Entre fadas, desilusões e o que restou: escrita, pintura e a arte que é sentir

Por Washington Vitório
Trabalho revisado por Paula Donato e Marcelo Martins

Manu Paz (@manupazyamor) trabalha com desenvolvimento humano através de diferentes caminhos, dentre eles, a escrita literária, as artes visuais, a yoga e idiomas, além de atuar como psicanalista. Com uma formação em engenharia agrícola e ambiental, sua trajetória passou por caminhos que, à primeira vista, parecem distantes da arte, mas que hoje também fazem parte da forma como ela compreende o mundo e as pessoas.
Em seu trabalho, a arte e a escrita surgem como formas de mergulhar na própria existência, compreendendo suas próprias experiências e dando novos sentidos àquilo que cruza a sua vida. Seja através das palavras ou de suas obras visuais, Manu encontra maneiras de transformar essa imersão em algo que pode ser compartilhado com o mundo.
Com a palavra, Manu Paz

A artista diz que em sua arte, analisa o Dasein, a constante relacionada a “viver em” no mundo, sendo atravessado pelo Zeitgeist (o “espírito do tempo”), através de mergulhos espirituais, momentos em que ela se desliga da necessidade de performar para se manter no mundo e ser capaz de fluir apenas como força de vida, na própria psique. Os resultados desse mergulho são, conforme Manu descreve, suas obras de arte. Ela ainda complementa: “A escrita, por um outro lado, me vem como uma visita a terrenos áridos e desconhecidos, nos quais posso construir os mais lindos oásis através da inserção de consciência e da apropriação de momentos e experiências que muitas vezes me fizeram infeliz ou confusa.”
“Fadas em Novembro”
Publicado em 2026 pela Editora Arrelique, Nem tudo o que há no mundo é uma antologia de contos, poesias e crônicas que reúne escritores de Caruaru e região – a coletânea encontra-se em sua sexta edição. Entre os nomes que fazem parte da obra, está Manu Paz, autora do conto “Fadas em Novembro”.
No conto “Fadas em Novembro”, Manu Paz escreve a partir de uma experiência dolorosa com um antigo relacionamento que a fez mal. Ela parte da própria vivência para se expressar através de uma narrativa que usa elementos fantasiosos e místicos; nessa mistura entre a decepção e a bagunça mental de alguém machucado, tenta encontrar sentido após o fim de algo que a marcou, e se apoia na feminilidade ligada à deusa Vênus para lidar com o que restou.
Ouvi dizer para acreditar em fadas madrinhas, aquelas que vêm com presentes e boas notícias; até nas que vêm com notícias ruins, acreditei em todas. Astrologia, tarô, adivinhação, signos e mensagens de anjos que falam através de números. Eles guiavam-me através de olhos que se tornavam familiares. Um conhecer o mundo desconhecido, o acreditar nas forças maiores que atravessam o coração, o sentir que o desejo alinha-se com o todo e pode somente levar através de estradas de tijolos dourados. - Pág. 69
WV: No início do conto, você fala sobre acreditar em fadas e sinais que parecem guiar o caminho. Essas crenças fazem parte da sua própria maneira de enxergar a vida ou foram inseridas especificamente para a narrativa construída?
MP: Eu divido meu fazer artístico até o momento atual em três fases: a primeira, envolta em misticismo e ingenuidade; a segunda, composta por visceralidade e desespero; e a terceira e atual, que evoca um recém-adquirido equilíbrio e contemplação. Ao evocar as crenças e guias para orientação mística do caminho, procuro em mim resquícios de tais crenças. Outrora, já fui extremamente próxima da astrologia e da fé cega nos meus próprios ideais, mas atualmente venho substituindo essas visões, por teorias filosóficas. Tenho lido Ortega y Gasset, Albert Camus e Simone de Beauvoir.
WV: A narradora presente no seu conto parece estar dividida entre aquilo que sente e aquilo que sabe que deveria fazer. Partindo da sua própria experiência colocada no conto, em algum momento da sua vida, você se viu diante desse conflito? De que maneira essas experiências pessoais acabam se cruzando com a sua escrita?
MP: Com certeza, acho que o grande desequilíbrio de minha vida é ter uma distância muito grande entre razão e emoção, de forma que minhas escolhas racionais vêm em conjunto da necessidade de uma castração pulsional. É necessário que a mulher domestique a loba, porém somente a mulher. O que quero dizer com isso é que meus instintos devem ser limitados pelas minhas decisões racionais individuais e embasadas, e não por limitações sociais aprendidas e herdadas. Respondendo à segunda parte da pergunta. Uma artista não pinta uma árvore, ela pinta-se. Da mesma forma, nada que eu escreva está fora de mim. Inclusive, me assusta um pouco compartilhar de minha fragilidade com desconhecidos através da escrita.
Eu simplesmente não as via, não as queria ver. Era ele, o enviado de Vênus, tornei-me daltônica por escolha. Ele inundava-me com algo e eu queria apenas mais. Seria aquilo amor? Tinha medo, sabia o que deveria ser feito, mas fazia apenas aquilo que ele queria. - Pág. 70
WV: Além de autora, você também é artista plástica, e o conto é repleto de imagéticas visuais, como o mar, o barco e as fadas. Por trabalhar com a pintura, você percebe que desenvolveu uma maneira mais visual de criar suas narrativas? E sobre a construção dessas cenas, você costuma imaginá-las como imagens antes de virar palavras?
MP: Eu percebo o mundo de forma diferente, isso é verdade. Tenho uma estrutura psíquica psicótica paranoica e isso me faz ter percepções distorcidas em relação a maioria. Por exemplo, quando gosto de como uma pessoa se movimenta, digo que gosto de sua dança. Quando gosto de estar perto, digo que gosto de seu ar. Muitas vezes tenho dificuldade com as palavras por sentir que elas devem de forma direta reduzir conceitos que em minha mente são complexos, já que são como estrelas em cujas pontas estão teorias diversas.
Acredito que minhas narrativas sejam fluídas, de forma que, os leitores mais analíticos têm dificuldade de apreender sua poesia. O leitor deve-se deixar levar, porque algo de inconsciente, algo sentimental, falará com ele durante a leitura. A mente consciente não deve intervir. Acredito que está aí o poder das imagens, pois, como mostra Gilbert Durand, as imagens vêm antes das palavras. Na minha cabeça paranóica existe um mundo inteiro de imagens já construídas e essas imagens são relacionadas a arquétipos.

Em “Fadas em Novembro”, as metáforas visuais da artista aparecem de maneiras que expressam aquilo que nem sempre é fácil de traduzir em palavras. Ao falar sobre sua escrita, Manu afirma ter facilidade em transformar sentimentos e percepções em imagens: “Faz parte da minha natureza psicótica. Sou muito boa com metáforas.”
No texto, Manu faz uma referência clara a música “Cruel Summer” da cantora norte-americana Taylor Swift, ao utilizar a frase “Os demônios jogam os dados, os anjos reviram os olhos”. Uma metáfora que representa a imprevisibilidade de um relacionamento complicado e os conflitos causados ao se sentir atraído por esse alguém, mas ainda assim se ver disposto a continuar, mesmo sabendo dos riscos, e ignorando todos os sinais de alerta. A partir dessa constatação, fizemos a Manu a seguinte pergunta:
WV: A personagem encontra alguém que parece muito próximo dela, descrito pela frase “Ele era eu”, mas essa proximidade acaba se transformando em sofrimento. Na sua percepção, às vezes podemos confundir identificação e intimidade com uma conexão genuína? E foi esse o sentimento que você quis passar?
MP: Com certeza, acredito que seja essa a minha questão central e processo de análise agora (risos). Foi, sim, esse o sentimento que quis passar. A história é baseada em uma experiência real, em que me confundi bastante.
O mar que antes era calmo tornara-se raivoso e rugia contra o pequeno barco onde navegava meu coração. [...] Vazio. Não havia ninguém comigo, não havia nada além de silêncio e frio. - Pág. 71
WV: O texto começa com um ar fantasioso, mágico e quase encantado, mas aos poucos isso vai sumindo e dando espaço a uma narrativa mais melancólica. Como você trabalha a construção desse ar na escrita? É algo planejado desde o início ou que surge durante o processo criativo?
MP: A escrita do texto foi um momento mágico em que as palavras vieram uma após as outras em minha mente. Não houve uma arquitetura consciente. Mas, por outro lado, posso falar do que analiso a partir da leitura do texto. Os dois primeiros parágrafos servem para embasar o texto, mostrar do que se vai falar, da oposição entre razão e emoção. Confesso que precisei de um tempo depois deles para continuar, pois acessei um lugar de dor profunda em mim, acredito que por isso os parágrafos seguintes sejam mais confusos. Pense que foi construído um barco para o leitor e depois ele navega rapidamente por um rio que desce para o mar; eu queria mostrar ao leitor meu sofrimento e desespero, mas não sabia onde chegaria. O final é um corte seco e uma surpresa, também para mim.
WV: Se você pudesse transformar “Fadas em novembro” em uma pintura, qual trecho da história escolheria representar? E essa pintura seria fiel àquilo que você imaginou enquanto escrevia ou teria uma interpretação diferente agora?
MP: Planejo as minhas pinturas tanto quanto planejo os textos (risos). Apesar disso, uma imagem me veio à mente. Imagino uma fada em primeiro plano, sendo tomada por água e por ondas. Uma pintura escura, o mar à noite. A fada dourada, um próprio sol. Veio à mente agora Vênus que é dita como a deusa dourada. Acredito que é isso que a protagonista encontra no final do texto. O brilho de Vênus que está em si. Pois, no meu imaginário, para ser a deusa da beleza e do amor, Vênus precisa cuidar primeiro de si mesma, para depois poder amar os outros, é assim que funciona. É essa a descoberta de que o mar eram as próprias lágrimas, dessa forma, o sol e calma vêm também de dentro.
PALAVRAS FINAIS
MP: Com certeza aprendi muito com essa experiência e farei escolhas diferentes no futuro. A questão de domesticar a loba segundo os próprios princípios está justamente relacionada a isso. Existe muito sobre essa loba (ou "sombra", como nomeou C. G. Jung) que preciso conhecer. Existe muito que preciso ensiná-la para que ela possa uivar de felicidade e não de dor, pois a tormenta vive em mim e não deixará de existir.

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