Do holofote ao anonimato: a história do estilista Markito
- Revista Spia

- há 2 dias
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Por Milena Pontes
Trabalho por: Paula Donato e Marcelo Martins
A chegada de junho marca a volta de pautas importantes ao centro de discussões. O orgulho LGBTQIAPN+ ocupa espaço nas redes sociais, como forma de reconhecer as lutas e vivências da diversidade ao longo da história da sociedade. Além disso, o mês também marca a perda de uma das figuras mais emblemáticas da moda brasileira. Há 43 anos, morria Markito, um estilista de destaque nos anos 1970-1980, que vestiu artistas e personalidades nacionais e internacionais, mas que teve seu legado ofuscado pela sua morte precoce em decorrência da AIDS, em uma época marcada por medo, desinformação e preconceito.
Com uma estética marcada por sofisticação, brilho e influência do glam rock, Marcus Vinícius Resende Gonçalves, conhecido como Markito, consolidou seu nome na cena da moda, com criações frequentemente associadas ao universo festivo dos anos disco. Suas peças vestiram ícones como Gal Costa e Farrah Fawcett, além de assinar alguns dos figurinos mais marcantes do Ney Matogrosso.

Pode-se dizer que ele revolucionou a moda no Brasil. Desde jovem, já mostrava interesse por esse meio da criação, desenhando peças para escolas de samba em Uberaba-MG, sua cidade natal. Sua notoriedade, no entanto, veio posteriormente, no eixo Rio-São Paulo, devido à sua apresentação excêntrica, com sungas cavadas e acessórios, como bolsas de pele de carneiro, causando choque à sociedade da época.

Frequentador das festas da alta sociedade e do Studio 54 em Nova Iorque, era também intensamente dedicado ao seu trabalho. No auge de sua carreira, atendia cerca de 30 clientes por dia na sua suíte do Rio de Janeiro. Já seu ateliê reunia aproximadamente 150 funcionários e produzia cerca de 300 vestidos por mês, sob a marca Markito Brazil. Em seguida, veio a By Markito, cuja intenção era atrair um público mais jovem.
Em 1983, a atriz Lucinha Lins estampou a capa da revista Manchete vestindo uma peça de paetê assinada pelo estilista. Era considerado referência quando o assunto era glamour noturno. Sua produção também chegou aos cinemas. O filme brasileiro Rio Babilônia, de 1982, conta com um acervo de 150 vestidos assinados pelo designer.
No entanto, nem só de glamour foi marcada sua trajetória. No mesmo ano da publicação da revista, a carreira de Markito chegou ao fim. No dia 04 de junho, aos 31 anos, em Nova Iorque, o estilista morreu por consequência da AIDS, sendo a primeira figura pública brasileira a ter sua morte associada à doença. Vale ressaltar que sua morte antecede a do ator norte-americano Rock Hudson, que é frequentemente citado como um dos pioneiros a trazer visibilidade mundial à epidemia, que, cercada por medo, desinformação e discriminação, ficou conhecida naquele momento como “câncer gay”.
Em decorrência desse contexto, sua carreira foi parcialmente apagada e, nos dias atuais, não é lembrada da mesma forma que outros colegas de profissão, como o Clodovil que, assim como o Markito, também era um estilista assumidamente homossexual.

Sua morte foi anunciada em rede nacional, seu nome aparecia estampado em manchetes como “Marcos Vinícius Resende Gonçalves, o Markito, 31, de doença diagnosticada como câncer gay. Em hospital de Nova Iorque…”. A forma como a imprensa se dirigia à AIDS refletia o preconceito direcionado à comunidade “GLS”, como era conhecida na época. Já que, inicialmente, a doença foi associada apenas a homens gays.
Embora, posteriormente, casos em mulheres e crianças tenham sido identificados, o estigma já havia se consolidado. Numa sociedade marcada por dogmas, pessoas homossexuais passaram a ser mais perseguidas e culpabilizadas pela epidemia.
Em um mês como esse, onde o orgulho e a resistência ganham destaque, histórias como a de Markito nos evidenciam que nem toda trajetória teve o mesmo direito de brilhar ao longo do tempo. Mais do que celebrar, também permanece a necessidade de enfrentar as barreiras que ainda recaem em pessoas LGBTs e soropositivas, cujas vivências seguem sendo feridas pelo preconceito que insiste em permanecer.

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