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Escrita e narração: entrevista com Ilca Vilela

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 3 dias
  • 9 min de leitura

Por Eduarda Santana

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


PALAVRAS INICIAIS


Carolina Maria de Jesus, fez da escrita um instrumento para sobreviver ao próprio cotidiano. Jarid Arraes, em seu livro Corpo desfeito (2022), abordou sobre infância e sexualidade com uma escrita visceral ao falar sobre sua realidade. Conceição Evaristo, com sua prosa poética, criou o termo "Escrevivência" e deu ênfase no poder em contar experiências vividas por mulheres pretas dentro da literatura. Amanda Lovelace, Maria Luiza Martins, Igor Pires, Akapoeta e tantos outros artistas utilizam da palavra para narrar emoções humanas e conduzir os leitores a buscar uma poesia revelada só por meio da travessia na literatura.

Através de escritos como os dessas autoras e muitos outros, podemos observar nossas próprias vivências narradas. O impacto cultural que surge a partir do uso da linguagem na vida é, além de tudo, um direito. Um direito de conhecer a própria história e a própria dor. É o direito à Literatura acima de tudo, assim como defendia o crítico literário Antônio Candido. Nesta entrevista, a linguista Ilca Vilela, de Garanhuns (UFRPE:UAG e atual UFAPE), fala um pouco sobre a sua trajetória acadêmica e sua relação com a linguagem escrita. Ela reflete também sobre os efeitos da literatura na sociedade e em nossa identidade cultural.



[EDUARDA] Primeiramente, gostaria de dizer que é uma honra lhe entrevistar e poder falar um pouco sobre meu tipo de linguagem favorito, que é a escrita. Mais precisamente, a escrita literária com foco na narração. O que você aponta como narração e o que ela tem a ver com a narratividade que estudamos em semiótica?


[ILCA] Assim como você, Eduarda, também tenho preferência pela escrita. A honra é minha por ter a oportunidade de dialogar com você sobre um tema que tanto nos aproxima.

O conceito de narração está tradicionalmente associado aos estudos da Narratologia, tendo como principal objeto de investigação os textos literários e as diferentes formas de construção das histórias. Já o conceito de narratividade, na perspectiva da Semiótica Greimasiana, possui um alcance mais amplo. Trata-se de uma estrutura constitutiva de todo e qualquer texto, independentemente de sua linguagem ou suporte.

Nessa concepção, seja em um anime, em um romance, em uma reportagem, em uma propaganda ou até mesmo em uma postagem no Instagram, é possível reconhecer uma organização narrativa mínima: uma cena em que um sujeito se relaciona com um objeto de valor, buscando conquistá-lo, preservá-lo, perdê-lo ou transformá-lo. É justamente essa dinâmica entre sujeitos, objetos, valores e transformações que constitui a narratividade como princípio organizador da produção de sentidos.



As histórias contadas — assim como suas transformações e personagens — são um simulacro do real e constroem um modo de ser o real. Essa organização de narrativa acontece por quem a conta, a quem chamaremos de “sujeito da enunciação”. Esse sujeito, então, constrói um simulacro do mundo e estrutura a história. Ilca, você acredita que esses simulacros influenciam de fato a maneira como vemos o mundo? Ou, de outro modo: ele tem o poder de fazer a gente ver o “social” de uma outra perspectiva que não necessariamente a nossa?


Os simulacros constituem poderosas ferramentas de construção de imagens discursivas que se manifestam nos textos. Por meio das estratégias linguísticas que seleciona, um determinado veículo de comunicação pode construir a imagem de um político como competente e honesto ou, em sentido oposto, elaborar o simulacro de um político desonesto e incompetente. Embora os simulacros não se refiram à pessoa em sua existência concreta, mas a construções produzidas pela linguagem, a ampla circulação dessas imagens pode influenciar significativamente a forma como os sujeitos interpretam a realidade e orientam seus julgamentos no cotidiano.


Livro "Sociedade do Cansaço", de Byung-Chul Han (2015, Editora Vozes). Foto: Reprodução/Internet
Livro "Sociedade do Cansaço", de Byung-Chul Han (2015, Editora Vozes). Foto: Reprodução/Internet

Como você acha que isso nos afeta em nossa identidade, sobretudo devido à sociedade do cansaço que o filósofo e ensaísta Byung-Chul Han reflete em que estamos?


No contexto da sociedade do cansaço, conceito desenvolvido pelo filósofo Byung-Chul Han, os indivíduos procuram responder a um número cada vez maior de demandas, na tentativa de maximizar seu desempenho. Como consequência, tornam-se exaustos e progressivamente incapazes de usufruir do tempo livre de maneira desinteressada, em razão do excesso de estímulos promovido pelas mais diversas tecnologias. Nesse cenário, os simulacros desempenham um papel relevante na conformação de valores, crenças e escolhas, uma vez que moldam percepções e influenciam os processos de interpretação da realidade.



Ilca, vejo que a literatura sempre esteve presente em sua vida, você sempre gostou da área de letras? Você saiu da sua cidade natal e foi para a Universidade de São Paulo (USP). Como foi esse processo?


Desde a infância, encontrei na literatura um espaço de refúgio, descoberta e criação. Foi esse interesse que me conduziu aos estudos da linguagem e, posteriormente à oportunidade de ingressar na Universidade de São Paulo (USP), para realizar a pós- graduação stricto sensu em Linguística.

Durante esse período, desenvolvi estágio de docência nos cursos de graduação em Letras. Além dos plantões de dúvidas para graduandos, acompanhamos integralmente as aulas do professor supervisor, o que me permitiu conhecer de perto o elevado nível de exigência acadêmica da USP desde os primeiros períodos da graduação. Lembro, por exemplo, que na primeira semana de aulas de uma das turmas, já eram solicitadas leituras de trabalhos de um linguista francês sobre a teoria desenvolvida por Hjelmslev. Isso significava que os estudantes precisavam enfrentar, simultaneamente, a complexidade da metalinguagem linguística e o desafio da leitura de bibliografia especializada em outros idiomas.

Na pós-graduação, o rigor acadêmico era bastante elevado. Além das disciplinas aprofundadas em Linguística e Semiótica, participávamos de seminários ministrados por pesquisadores estrangeiros, especialmente de Paris, da Bélgica e da Itália, que apresentavam suas conferências em seus idiomas de origem. Esses encontros ampliavam o diálogo entre os estudos da linguagem e áreas afins, proporcionando uma formação intelectualmente desafiadora e enriquecedora.

Essa experiência me mostrou um ambiente acadêmico de excelência, marcado por elevados padrões de ensino, pesquisa e extensão. Não por acaso, a USP é reconhecida como a principal universidade do Brasil e uma das mais prestigiadas da América Latina, reunindo condições institucionais e investimentos que favorecem a produção científica e a formação de pesquisadores.


Ilca na UFAPE. Foto: Instagram (@ilca.suzana)
Ilca na UFAPE. Foto: Instagram (@ilca.suzana)

Em Garanhuns, sua cidade natal, existe o curso de letras da UFAPE, antiga UAG. Você sente muita diferença no ensino?


No contexto da UFAPE, encontro uma realidade igualmente significativa, embora com características distintas. O curso de Letras desempenha um papel fundamental na formação de profissionais críticos, éticos e comprometidos com a Educação Básica, especialmente no desenvolvimento das competências de leitura, escrita e uso social da linguagem. Essa qualidade foi reconhecida pelo Ministério da Educação, que atribuiu ao curso a nota máxima (5) na avaliação realizada em 2024, reafirmando seu compromisso com a excelência na formação docente.



O que é linguagem para você e o que ela representa em sua vida?


Parafraseando Clarice Lispector, posso afirmar que a linguagem constitui o nosso domínio sobre o mundo. É por meio dela que interpretamos a realidade, construímos conhecimentos, expressamos pensamentos, compartilhamos experiências e estabelecemos vínculos com os outros. Muito além de um simples instrumento de comunicação, a linguagem é o fundamento da vida em sociedade, pois possibilita a produção, a circulação e a transformação de sentidos.

Nosso acesso à significação e à atribuição de sentidos aos diferentes sistemas semióticos — sejam eles verbais, não verbais ou sincréticos, como ocorre nas histórias em quadrinhos, nos infográficos, no cinema e em outras manifestações que articulam múltiplas linguagens — é mediado pela linguagem. É ela que torna possível interpretar signos, compreender contextos e produzir respostas adequadas às diferentes situações comunicativas.

Nessa perspectiva, a linguagem desempenha um papel constitutivo na formação dos sujeitos e nas práticas sociais, uma vez que organiza o pensamento, orienta as interações humanas e permite a construção coletiva de conhecimentos, valores e identidades. Ao interagir com diferentes textos, discursos e gêneros, os indivíduos desenvolvem competências para participar de maneira ativa e crítica da vida social.



Você tem uma pesquisa sobre a afirmação da identidade e o discurso quilombola. Este é um tema bastante importante, principalmente colocado para pensar juntamente a literatura e seu poder de dar dimensão a um discurso. Você poderia falar um pouco sobre o tema e, especificamente, sobre as bonecas pretas de Conceição das Crioulas que você cita?


Estudei os processos de afirmação das identidades quilombolas através da prática artesanal desenvolvida pelas mulheres quilombolas de Conceição das Crioulas, especificamente, tendo como objeto de análise as bonecas pretas deste Quilombo. Nessa pesquisa, pude perceber que mais do que uma atividade econômica ou artística, o artesanato produzido nesse território constitui uma poderosa manifestação de memória, identidade e resistência histórica, revelando a profundidade dos vínculos entre cultura, ancestralidade e luta coletiva. Ao contemplarmos os saberes e fazeres dessas mulheres, emergem sentidos múltiplos que atravessam a valorização da negritude, a preservação das tradições afro-brasileiras, a sustentabilidade comunitária, a autonomia política e econômica e a reafirmação contínua da identidade quilombola.

Para a produção da tese, estabeleci três grande movimentos reflexivos: 1) No primeiro, discuti o conceito de quilombo, destacando a pluralidade de sentidos que o envolve e problematizando perspectivas fixas e homogêneas sobre essas comunidades na contemporaneidade. Em seguida, voltando o olhar especificamente para o Quilombo de Conceição das Crioulas, situado no sertão pernambucano, apresentando aspectos de sua história, de seu território e das práticas artesanais que constituem importante expressão de sua identidade cultural; 2) No segundo, articulei os discursos de identidade às Bonecas Pretas produzidas artesanalmente em Conceição das Crioulas, tomando como base conceitos da semiótica greimasiana, como isotopia, triagem e mistura. Investiguei como esses mecanismos discursivos produzem efeitos de sentido relacionados à inclusão, à participação social, à valorização da ancestralidade africana e à afirmação da identidade negra e quilombola. As Bonecas Pretas foram analisadas como objetos simbólicos que condensam memórias, afetos e narrativas de resistência, constituindo-se como importantes instrumentos de representação cultural e política e 3) Por fim, no terceiro e último movimento de análises, observei os elementos semióticos presentes nas Bonecas Pretas que contribuem para a construção de uma discursividade esteticamente sedutora e eticamente engajada.

Analisei como tais elementos influenciam o olhar e o envolvimento do público consumidor, especialmente daqueles que se identificam com os valores, as lutas e a estética quilombola. Dessa forma, busquei demonstrar que o artesanato produzido em Conceição das Crioulas não apenas comunica identidades, mas também mobiliza sensibilidades, promove reconhecimento social e fortalece práticas de resistência cultural profundamente enraizadas na experiência histórica dos quilombos brasileiros.


Bonecas Pretas produzidas em Conceição das Crioulas. Foto: Reprodução/Internet
Bonecas Pretas produzidas em Conceição das Crioulas. Foto: Reprodução/Internet

Quais são as obras que, ao ler, você sentiu uma transmutação de sentimentos muito forte na narratividade? O que isso revela sobre o sensível e o inteligível dentro da narração?

Edição comemorativa de "A Paixão segundo G.H." (2020, Editora Rocco). Foto: Reprodução/Internet
Edição comemorativa de "A Paixão segundo G.H." (2020, Editora Rocco). Foto: Reprodução/Internet

As obras de Clarice Lispector são uma fonte de profundo trabalho com a graduação dos afetos na palavra literária. Em suas narrativas é recorrente o assomo de uma forte carga de sentimentos diante de um acontecimento geralmente banal. Assim, uma mulher é completamente impactada ao se deparar com um cego em um momento qualquer de seu cotidiano. Outra é tão absorvida e tomada pela presença de uma barata que, por consequência, todo o edifício de sua vida vai então desestruturar-se. Em comum nessas personagens, e em tantas outras criaturas ficcionais clariceanas, é a saída de um cotidiano inteligível e ordeiro e, de repente, a ruptura dele por uma intensidade forte de afetos provocada por um instante, a partir do qual toda a inteligibilidade que deu base às ações do dia a dia vida anteriormente passam a ser questionadas.



Mesmo estando na era digital, onde mais se consome conteúdos de vídeos rápidos, como você pensa os modos de narrar literatura na atualidade?


A literatura pode incorporar, em seus textos, elementos característicos da cultura digital, como os efeitos de sentido de celeridade e de dissolução, além de tematizar questões como a superficialidade das relações interpessoais, as diferentes formas de violência produzidas no ciberespaço, entre outros aspectos. No que se refere à representação da era digital na literatura, O Círculo, de Dave Eggers, constitui um exemplo significativo. Por meio do gênero distópico, o autor norte-americano constrói uma crítica contundente às contradições da sociedade em rede. A promessa de conectividade, transparência e compartilhamento é gradualmente desvelada como um mecanismo de vigilância crescente e de enfraquecimento da privacidade, evidenciando as ambiguidades do mundo digital contemporâneo.

Em outra perspectiva, a de crítica literária, Katherine Hayles propõe o conceito de "literatura eletrônica", que desloca a atenção para o próprio suporte de produção da obra literária. Trata-se de uma literatura concebida especificamente para meios digitais e, por isso, impossível de ser plenamente transposta para o suporte impresso. Essas obras exploram recursos próprios das tecnologias digitais, como animações, multimodalidade, hipertextualidade e processos de criação colaborativa, fazendo do meio parte constitutiva da experiência estética.

Em síntese, o que se pretende destacar é que cada projeto literário pode se apropriar das características de seu tempo histórico em favor da invenção estética. Essa apropriação pode ocorrer por meio de uma reflexão metalinguística sobre as condições de produção da literatura, pela construção de dispositivos de crítica ao presente ou de diversas outras formas. Em última instância, a maneira como os elementos literários serão mobilizados dependerá dos efeitos estéticos e éticos que a obra pretende produzir.


Dentre tantas obras, quais você deixa de indicação para os leitores da revista?

Indico o romance Um sopro de vida de Clarice Lispector tanto pelas oscilações entre sensível inteligível quanto pela magistral criação de uma prosa poética.


Capa do livro "Um sopro de vida" (2020, Editora Rocco). Foto: Reprodução/Internet
Capa do livro "Um sopro de vida" (2020, Editora Rocco). Foto: Reprodução/Internet

PALAVRAS FINAIS


Através das palavras de Ilca, é possível perceber o quanto a linguagem é sensível, mas ao mesmo tempo poderosa. Seu poder de ruptura e de transformação nos alcança enquanto lemos e, então, nos deixamos ser afetados de forma mais profunda. Ilca nos ajuda a perceber que até mesmo por meio do artesanato isso ocorre. A arte tem o poder de nos mobilizar internamente. É por meio da palavra que entendemos o mundo: ela revela nossos gestos como uma tradutora.

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