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A Cultura de PE na Pele com Hachura 

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • 13 de jul.
  • 5 min de leitura

Por Filipi Alexandre



"Não troco o meu 'oxente' pelo 'ok' de ninguém!" – Ariano Suassuna


Em 18 de outubro de 1970, floresceu no Recife um dos mais importantes movimentos da arte brasileira, idealizado pelo lendário escritor paraibano Ariano Suassuna, que fundou o Movimento Armorial. A iniciativa artística surgiu como uma forma de resistência à cultura estrangeira e tinha como objetivo criar uma arte erudita brasileira com profundas raízes populares nordestinas, tendo como principal base para a construção de sua identidade a própria cultura popular da região.

Apesar de ter recebido apoio da própria Prefeitura do Recife, o Movimento Armorial travou uma importante batalha intelectual com outro movimento que também buscava reafirmar as raízes populares do Nordeste. Na década de 1990, surgiu o manifesto "Caranguejos com Cérebro", idealizado por artistas como Chico Science e Fred Zero Quatro. O manifesto deu origem ao movimento Manguebeat.


Mangue, a cena


Emergência! Um choque rápido ou o Recife morre de infarto! Não é preciso ser médico para saber que a maneira mais simples de parar o coração de um sujeito é obstruindo as suas veias. O modo mais rápido, também, de infartar e esvaziar a alma de uma cidade como o Recife é matar os seus rios e aterrar os seus estuários. O que fazer para não afundar na depressão crônica que paralisa os cidadãos? Como devolver o ânimo, deslobotomizar e recarregar as baterias da cidade? Simples! Basta injetar um pouco de energia na lama e estimular o que ainda resta de fertilidade nas veias do Recife...


Décadas depois do Armorial e do Manguebeat, esse sentimento de valorização da cultura pernambucana continua inspirando artistas contemporâneos. Entre eles está Sostenes, tatuador pernambucano nascido no Recife e criado em Carpina, cidade da Zona da Mata. Ele teve contato direto com manifestações da cultura popular, experiências que futuramente exerceriam grande influência sobre o seu trabalho.


Sostenes Marcos | Tatuador
Sostenes Marcos | Tatuador

"Lá, a cultura popular se manifesta de uma forma muito forte, seja pelo maracatu rural, pelas festas de cavalo-marinho, no carnaval com as burrinhas e os mascarados passando de casa em casa pedindo dinheiro. Eu cresci no meio disso, vendo todas essas manifestações da cultura popular, que me trazem toda uma afetividade da minha infância. Como questão política, eu penso que, se é para ter alguém retratando a nossa cultura, que seja a gente que vive essa cultura."

A decisão de tatuar veio após uma mudança de carreira durante a pandemia. Embora desenhasse desde criança e já fosse fascinado por tatuagens, Sostenes só começou a estudar biossegurança e técnicas em 2022. No ano seguinte passou a atuar profissionalmente.


"eu me vi em um momento muito insatisfeito com o meu trabalho e estava buscando uma nova profissão, foi quando um amigo meu perguntou por que eu não começava a tatuar, já que eu desenhava tão bem, e essa idéia fez muito sentido para mim, foi daí que eu comecei a buscar mais informações sobre o mundo da tatuagem buscando entender mais sobre cuidados, biossegurança e técnicas, e só em 2023 que eu comecei realmente a tatuar como profissão"

Tatuagem como manifestação da própria origem


Sostenes cultiva uma visão muito mais alinhada à de Chico Science e do Movimento Manguebeat, reconhecendo-se inserido em um mundo globalizado e utilizando referências externas para ampliar o alcance da cultura de sua região. Um exemplo disso é o seu estilo autoral, marcado pelo uso da técnica da hachura.


Retrato de Dirck Volckertsz Coornhert | Internet
Retrato de Dirck Volckertsz Coornhert | Internet
"Sim, eu sempre achei muito interessante como eram feitos os desenhos e as ilustrações de livros antigos de anatomia e arte sacra, devido ao uso de hachuras. A forma como usavam os traços para trabalhar profundidade e sombreamento, particularmente, eu acho que gera um resultado muito elegante. Quando comecei a tatuar, quis juntar o gosto que eu tinha pela hachura com a tatuagem. No Brasil, o estilo de hachuras ainda é uma técnica nova na tatuagem, mas, na Europa, é um estilo já bem consolidado."

Sostenes usa da Hachura como principal técnica para desenvolver sua arte, e ele faz da seguinte forma:

"Primeiro eu faço todo o 'esqueleto' da arte pensando no aspecto geral. Em seguida, penso em que ângulo a luz estaria batendo no objeto desenhado e, a partir daí, vou preenchendo com as hachuras. Essa parte eu não tenho um método em si; vou fazendo conforme acho que fica melhor, sempre preenchendo mais onde imagino que estejam as sombras mais fortes e diminuindo a intensidade à medida que caminho em direção à luz, até chegar a um resultado que eu considere satisfatório. Vai também da sensação que eu quero passar. Se é algo mais delicado, busco fazer linhas mais finas e mais ordenadas. Se quero transmitir movimento, faço traços que fogem do esqueleto da arte."
"Na hora de criar uma arte, eu busco imaginar a cena que quero retratar e a perspectiva que ela deve ter. Depois, começo a buscar referências, porque, mesmo não sendo um realismo sombreado, gosto que minhas artes e tatuagens, mesmo feitas com hachuras, fiquem o mais próximo do real possível. A etapa de colher referências, para mim, é a mais importante de todo o processo; é nela que eu amadureço a ideia de verdade."
Tatuagem Homem da Meia-Noite | Foto: Instagram
Tatuagem Homem da Meia-Noite | Foto: Instagram

"Essa do Homem da Meia-Noite mesmo foi todo um processo para chegar nesse resultado. Primeiro, eu tentei retratar um boneco gigante como se fosse uma pessoa. Eu queria representá-lo de uma forma que passasse a impressão de que ele estivesse acenando com a cabeça para alguém. Para isso, tive que pensar bastante na pose que ele teria."

O futuro de uma tradição 


Sostenes pretende abrir um estúdio em parceria com a sua associação, a SOMA. A proposta é criar um espaço colaborativo, funcionando como uma espécie de incubadora para fortalecer a cena da tatuagem local e impulsionar tatuadores iniciantes por meio da troca de experiências.

Já em seus projetos pessoais, Sostenes pretende desenvolver novos trabalhos voltados para a fauna e a flora brasileiras, além de continuar explorando a cultura nordestina, buscando expandir o seu repertório estético.

"Esses dias eu venho flertando muito com o new school e o sketch, que são estilos de traços fortes, mas com a junção de sombreados, o que eu acho que deixa um resultado muito interessante."

Mesmo que alguns estados brasileiros tenham orgulho da tradição herdada de seus colonizadores e que ainda exista um cenário em que muitos brasileiros valorizem mais aquilo que vem de fora e a cultura erudita europeia, o povo pernambucano sempre demonstrou resistência a essa lógica. Um povo orgulhoso e forte que, do mítico sertão ao caótico mangue metropolitano, gritou e fez valer a sua própria identidade. Artistas como Sostenes representam a continuidade dessa resistência, transformando a cultura popular em linguagem artística e reafirmando a identidade de um povo que nunca troca o seu "oxente" pelo "ok" de ninguém.


Siga @sosso.so_ para acompanhar mais do seu trabalho.

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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