A bola ao sol e à sombra sobre o olhar de Eduardo Galeano
- Revista Spia

- há 6 dias
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Por Cássio Holanda
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins
Em agosto de 1995, nos EUA, a Microsoft lançava o Windows 95 e revolucionava o mercado de computadores domésticos apresentando a internet a milhões de lares no mundo. Antes, também nos EUA, em abril, ocorreu o até então considerado maior atentado terrorista doméstico do país, quando dois supremacistas brancos e militantes de extrema direita resolveram explodir um caminhão-bomba em frente a um prédio do governo em Oklahoma City, matando 168 pessoas e deixando mais de 680 feridos.
Em Kobe, no Japão, em janeiro daquele mesmo ano, as terras se abriram por causa de tremores que deixaram mais de 6.400 mortos. A guerra da Bósnia continuava a jogar irmãos contra irmãos em uma conflito sem sentido com massacres como o de Srebrenica.
Fontes bem informadas de Miami anunciavam a queda iminente de Fidel Castro, que ia despencar em questão de horas. O Mercosul se consolidava e se expandia pela união de países sul-americanos, mas dois destes entravam em uma disputa armada: Equador e Peru lutavam em um embate fratricida na Cordilheira do Condor. No futebol, a seleção Uruguaia se sagrava campeã da Copa América, e via um de seus mais ilustres filhos escrever um clássico maior sobre a religião pagã mais cultuada no mundo, nascia a obra Futebol ao sol e à sombra (L&PM Pocket, [1995] 2010), de Eduardo Galeano.
Agora você deve estar pensando que é no mínimo inusitado abrir um texto sobre um livro de futebol desta forma, certo? Porém, para começar um texto que discute a obra de Eduardo Galeano, era preciso um pontapé inicial um pouco diferente, pois aqui, falaremos de um escritor que transita entre gêneros literários de forma fluida e original, e que comete, sem remorsos, a quebra de fronteiras da linguagem. Eduardo Hughes Galeano (1940 – 2015), nascido em Montevideo, no Uruguai, foi um jornalista e escritor com mais de 40 livros publicados e traduzidos para diversas línguas. Dentre suas obras, destacam-se O livro dos abraços (L&PM Pocket, [1989] 2005), o livro abordado neste texto, Futebol ao sol e à sombra, e o clássico maior As Veias abertas da América Latina (Paz e Terra, [1971] 2000).

Quando criança, o autor sonhou em ser padre e jogador de futebol, mas o cinismo crescente na adolescência e a falta de habilidade com a bola nos pés o distanciou destes dois caminhos profissionais, fazendo com que ele seguisse outro amor, o da escrita. Foi perseguido pela ditadura uruguaia, tendo que se refugiar em 1973 primeiro na Argentina e depois na Catalunha, Espanha. Só retornando para o Uruguai em 1985, quando a ditadura uruguaia chegava ao fim.
Em Futebol ao sol e à sombra, obra na qual Galeano cria uma verdadeira epopeia sobre o futebol. Ele o apresenta desde o início do esporte, com um jogo similar jogado por chineses e outro, por povos da América anterior à invasão europeia. O texto prossegue até o início do futebol, criado pelos ingleses, com regras similares às que temos hoje.
O livro é estruturado em formato de crônicas, à moda de Galeano, unindo fatos jornalísticos a um texto lírico, de certa forma até poético. As crônicas não são longas, o que transforma a leitura em uma atividade ágil e prazerosa, mas advirto, tem que ser consumida aos poucos, para que os textos sejam digeridos da forma cadenciada e produtora de um prazer que beira o estético. A leitura segue uma ordem cronológica na apresentação das figuras e contextos, sempre envolvendo o principal tema, o futebol.

Em temas solares, além de jogadores que se destacaram no jogo – como Obdulio Varela, capitão do Uruguai na vitória sobre o Brasil, na final da copa do mundo de 1950 –, o conhecido Maracanazo, Barbosa, goleiro brasileiro que entrou para a história por levar o gol da virada na final de 1950 e que, no dia de sua morte, foi manchete de jornais que faziam referência à referida derrota: “Brasil assiste a segundo enterro de Barbosa” (Folha de São Paulo, 2000). Também são apresentados Pelé, Maradona, Didi, Cruyff, Gullit, Puskas, Di Stefano, e outros jogadores fundamentais no futebol.
Além disso, são abordados grandes esquadrões da história, como La Máquina, a equipe histórica do River Plate, O Santos de Pelé, O Carrossel Holandês encabeçado por Cruyff, e a divertida Colômbia de Valderrama e companhia. Em uma das mais belas crônicas do livro, Galeano relata um momento em que outro jornalista, Osvaldo Soriano, narra uma visita a um carrefour, construído em cima do antigo estádio do San Lorenzo, quando ele é acompanhado por um dos goleadores do time homônimo naquele estádio, então, inexistente. Em pleno carrefour, recriam um gol emblemático. José Sanfilippo, reproduz novamente um gol fantástico em meio às prateleiras do supermercado.

O livro também aborda o lado sombrio do futebol, sobre o quanto ele é usado por ditaduras no mundo todo, exemplificando a tese com casos relacionados ao Real Madrid de Franco, ao uso da seleção brasileira por Médici, Videla e a seleção Argentina campeã em solo Portenho no ano de 1978. Além disso, aborda a transformação do esporte em produto, com a FIFA surgindo como uma superpotência geopolítica, tendo mais membros do que a ONU até os dias de hoje.
As principais crônicas do livro, que acabam unindo os aspectos solares com seus heróis e derrotados e aspectos sombrios, com o uso do futebol para controle, são as que abordam as Copas do Mundo, nas quais Galeano une com maestria seu apurado jornalismo com afiada forma de escrever literatura. Nessas crônicas, temos um apanhado de fatos que ocorreram no ano da Copa (te lembra algo?), e a narrativa do que aconteceu no evento em si. Na publicação original, tínhamos textos desde a primeira Copa do Mundo organizada em 1930, no Uruguai, até a Copa dos EUA em 1994; em uma versão posterior lançada no Brasil pela editora L&PM, foram adicionados textos sobre as Copas de 1998 à 2014.
De certa forma, Galeano usa de sua literatura como ferramenta de análise histórica, partindo muitas vezes do indivíduo rumo a um entendimento geral, quase como metodologia da micro-história. Aborda narrativas de personagens, gols, torneios, como mote para desenvolver temas relacionados à sociedade, como racismo, capitalismo e guerras.

Futebol ao sol e à sombra continua sendo uma leitura indispensável atualmente, inclusive porque estando às portas de uma nova Copa do Mundo (que se inicia dia 11 de junho deste ano). Podemos observar que o sol ainda brilha neste esporte tão popular no mundo inteiro, mas também que há sombras que o cercam tanto nos gramados como no seu entorno. Talvez o Irã não jogue a Copa de 2026 mesmo conseguindo a vaga de forma justa, já que um dos anfitriões do torneio, os EUA, é também quem o ataca. É interessante notar o quanto a FIFA continua com sua hipocrisia de costume, quando entrega o “Prêmio da Paz da FIFA – O Futebol Une o Mundo” (2025) ao presidente estadunidense D. Trump, este que, meses depois do reconhecimento, invadiu a Venezuela e raptou seu presidente. Por outro lado, a mesma FIFA, baniu a Rússia de eventos do futebol mundial por conta de sua invasão armada a terras Ucranianas.

Por tudo isso, é indicado que o leitor, leia esta obra do excepcional Eduardo Galeano (Futebol ao sol e à sombra), e se deixe ser banhado pelos raios solares que só esta religião pagã pode acalentar, mas também deve lembrar que toda luz projeta uma sombra, e se faz necessário estar atento para que não seja engolido por ela.
SAIBA MAIS |
Podcast Fronteiras invisíveis do futebol: https://open.spotify.com/show/1h36wN4mUh7J4eyzaNoQ2o?si=7de3dc43e6364e77 |
História do futebol em Galeano. Trabalho de conclusão de curso do Andrei Adornes Monteiro: https://pt.scribd.com/document/746711386/Futebol-a-Sol-e-Sombra-1 |
Livro póstumo do autor: Fechado por Motivo de Futebol (Porto Alegre: L&PM, 2018). |
CURIOSIDADES |
Eduardo Galeano, um convicto militante de esquerda, tinha uma crítica em tom de brincadeira a Che Guevara: ele o chamava de “traidor” por ter trocado o futebol pelo beisebol na ilha de Cuba. |
Galeano fala que no início da copa do mundo de 2010, ele pendurou na porta de sua casa um aviso com os dizeres: “Fechado por motivo de futebol”. Isso, para que pudesse acompanhar todos os jogos daquele mundial, podendo ver sua seleção, o Uruguai, chegar ao quarto lugar naquela copa, sem ser incomodado. |
Além de muitos prêmios, Eduardo Galeano foi o primeiro a receber o título de Cidadão Ilustre do Mercosul, entregue em 3 de julho de 2008, em Montevidéu. |

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