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Contação de histórias: um mundo onde a infância aprende a sonhar

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 11 minutos
  • 10 min de leitura

Por Nilton Barros

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


PALAVRAS INICIAIS


Era uma vez uma mulher chamada Beatriz Teixeira Barboza, que além de ser pedagoga formada pela UFPE, no Centro Acadêmico do Agreste, instrutora de atividades recreativas do SESC Caruaru, animadora e cosplayer, também contava histórias para crianças. Todo sábado, ainda nos dias de hoje, às 16h, ela coloca sua melhor fantasia e vai para a Cultural Livraria e Cafeteria. Em meio às páginas de livros ilustrados, Beatriz transforma o espaço da Sala das Árvores em um mundo encantado: os pequenos ouvem sobre brinquedos falantes, animais que contam estrelas, gravetos que viram varinhas de condão e princesas que vivem aventuras ao lado de um dragão.

Um dia, Beatriz concedeu uma entrevista à Revista SPIA e relatou as suas experiências com a contação de histórias e sobre quais caminhos a levaram a essa prática. Beatriz, no decorrer do seu relato, salientou que o seu intuito não é apenas incentivar a leitura, como também é convocar as crianças a pensarem no livro como um portal mágico, pelo qual elas podem se teletransportar para um lugar onde tudo é possível.



COM A PALAVRA, BEATRIZ BARBOZA


Beatriz Barboza fantasiada de Branca de Neve para a "Superliga de Heróis". Foto: Instagram (@beah_cosplayer)
Beatriz Barboza fantasiada de Branca de Neve para a "Superliga de Heróis". Foto: Instagram (@beah_cosplayer)

Eu iniciei no mundo da literatura infantil ainda adolescente. Trabalhei na “Superliga dos Heróis” como personagem vivo, que é, basicamente, atuar como um personagem, como fazer a Branca de Neve, por exemplo. Mas é diferente de um cosplayer, que é a pessoa vestida. Você tem que realmente ser a Branca de Neve, como normalmente é na Disney e em outros lugares assim. E aí eu fui escalando as profissões e os trabalhos de personagem vivo. Comecei a fazer animação em festa infantil. Então, de personagem vivo, comecei a ser animadora — que é ficar mais ou menos na locução — para instruir as crianças nas atividades. Depois, comecei com recreação e, a partir daí, me interessei por Pedagogia e entrei na UFPE para iniciar o curso. Foi na UFPE que tivemos uma aula, em Metodologia de Ensino de Língua Portuguesa, que aprendemos a contação de histórias. Como contar a história para a criança, porque não é só ler: temos que questioná-las, perguntar o que estão achando, para fazer todo aquele suspense — principalmente na fase que não sabem ler —, que vai ser o momento introdutório que elas vão ter com os livros; as primeiras experiências, para ser algo interessante e motivá-las a ler.

Então foi assim, a gente acabou aprendendo. E, nesse contato com as crianças, eu comecei a trabalhar como professora de jogos teatrais. Nesses jogos, eu sempre gostava de basear minhas aulas em um livro, em uma história; para eu fazer um jogo que tivesse uma ligação com a narrativa: uma música. Eu sempre trazia uma história. Terminei a faculdade. Quando terminei a faculdade, a primeira oportunidade que apareceu para mim foi na Cultural Livraria e Cafeteria. Adoro lá, é perfeito. Comecei a fazer contação de histórias por lá todo sábado. Depois, comecei a atrelar também o origami junto da contação de histórias. E aí, todo sábado, eu faço essa imersão com as crianças independentemente da idade. Eu sempre digo que é para todas as faixas etárias, porque eu adapto. Pergunto o que elas sabem, o que elas não sabem. Se elas conseguem ler palavras, se não. Então fazemos toda uma imersão das crianças nesses primeiros contatos que elas têm com os livros infantis. E, depois disso, que elas todas já estão familiarizadas com a leitura, com o local e com os personagens, a gente faz a oficina de origamis, que normalmente tem a ver com o livro ou com algum elemento específico dele: seja o cenário ou os personagens da história. Sempre fazemos isso para realmente entrar no conto.



Ultimamente, quanto aos livros, eu estou sendo bem criteriosa. Gosto de livros que tenham bastante imagens. Eu amo muito muita imagem. Fico julgando aqueles livros infantis que são só texto escrito, texto escrito, texto escrito, e uma “imagenzinha”. Dependendo da idade, até rola: quando a criança já está se habituando à leitura, e isso faz todo o sentido. Mas, às vezes, são livros que têm uma história para a primeira infância, até os seis anos, só que com muitos detalhes específicos. Aí, eu não gosto. Gosto, realmente, de uma leitura que a criança tenha que parar, pensar e olhar a imagem para entender o que ela quer dizer. Isso ajuda bastante na contação de histórias: a gente lê e fala “o que será que isso quer dizer na imagem?”. Isso instiga as crianças a entenderem o que está acontecendo na história. Não é só ler. Não está falando a resposta na cara. Elas param, veem o que o contador de histórias falou, assimilam com a imagem para deduzir e falar “É isso que está acontecendo, tia!”. Cada um tem um pensamento. Eu falo: “Vamos ver o que é que vai acontecer!” e, assim, a gente vai fazendo a contação. Eu acho bem mais interessante livros que são assim.


Beatriz Barboza na Sala das Árvores, na Cultural Livraria e Cafeteria. Foto: Nilton Barros
Beatriz Barboza na Sala das Árvores, na Cultural Livraria e Cafeteria. Foto: Nilton Barros

Normalmente, eu já começo a contação de histórias falando o nome do ilustrador. Eu pergunto: “Vocês sabem o que é ilustrador e ilustração?”. A resposta é sempre um “Não”; só quando é uma criança mais velha, com seus 10 anos, que já tem uma memória prévia e diz que sabe. Mas, em geral, a faixa etária das crianças para quem eu faço contação de histórias não sabe. Então, eu falo que são as figuras, os desenhos, fotografias; depende muito de cada livro. Com isso, a gente faz primeiro essa introdução a elas, e falo: “E aí, vocês gostaram das ilustrações?”. Além delas ajudarem em todo o percurso do livro, eu também gosto de mencionar a história do ilustrador: “Olha, essa pessoa que fez o livro é fulano”. Às vezes é muito longo, então eu dou uma resumida, porque são crianças pequenas. Assim, eles já têm esse contato com o autor e com o ilustrador do livro. Depois, eu imagino elas realmente assim: pensando no que é que está acontecendo, a ação passando na mente delas. Porque no livro a gente só vê a imagem lá, parada. Por isso que utilizo muitas onomatopeias, faço muito suspense para fazer elas pensarem: “Aconteceu tal coisa, o personagem gritou, o personagem tá calmo”. Por isso é tão importante a forma como a gente conta as histórias. Numa passagem em que as coisas estão mais agitadas, por exemplo, a gente lê mais rápido, agilizando; quando mais calma, a gente fala devagar, e assim vai, justamente para elas conseguirem imaginar o que está acontecendo.



Às vezes, noto que uma criança está folheando outro livro, olhando para o outro lado, mas mesmo assim eu continuo. Às vezes achamos que essa criança está no “mundo da lua”, focada ali no livro, olhando para outro canto… Mas não, ela está escutando a história. Aí, quando faço uma pergunta, ela responde. Ela pode não olhar para mim, mas ela está centrada no que está acontecendo. No caso de crianças autistas, por exemplo, isso acontece com frequência. E às vezes as crianças interrompem. A gente está contando a história de um livro sobre um sapo, por exemplo, e uma criança chega e diz: “Olha tia, eu vou para o shopping!”, e eu respondo: “Que legal, mas vamos voltar aqui para a história?”. Sempre faço isso: eu valido o que a criança falou para não silenciá-la, e então, a convido de volta para a história e funciona.


Fantasias de Beatriz Barboza no SESC. Foto: Nilton Barros
Fantasias de Beatriz Barboza no SESC. Foto: Nilton Barros

As telas fazem um mal muito grande às crianças, principalmente em sala de aula. Eu, como pedagoga e recreadora, percebo isso. Em colônia de férias do SESC, durante a organização das turmas ou das atividades, percebemos o quanto elas ficam em abstinência, porque não utilizamos telas; de forma alguma. Então, sentimos que elas ficam com uma abstinência tenebrosa; com crianças pequenas chorando porque não têm um celular, não têm a TV. Elas também ficam agitadas, e só depois de um tempo na colônia de férias que realmente conseguem se acalmar. Um dos recursos que eu utilizo é justamente a contação de histórias. Depois do almoço, para não voltarmos ao agito imediatamente e termos uma atividade mais calma, eu sempre as levo para a biblioteca do SESC. É lá que fazemos esse momento de contação de histórias com elas, para elas terem essa imersão. Não só nesse caso, mas acho que em tudo — na escola, na livraria, com os pais antes de dormir — é muito importante para elas darem essa desacelerada.

Ao mesmo tempo, também é importante ter esse contato com o livro, com o lúdico, e não ser algo tão focado nas telas, porque realmente prejudica muito em todos os aspectos sociais das crianças. Sempre conversamos com os pais também, principalmente na livraria. Normalmente, os pais que levam as crianças para a livraria já têm essa iniciativa. Quando eu comento, é algo mais voltado para uma troca de experiências, mas eles já percebem isso também. Na colônia de férias, às vezes temos que falar com os pais, porque realmente a criança chega sofrendo com essa abstinência. Têm pais que nos procuram porque a criança não quer fazer outra coisa além de ficar numa tela e é muito difícil de tirar. Muitas pessoas julgam os pais, mas às vezes é a solução que eles têm. Não ter o que fazer com a criança faz com que eles as direcionem para a tela e quando veem já é tarde demais: a criança não faz outra coisa além de ficar na tela. Então, o nosso papel não é julgar, mas ensinar e incentivar as crianças a fazerem outra coisa.



Origami feito durante a contação de histórias. Foto: Nilton Barros
Origami feito durante a contação de histórias. Foto: Nilton Barros

Um desafio que eu enfrento na contação de histórias é que, às vezes, não é uma alternativa tão procurada. Quando tem alguma opção mais atrativa, o pessoal tende a escolher isso, mas eu acho a contação de histórias fundamental. Muitas vezes nem mesmo os pais nem levam as crianças para a contação, para evitar o deslocamento. É mais cômodo deixar em casa, deixar na frente de uma TV, de um celular. Então, acho que é isso. É realmente a participação dos pais em trazer os filhos que dá o pontapé inicial para o incentivo delas. Eu disse que o meu papel não é julgar, e não é mesmo. O que eu sei é que são várias realidades, mas por isso que incentivamos tanto as crianças a irem à livraria, a irem à biblioteca e ter esse momento. Às vezes elas não param quietas. É outro desafio por causa do vício de telas, mas, incentivando, conseguimos superar isso.




Tem um livro que eu achei tenebroso de ler. Ele fez parte dos livros que eu julgo: livros que, depois de ler muitos, percebemos algumas falhas graves, como ter muitos detalhes. Acredito que livro infantil não precisa ter tanto detalhe, como sair nomeando todo mundo ou contar cada ação que está acontecendo; acho essas coisas desnecessárias. Então, tem um livro que li bem à pulso, e achei tenebroso de ruim, mas eu li. Houve partes que li no resumo, e falava sobre o abandono de brinquedos. A mensagem que ele trazia era muito boa, mas foi a forma como ele abordava o assunto que não me agradou. Era uma mensagem muito bonita: temos que cuidar dos brinquedos; as crianças têm que cuidar, preservar. E se não estiver mais brincando, pode doar o brinquedo. Essa era a mensagem do livro. Uma criança simplesmente se encantou, até mesmo eu, com todos os meus julgamentos internos. É uma criança que eu sempre acompanho e que os pais realmente incentivam à leitura. Toda semana está conosco na contação de histórias, e ela nunca tinha se interessado em um livro tanto quanto se interessou nesse. Foi algo que me surpreendeu bastante.

Capa do livro "A Pior Princesa do Mundo". Foto: Reprodução/Internet
Capa do livro "A Pior Princesa do Mundo". Foto: Reprodução/Internet

Particularmente, sempre indico os livros da Anna Kemp, com ilustração da Sarah Ogilvie. Elas têm títulos como A Pior Princesa do Mundo (2012, Editora Paz & Terra), e é um livro fantástico. Sempre que vejo alguma criança, recomendo esse livro, porque ele quebra muitos estereótipos de que “a menina tem que ser uma princesinha, toda vaidosa”, e não, não tem! Esse livro mostra uma princesa que gosta de viajar, gosta de aventuras, e o plot twist da história é ela se tornar amiga do dragão e fugir com ele — apesar de ser salva por um príncipe. A história é mais ou menos assim: ela passa muito tempo esperando o príncipe chegar e quando finalmente o príncipe chega, ela é presa em outro castelo — o dele. Enquanto ele ia para as aventuras, ela ficava trancada dentro do castelo. Então, ela se revolta e foge com o dragão. É um livro sensacional, rimado. Eu adoro rimas. Adoro, adoro, adoro. Dá para fazer uma super contação de histórias quando tem rimas. Então, eu acho um livro bem enriquecedor, que as crianças param, filosofam sobre o que é que está acontecendo. Aí eu pergunto: “E aí, minha gente, vocês iam preferir estar no castelo ou sair em uma aventura com o dragão?”, e a opinião sempre divide. Metade diz: “Eu preferiria ficar no castelo!”, e a outra metade diz: “Não, eu preferiria ir com o dragão!”, e esse diálogo eu acho muito interessante. Então, acho que A Pior Princesa do Mundo é um título que me marcou bastante. Não só eles, na verdade, como todos os livros dessas autoras. Todos os livros dela são fantásticos. Todos. Não tem um que não valha a pena.

No lugar em que eu faço as maioria das contações, onde estou toda semana é a Cultural Livraria e Cafeteria, e todos os livros de lá já têm essa perspectiva social. Então, qualquer livro que eu vá escolher, tem uma filosofia por trás. Nesse sentido, é bem mais fácil e interessante, porque não tenho grandes dificuldades em encontrar. Existem lugares que, quando vou procurar um livro para fazer contação de histórias, realmente acaba sendo um pouco mais difícil, já que faço contação de histórias em outros locais também. Então, às vezes, é um pouquinho complicado para encontrar nessa perspectiva. Mas, lá na Cultural, não.



Beatriz Barboza na contação de histórias. Foto: Instagram (@cultural_livraria_cafeteria)
Beatriz Barboza na contação de histórias. Foto: Instagram (@cultural_livraria_cafeteria)

O início de tudo isso foi através do cosplay, mas como eu fazia essa atividade por hobby, preferi responder logo “personagem vivo”. Antes mesmo do personagem vivo, eu comecei com cosplay. Gosto muito de me caracterizar. E tenho muitos itens em casa, como vestidos diferentes; alguns na brinquedoteca do SESC também. Lá, nós recebemos algumas roupas e acessórios diferenciados para fomentar o lúdico das crianças, então eu utilizo isso junto da contação de histórias. Às vezes, quando é um livro sobre safári, sobre savana, por exemplo, vou com uma roupa mais de trilha; um chapéu, um binóculo, para entrar no clima e fazer as crianças entrarem nesse lúdico. Quando é princesa, como A Pior Princesa do Mundo, eu vou de vestido e coroa. Tem vez que é sobre a Mata Atlântica, e eu coloco um brinco de arara. Eu sempre faço isso, já que tenho uma coleção de brincos diferenciados. Brincos de Natal, brincos de Páscoa e Halloween. Gosto de estar bem caracterizada para ajudar na inserção da criança na história.



PALAVRAS FINAIS


No fim, Beatriz percebeu que a contação de histórias, além de um entretenimento, é um meio útil de fazer com que a criança entre em contato com a literatura, bem como de estimular a sua curiosidade e deixar que ela participe ativamente do que ouve. Pessoas como ela, que mantêm essa atividade adiante, se dedicam a narrar a história de um livro infantil — priorizando a articulação entre a imagem e o texto verbal — de modo que o afeto prevalece, com o auxílio de diferentes tons de voz, gestos e vestimentas a fim de instigar a imaginação. É por isso que, para ela, há histórias que nunca terminam: elas continuam residindo dentro dos pequenos que as escutam. Desde então, sempre que uma criança abre um livro na Sala das Árvores, ela pode ouvir a doce voz de Beatriz dizendo: “Os livros são como sementes, que a gente rega acordado e elas nascem em nossos sonhos ao dormirmos. Leiam, meus pequenos, e se permitam sonhar”.

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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