. Sou muito no instinto, autodidata, não tem método. Às vezes bate ansiedade porque não dá para saber quando a próxima ideia vai cair. A tendência de equilibrar tradição e novidade acontece muito conversando com Wanderson, que mexe direto nos detalhes do espetáculo. Preciso cutucar ele também, não deixo as coisas ficarem engessadas. O mais difícil é não conseguir escolher quando tudo começa.


[N] Você pensa na reação da plateia enquanto cria?

[H] No início, nem passa pela cabeça. O insight já vem cheio de emoção. Depois que escrevo, paro para pensar em como isso toca o público.



A construção dos personagens


[N] Como surgem os personagens? Vocês se inspiram em gente real?

[H] Vai de cada história. Tem hora que já aparecem juntos com a primeira ideia, às vezes demoram para chegar. A maioria é baseada em gente de verdade, mas sempre vira metáfora, fantasia. O que falta eu invento para caber na narrativa.


[N] Quanto de você aparece neles e qual mais te marcou?

[H] Tem eu por todos os lados, só que transformado para caber ali. Pau e Pano foi o roteiro que mais marcou, sem dúvida. Foi o primeiro encomendado, e descobrir quem contaria aquela história foi difícil.


Momento e composição dos personagens em cena. Foto: Reprodução/Internet
Momento e composição dos personagens em cena. Foto: Reprodução/Internet

A roteirista na prática da quadrilha


[N] Como é ver o roteiro virando espetáculo?

[H] É agridoce. Tem horas lindas, outras frustrantes, depende de como a galera executa. Quando falta cuidado, pesa, e sempre bate um cansaço emocional — depois de tanto viver e reviver aquela história, entregar o texto já é atravessar tudo de novo.


[N] O espetáculo muda muito do papel para a apresentação? Você assiste aos ensaios?

[H] Com certeza. Fica mais direto, mais centrado na dança com o tempo. Sempre vejo os ensaios e fico ajustando. Escrevo solto, depois corto, adapto para o tempo de 25 minutos, e isso dói. Sempre algo fica de fora e, sinceramente, machuca.



Reações do público


[N] Alguma reação do público ficou na memória? Já mudaram o sentido do que você escreveu?

[H] No ano da apresentação de Pau e Pano, a cena da rezadeira celebrando o casamento quebrou a tradição, aquilo marcou. E Dagmar, de Amar Cura: todo mundo queria saber por que ela não casava com a noiva. Ele mesmo foi um personagem que cada pessoa entendia de um jeito.

[N] O que mais te emociona desse retorno?

[H] Ver que ajudo a manter a cultura nordestina viva, e quando alguém se enxerga na história.


Detalhe de personagens que compõem o universo da apresentação, revelando a diversidade de figuras, figurinos e interpretações que fortalecem a identidade visual e dramática da quadrilha junina. Foto: Reprodução/Internet
Detalhe de personagens que compõem o universo da apresentação, revelando a diversidade de figuras, figurinos e interpretações que fortalecem a identidade visual e dramática da quadrilha junina. Foto: Reprodução/Internet

Planos futuros


[N] O que esperar dos próximos roteiros? Quer experimentar outros formatos?

[H] Nem eu sei. Sempre tem uma expectativa, mas também medo, porque é puxado demais. As ideias vêm picadas, guardo um monte, às vezes levo anos até fazer sentido. Quero experimentar sim. Tenho muita vontade de ver essas histórias em audiovisual, ou até virar livro.


[N] Já sonhou com uma história para contar?

[H] Nunca planejo. Meu processo nunca foi assim. Meu sonho agora é descobrir qual será a próxima história, e se ela vai aparecer de verdade.



Últimas palavras

A escrita da Hérica não segue receita. Ela nasce do susto, das urgências, dos sentimentos. O roteiro acaba sendo mais que história na arena: é experiência, memória, cultura, e identidade. No fim, esse caos no processo é o que dá força para tudo que ela cria. Antes de qualquer método, vem o sentir.

Comentários


MIX.png

A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

  • TikTok
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone Spotify
bottom of page