top of page

O frágil ceticismo de "A Cabeça do Santo"

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 22 horas
  • 7 min de leitura

Por M.E. Rodrigues

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Capa do livro editada por M.E. Rodrigues. Foto: Acervo pessoal
Capa do livro editada por M.E. Rodrigues. Foto: Acervo pessoal

Nas primeiras páginas de A Cabeça do Santo (Cia. das Letras, 2014), Socorro Acioli nos apresenta um dia de sol latente no Sertão do Ceará, que arde, que queima e castiga. Ofegante, suado e contrariado, Samuel, protagonista da história, surge neste cenário andando pelas estradas da região. Regido por um último pedido de sua mãe, em seu leito de morte, sai em busca da avó e do pai que nunca conheceu.

Samuel não tinha nada além de suas roupas, a falta de fé e fome, muita fome. Não sabia ao certo há quanto tempo caminhava por aquelas vias, em busca de uma cidade que já estava começando a duvidar que existia. Sem dinheiro para pegar uma lotação e sem carisma para pedir uma carona, lá estava ele, com o sol quente sobre sua cabeça, delirando de fome, e aí que começa o brilhantismo de Socorro Acioli neste livro. É comum que personagens descrentes em seres superiores ou em episódios sobrenaturais, passem por aprovações e dúvidas para que, no fim, acabem saindo mais crentes do que no começo da história.

Ilustração feita por Gustave Doré de Dom Quixote e Sancho Pança. Foto: Reprodução/Internet
Ilustração feita por Gustave Doré de Dom Quixote e Sancho Pança. Foto: Reprodução/Internet

Na bíblia, em fábulas e romances de formação, essa trajetória já foi bastante utilizada. Aqui, a autora não vai muito distante dessas narrativas, mas é a forma com que ela faz que muda tudo. Se utilizando de uma bem escrita narração em terceira pessoa — que segue até o final do livro — Acioli expande o delírio de Samuel e o coloca de frente a estranhas criaturas e cavaleiros, nos fazendo lembrar e o comparar com um certo paladino do século XVII, conhecido por Dom Quixote.




O protagonista os observa, os escuta e reflete sobre seus alertas. É notório que aquelas figuras não apareceriam se o calor e a fome não estivessem o sugando tanto, mas a maneira como elas são inseridas faz com que nós, juntamente com o Samuel, duvidemos se esses seres não são figuras enviadas por um Ser maior, uma entidade, o alertando do que possa vir acontecer.

Então, neste momento, temos o primeiro teste, uma quase crença. Mas aí, o protagonista acorda em sobressalto. Os cavaleiros não estão mais lá. E tudo aquilo era o que, racionalmente, é: um delírio. Samuel é um homem que quase acredita. Cresceu com uma mãe fervorosa e otimista, que não acreditava apenas em Deus, mas nas pessoas. Na bondade do mundo. Já Samuel acreditava nela, tinha fé em sua mãe e quando ela se foi, o mesmo não sabia onde depositar suas esperanças.

“As esperanças nunca foram suas, eram de Marinha, ele as usava por empréstimo em casos raros. Naquele momento, Samuel não tinha fé nenhuma nas coisas do espírito.” (p. 13)

E com esse ceticismo enraizado, Samuel chegou na cidade de sua avó, Candeia. Após ser expulso de uma bodega por pedir um pedaço de pão, o narrador nos apresenta o porquê de Samuel ser tão descrente com o mundo. O personagem não precisa discursar sobre suas amarguras, mas os personagens em torno, tratando da forma como o tratam, mostram isso. É desesperançoso.

Nessa situação, vai se formando no leitor uma esperança de que, no momento em que Samuel encontrar sua avó, ela vai se mostrar diferente das pessoas que foram a porta de entrada de Candeia. Não sei se pela palavra “avó” trazer uma conotação de cuidado e afeto já bem consolidada no senso comum, ou pela mãe de Samuel tê-lo dito — e ele ter “dito” para nós — que sua avó era uma mulher justa e gentil, mas há essa expectativa, essa construção de crença, quebrada rapidamente nas páginas seguintes. Essa brincadeira de crença, mas não-crença.

Mas, veja: essa expectativa é quebrada para nós, não para Samuel. Cético. Ele, enxotado também pela avó, não demonstra surpresa. Raiva, sim; pela fome, por sentir que não deveria ter ido lá e que estava certo, no fim. Acioli parece dar mais pano para esse olhar mais acinzentado para vida, conduzindo o personagem para lugares que justificam sua visão de mundo.

Após isso, toda cidade parece inóspita. A autora, que se utiliza de muitas prosas para então descrever os espaços e ambientes da cidade, só nos dá mais detalhes do que Candeia é na introdução de personagens mais próximos ao protagonista. Até lá, nós só conhecemos a bodega, a frente da casa da avó de Samuel e claro, a cabeça de Santo Antônio.


Cabeça da estátua de Santo Antônio, no bairro Conjunto Habitacional, no município de Caridade, Ceará. Foto: Reprodução/Internet
Cabeça da estátua de Santo Antônio, no bairro Conjunto Habitacional, no município de Caridade, Ceará. Foto: Reprodução/Internet

Samuel precisava de um abrigo. Como sua avó não abriu as portas da casa para ele e não deu nenhum paradeiro de seu pai, ele se viu perdido em uma cidade que não conhecia, mas que já não gostava. Queria ir embora, quase foi. Mas, por não conseguir, foi buscar abrigo em um local incomum: a cabeça da estátua de Santo Antônio, que, anos atrás e misteriosamente, se soltou do corpo e desceu morro abaixo.

Como ele chegou na cabeça é uma sequência de cenas rápidas — estilo de escrita adotado por Acioli em diversos trechos — que envolvem chuva e cachorros raivosos. Quando Samuel é mordido por um, a dor o cega e faz com que ele se esconda nos escombros. O protagonista se vê em um eterno estado de má sorte, a falta de crença vira pessimismo e com o ferimento e a fome, para Samuel, sua sobrevivência seria um milagre.


E o milagre acontece.

No dia seguinte, quando ele acorda após uma noita mal dormida, nosso protagonista já fica agoniado com a quantidade de vozes pairando sobre sua cabeça. Não são vozes inaudíveis. Há, desde o começo, uma clara definição delas. São vozes de mulheres, falando de suas lamúrias e desejos para o Santo Casamenteiro, o dono da cabeça em que Samuel dormiu.

“Já perto do fim da tarde adormeceu novamente, e só despertou às cinco horas em ponto, com as mesmas vozes de mulheres atormentando o que restava de seu juízo.” (p. 34)
Ilustração de Santo Antônio. Foto: Reprodução/Internet
Ilustração de Santo Antônio. Foto: Reprodução/Internet

É nesse momento que Socorro Acioli nos traz, mais uma vez, a ironia do destino. Imaginem uma pessoa que não acredita nos milagres dos Santos, de que há situações que acontecem sem explicação — mas acontecem —, e que, de repente, essa pessoa recebe o dom — ou a maldição — de escutar as súplicas de pessoas que acreditam não só no Santo, mas em seus milagres. Com o tempo, nos é explicado como essas vozes chegam até Samuel e nós ficamos responsáveis por interpretar se é, ou não, algum tipo de misticismo. A meu ver, não é a prova ou a falta dela que faz o livro girar e ser interessante, mas essas pequenas provas que alcançam um protagonista tão distante delas em corpo e espírito.

O livro ganha outra direção quando o protagonista acorda com esses dons. É a partir dele que Samuel tem contato com outras pessoas de Candeia e, consequentemente, com outros espaços da cidade. Nesse momento, outros personagens são introduzidos na história. Um deles é Francisco, um moço que nunca saiu de Candeia e desde cedo sofre com a inércia, com a mesmice, com a falta de movimentação na cidade e o mau-humor generalizado de seus moradores.

Aproveito este ensejo para pontuar a maneira como Candeia vai se revelado um local muito parecido com o nosso protagonista. Nesta história, Acioli constrói figurativa e tematicamente um quadro, uma tela de espelhamento de protagonista e espaço. Ambos são descritos como amargurados, de semblante fechado e nada receptivos. Os dois tiveram decepções, seja com pessoas reais ou entidades, tão marcantes, que a maneira como seguiram na vida se voltou para uma falta de crença a quaisquer fatores externos de círculo íntimo. Acho perspicaz como as mudanças que surgem após Samuel começar a escutar as vozes, afetam tanto nosso protagonista quanto o local onde se passa quase toda a história.

Com o passar da trama, Francisco se torna amigo de Samuel e o ajuda a explorar comercialmente o seu dom da escuta, promovendo casamentos e outras artimanhas amorosas. E antes parada no tempo, Candeia vai voltando à vida, à medida que vai sendo tomada por fiéis de todos os cantos, atraídos pelo poder de Samuel. Assim o livro segue mostrando mais um milagre, feito pelo personagem mais cético de todo livro. Com o dom de Samuel, a cidade volta a ter fé. E, em meio a esse tumulto, o protagonista vive o seu próprio milagre, o maior teste de sua falta de fé. Mas essa parte da história, recomendo que seja lida na íntegra no restante do livro.



Socorro Acioli. Foto: Reprodução/Internet
Socorro Acioli. Foto: Reprodução/Internet

Como precisamos finalizar, em A Cabeça do Santo é construída uma narrativa original, mesclando realismo mágico e crítica social com uma prosa fluida e cheia de imagens vívidas. Acioli tem um talento nítido para criar personagens memoráveis, especialmente as figuras secundárias, que dão densidade ao enredo. A obra aborda temas importantes, como tradição, solidão e redenção.

Assim, Socorro Acioli nos mostra, no decorrer do livro, que estamos sempre a um passo de ter, ou não, fé. Sendo necessária muita coragem para acreditar em algo. E eu, que comecei o livro com pouquíssimas crenças, terminei acreditando um pouco mais em tudo.


Ficha técnica

Título: A Cabeça do Santo

Autora: Socorro Acioli

Gênero: Romance/Ficção Contemporânea (com elementos de realismo mágico)

Editora: Companhia das Letras

Ano de Publicação (primeira edição): 2014

Sinopse: A obra narra a história de Samuel, um jovem que, após ser a morte de sua mãe, percorre o interior do Ceará com o objetivo de realizar seu último desejo. Lá, ele se abriga dentro da cabeça oca de uma estátua de Santo Antônio e descobre que consegue ouvir as orações das mulheres da cidade — incluindo segredos e desejos íntimos. A trama mistura humor, crítica social e elementos de realismo mágico, explorando temas como religiosidade, solidão e identidade.

SAIBA MAIS

Livros que trabalham com realismo mágico e todos deveriam ler:

A Casa dos Espíritos (1982, Isabel Allende)

Pedro Páramo (1955, Juan Rulfo)

Cem Anos de Solidão (1982, Gabriel García Márquez)

CURIOSIDADES

A “cabeça do santo” realmente existe. Em uma cidade do interior do Ceará, a estátua de Santo Antôntio ficou sem cabeça por anos, devido a problemas em sua construção.

A história de Samuel foi pensada por Socorro Acioli em uma oficina ministrada por Gabriel García Marquez, autor mundialmente conhecido por ser influenciar grande parte do gênero Realismo Mágico.


Comentários


MIX.png

A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

  • TikTok
  • Branca Ícone Instagram
  • Branca ícone do YouTube
  • Branca Ícone Spotify
bottom of page