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Entre a fantasia pernambucana e o autoritarismo: Sangue Raro, de Lucas Santana

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 20 horas
  • 7 min de leitura

Por Washington Vitório

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Desde criança, lembro que meu voinho sempre dizia para eu não ficar brincando na rua até tarde da noite e tomar cuidado; se eu não obedecesse, a polícia iria me pegar e me levar para longe, para nunca mais voltar. Ele também falava que na casa abandonada na parte de baixo da rua, morava uma velha. Aos meus olhos, o medo daquela mulher, que apenas morava sozinha com seus gatos, a transformava em um monstro, em uma bruxa ou qualquer outra criatura que minha mente pudesse criar. Foi exatamente nessa sensação de crescer cercado por medos — medos esses que muitas vezes escondiam problemas muito mais reais —, que encontrei em Sangue Raro, de Lucas Santana: um reflexo da forma como aprendemos a temer aquilo que não compreendemos.



Capa do livro "Sangue Raro". Foto: Reprodução/Internet
Capa do livro "Sangue Raro". Foto: Reprodução/Internet

Publicado pela Companhia Editora Nacional (NACI) em abril de 2025, Sangue Raro é um livro de distopia fantástica que une bruxos poderosos, feitiços, uma nova ditadura militar e personagens com diferentes tipos de sangue que carregam propriedades perigosas. Porém, limitar a obra apenas aos seus elementos fantásticos seria ignorar a sua maior qualidade: a forma como a narrativa é construída profundamente enraizada em Pernambuco; na cultura, na oralidade, nos costumes e na identidade pernambucana — que não aparece apenas como cenário, mas como parte essencial da história, moldando a narrativa e transformando Pernambuco em um elemento ativo da construção do universo. Ao mesmo tempo, não tem medo de abordar temas incômodos, descrevendo — constantemente de maneira explícita — a nudez, a violência militar, e outras formas de brutalidade que percorrem a experiência do personagem principal, Caetano.



"Comecei a sentir a coisa estranha dentro de mim mais ou menos quando eu tinha dezesseis anos. Não sabia explicar o que era, faltavam palavras para entender e nomear, mas era algo que fervia, espalhando-se por debaixo da pele, pelos músculos, dentro dos ossos.” Sangue Raro (p. 16)

O livro acompanha a vida de Caetano, um jovem recifense morador do Morro da Conceição, que desde cedo entende que há algo de estranho nele. Ele é “sangue raro”: uma pessoa cujo sangue pode ser utilizado por bruxos na realização de feitiços diversos. Porém, por questões políticas, essas pessoas acabam sendo caçadas num golpe militarista, com a motivação de aproveitar de seu sangue para benefício militar e os exterminar, logo em seguida.

A narrativa é dividida entre capítulos que contam os momentos vividos por Caetano durante os seus dezesseis e dezessete anos; entre a descoberta de quem é ele no mundo, não apenas no sentido fantasioso, mas também nas questões de um jovem entendendo seus gostos, peculiaridades e sexualidade; e, então, capítulos que o apresentam dez anos depois, abatido e consumido pela culpa de ser quem é, dividido entre a necessidade de encontrar aqueles que lhe fizeram mal e o medo de reviver tudo aquilo novamente. Assim, a história se inicia no momento em que ele está sendo resgatado de uma instalação militar onde viveu por 10 anos sendo uma bica — nome dado a todos os sangue raros pegos pela ditadura, e que tinham seus sangues extraídos para benefício do comandante Fagner — e que era usado para rastrear outros como ele. Jorge, um bruxo desconhecido que precisa de seu sangue para resgatar sua filha, foi o responsável por libertar Caetano, o que acaba por inseri-lo na jornada do sangue raro.

Ao decorrer da leitura, me questionei o motivo da escolha de Lucas Santana: porque colocar bruxos e personagens com sangue distintos para serem os protagonistas de uma história que se entende desde o início como política? No entanto, não precisei ir muito além para entender que essa decisão faz total sentido. Ao longo da história da humanidade, as bruxas são interpretadas como símbolo do mal e do perigo, aspecto que Lucas Santana faz questão de reforçar ao recorrer a esses personagens em sua narrativa. Ele encontra maneiras de criar discussões sobre perseguição e exclusão em uma sociedade autoritária que, além de não compreender as diferenças dos indivíduos, usa do seu poder para controlar, silenciar e eliminar.

Essa lógica se mantém por todo o livro. Os bruxos e os sangue raros não são perseguidos apenas por serem diferentes, ou por sua dominação de magia, mas sim porque representam aquilo que o estado não consegue ter controle; aquilo que desafia a normalidade imposta pela sociedade que vive um regime militar.



É no coronel Fagner que essa lógica encontra sua representação mais evidente. Mais do que apenas o antagonista na história de Caetano, ele é a personificação do funcionamento da ditadura militar: um assassino com interesses próprios nos sangues raros e que legitimiza a violência como forma de proteção coletiva. Ele torna evidente que o principal instrumento da ditadura neste livro é o medo, que se faz necessário para convencer a sociedade de que existe um perigo. Denunciar um sangue raro é quase como um dever cívico, sob a falsa promessa de proteção e até mesmo de cura para os indivíduos considerados diferentes. Isto pode ser relacionado a alguns eventos da história da humanidade, como ocorreu durante a caça às bruxas, em regimes ditatoriais ou em outros processos históricos de perseguição, e até mesmo sobre como, uma parte da sociedade vê e trata pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ até os dias atuais.


“Meu coração estava acelerado, uma banda de maracatu tocando dentro de meu peito, meu sangue fervendo como nunca antes; eu sentia que minha pele explodiria.” Sangue Raro (p. 67)

Um elemento muito presente e marcante em diversas cenas descritas no livro, é a violência, que em alguns momentos é utilizada para chocar, em outros para criar uma tensão maior na narrativa. É quase como se você não conseguisse ter tempo para respirar pois algo ruim logo acontecia. O mais interessante é que esse artifício, algumas vezes vem acompanhado do toque do maracatu que é utilizado como um recurso narrativo. O maracatu, que é uma manifestação cultural afro-brasileira de música e dança originária de Pernambuco, tem um toque marcado pelo som grave das alfaias, acompanhado das caixas de guerra e do tarol. Isto é utilizado para criar no leitor a mesma ansiedade que está sendo vivida por Caetano, dessa maneira, o livro transforma uma manifestação cultural em uma linguagem que conduz os momentos de suspense da história.


Olinda, Pernambuco. Encontro de Maracatus de baque solto. Foto: Reprodução/Internet
Olinda, Pernambuco. Encontro de Maracatus de baque solto. Foto: Reprodução/Internet
“Eu não era um assassino. Eu não era um monstro. Eu precisava ser bom. Ser bom o tempo todo, para compensar minhas falhas.” Sangue Raro (p. 156)

Caetano talvez seja o aspecto que mais dividiu expectativas ao longo da leitura. Por diversas vezes, o protagonista se mostra muito vulnerável e até ingênuo demais, acreditando em muitos dos personagens que apareciam em seu caminho. Durante a história, ele foi sendo entendido, em muitos aspectos, como um personagem fraco, sobretudo diante da brutalidade que o cerca em todo o livro. A realidade é que, a falta de malícia de Caetano é intencional do autor, ao invés de uma limitação do personagem. Enquanto o livro vai se desenrolando em questões sérias, sobre segregação, desigualdade social e violência, a personalidade de Caetano era o que, de fato, trazia um respiro e uma paz necessária para que a história não se seguisse de maneira tensa e pesada o tempo inteiro.

A partir do momento que ele fala que não é um assassino e nem um monstro, o autor toma para a história rumos que definem o contrário daquilo que foi inserido na narrativa dos sangues raros; é Caetano mostrando que o perigo nunca esteve de fato naqueles que eram vistos como os inimigos. E mesmo após uma possível mudança em sua atitude, em querer buscar vingança pelos anos que lhe foram tirados, e ele fora feito de bica; ainda assim, Caetano demonstra uma sensibilidade que se torna um contraponto ao bruxo Jorge que o acompanha nessa jornada, visto que, Jorge é o personagem forte e guerreiro que normalmente se espera em uma distopia.

A escrita de Lucas Santana é fluida e versátil durante todo o livro. A maneira como constrói pontos específicos das cidades — indo de Recife e Olinda até Arcoverde e tantos outros espaços — aliada ao regionalismo linguístico pernambucano nos diálogos, aproxima o leitor através da narrativa que causa identificação quase imediata com a história. É de tal maneira que em alguns momentos nos colocamos no lugar de Caetano; vivemos o universo criado sob o olhar do sangue raro.

É uma história escrita para todos, mas que de uma maneira muito específica nos atinge de formas diferentes. Seja através da descrição das festas de carnaval, das máscaras de la ursa — inseridas como elementos que podem ser utilizados para feitiços e causar ilusões — ou pelos momentos onde nos sentimos em um outro Pernambuco, narrado e retratado sob o impacto da devastação causada pela ditadura no livro. O resultado é um livro onde Lucas incorpora elementos enraizados da cultura popular, convencendo o leitor de que tudo aquilo é real e é justamente essa proximidade que faz da narrativa impactante.


La ursa de Carnaval - Recife, 2020. Foto: Reprodução/Internet
La ursa de Carnaval - Recife, 2020. Foto: Reprodução/Internet

Ao final de Sangue Raro pensei novamente no que meu voinho dizia. Cresci acreditando que o perigo poderia ser a velha solitária que morava no terreno abandonado ou nas criaturas da minha imaginação. A realidade é que aquela mulher não era uma bruxa e nem nada do tipo, ela só era diferente; alguém que, de alguma forma, preferiria viver sua vida longe dos outros, em paz. Ainda que fosse uma bruxa, ela não tinha de fato feito nada a ninguém para que se tivesse criado esse medo nas crianças da rua.

Por outro lado, Lucas Santana me faz pensar que os comentários de meu avô sobre a polícia, se devam aos ecos de uma geração que viveu os anos de ditadura e aprendeu a desconfiar do poder quando ele se apresenta como proteção. E que os perigos não vêm de quem pratica feitiços ou carregam sangue raro, mas talvez venham daqueles que juram proteger a população quando, na realidade, o fazem impondo o medo. É por isso que Sangue Raro permanece na memória depois da última página: utiliza a fantasia não para nos afastar da realidade, mas para nos obrigar a encará-la.



CURIOSIDADES

Embora Sangue Raro seja profundamente marcado pela cultura pernambucana, Lucas Santana nasceu na Paraíba. Elu se identifica como uma pessoa não binária e vive atualmente em Recife, cidade que influencia fortemente o imaginário e os cenários presentes no livro.

Lucas Santana é autore de O Silêncio do Mangue (Naci, 2024), A Trama da Morte e Fruto Podre (Editora Corvus, 2023), além do conto O Parque. Também publicou contos nas revistas Suprassuma (Editora Suma, 2023), The Dark e Pulpa, e integrou a antologia Rocket Pages (Editora Rocket, 2022).


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