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  • Coletivos/ produtoras de audiovisual indígena em Pernambuco

    Foto: @ororuba_filmes No estado de Pernambuco, valiosas produções audiovisuais indígenas estão sendo produzidas, comunicando através dos filmes, vivências, lutas e costumes. Destacam-se três coletivos formados por povos indígenas de diferentes regiões pernambucanas: Coletivo Fulni-Ô de Cinema (@coletivofulniocinema), de Águas Belas, no agreste; Ororubá Filmes (@ororuba_filmes), de Pesqueira, também no agreste; e Olhar da Alma Filmes (@olhar_da_alma_filmes), em Jatobá, no sertão. Por outra perspectiva, outro destaque vem do sertão, o povo indígena Pipipã de Kambixuru (@povo_pipipa), de Floresta, por meio de vídeos de curta duração vem apresentando as tradições dos Filhos de Serra Negra no YouTube. Também é importante ressaltar o legado da ONG Vídeo nas Aldeias (VNA), de Vincent Carelli, que desde a sua fundação em 1986, vem incentivando e fortalecendo a produção audiovisual indígena em território brasileiro. O Coletivo Fulni-Ô de Cinema surgiu por meio do Vídeo nas Aldeias. Cada coletivo tem o seu olhar e a sua forma de criar os filmes. Em comum, essas produções indígenas fogem do cinema convencional, colonizado, e apontam para um caminho original, potente e indígena. Foram selecionados três filmes de cada coletivo indígena pernambucano. As obras aqui citadas podem ser acessadas por meio dos canais de comunicação dos próprios coletivos. Txhleka - Fale Comigo Direção: Elvis Ferreira de Sá - Hugo Fulni-Ô 2021 - 14 min Tempo Circular Direção: Graci Guarani 2019 - 20 min Episódio 1 - Um Lutador Incansável Direção: não identificado 2021 - 2 min Indicações adicionais: Palermo e Neneco - Um dia na aldeia Mbya-Guarani Direção: Ariel Duarte Ortega e Patrícia Ferreira 2012 - 23 min Link do filme: https://youtu.be/Gce8DlqAPQY Pipipã de Kambixuru Instagram: https://www.instagram.com/povo_pipipa/ YouTube: https://www.youtube.com/channel/UCfee7SuWce9Mp4XpVnLSS4w Referências: BENTO, Emanuel. Coletivo de cinema indígena de Pernambuco faz campanha para contar histórias sem estereótipos. Disponível em: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/viver/2019/04/coletivo-de-cinema-indigena-de-pernambuco-faz-campanha-para-contar-his.html . Acesso em 6 de abr. 2021 LINO, Expedito. Coletivo Fulni-ô de Cinema. Disponível em: http://panoramacultural.com.br/coletivo-fulni-o-de-cinema/ . Acesso em: 6 de abr. 2021 Vídeo nas Aldeias. Disponível em: http://www.videonasaldeias.org.br/2009/ . Acesso em: 6 de abr. 2021

  • O Agreste psicodélico em A Noite do Espantalho (1974)

    Sérgio Ricardo - Foto: Divulgação De repente estamos pisando no chão quente de Brejo da Madre de Deus, observando por dentro o Teatro Nova Jerusalém. Depois de dois anos sem o maior espetáculo ao ar livre do mundo (devido a pandemia), no filme A Noite do Espantalho (1974) dirigido pela grande figura do MPB Sérgio Ricardo, temos a oportunidade de revisitar o local que também foi palco de tantas outras manifestações artísticas, como a desse filme. Se fosse possível descrever este filme numa visão geral, diríamos que é um musical sobre um grupo de trabalhadores lutando pela sua sobrevivência em um Nordeste devastado pela seca e pelo sol “de dois canos”. Ao escrever isso, sinto como se deixasse o filme vago demais. A imagem produzida na mente pode representar um filme tradicional, com uma temática já recorrente no cinema brasileiro e especialmente, no Cinema Novo. O coronel que oprime, o capanga que executa, os trabalhadores ao sol e o vaqueiro salvador. Mas não é bem assim! A trama que gira em torno de Maria do Grotão, Zé do Cão e Zé do Tulão, está longe de ser um filme comum, que passou sem deixar rastros. Na leitura que faço do filme, considero que: (1) pode ser um musical brasileiro e pernambucano dos anos 70 (gênero pouco explorado na região) ou (2) pode ser um sonho febril de 1h22min. Maria do Grotão (Rejane Medeiros) e Zé do Cão (José Pimentel) - Foto: Divulgação Com um roteiro extremamente criativo e coeso com o que propõe, acordamos em um universo próprio e até então único. Existe uma relação entre a câmera, o personagem e o espectador, a famosa quebra da quarta parede que é rotineira em musicais. O filme apresenta isso de uma forma muito sucinta, ao transformar o espectador em cúmplice de tudo que vai acontecer nos próximos atos. Olhando diretamente para a câmera, o coronel relata seus planos malignos, mas, ainda assim estamos no escuro junto com os outros personagens, menos aquele que dá nome ao filme: O Espantalho. Interpretado por Alceu Valença, o personagem aparece nesse filme como uma grande imagem espiritual, quase que atuando no que hoje seria uma versão de si mesmo. Sua presença é divina, seja nos palcos na vida real ou sendo o personagem que nos guia e a sua manada de fiéis, os trabalhadores. Sua voz ecoa pelos quatro cantos do cenário. “Sou cantador de Cajazeira E vim cantar a minha gente Gente que não foge do aço Gente que não corre de macho Nem de onça ou de mulher” A Noite do Espantalho é uma grande mistura de vários elementos surrealistas, tradicionais, ficcionais e poéticos. Um grande cordel transformado em obra cinematográfica. As músicas, escritas pelo diretor Sérgio Ricardo, dão uma sensação de pertencimento, seja dos personagens que descrevem as situações em versos melódicos ou da imersão de quem assiste nesse universo caótico. A psicodelia apresentada no filme se intensifica com as rimas acompanhadas da melodia pesada. Os toques musicais profundos abrem caminho para os personagens comporem suas dores em um timbre forte, transformando as falas em versos. O trabalho da música no filme é bem incorporado ao saber quais instrumentos devem ser usados de acordo com a intensidade da cena. Indo da guitarra ao pandeiro, a história é construída por esse meio narrativo. “Meu avô ensinou ao meu pai, e meu pai me repetiu: sem um não tem o dois, sem o dois não tem o três, sem o três não tem o quatro, nem o cinco, nem o seis. Se no final deu errado, se faz a conta outra vez.” Espantalho (Alceu Valença) - Foto: Divulgação Na tentativa da linearidade temporal dos fatos, procissões com personagens aleatórios como uma bailarina saltitante no meio dos trabalhadores; os bastidores de uma revolução, com o diretor da cena vestido com um terno vermelho e palhas montadas que se assemelham a foice a ao martelo da União Soviética; e até mesmo um ser dragão com asas, chifres, presas, pele de crocodilo e peitos de fora, nos faz imaginar diversas interpretações para o que Sérgio Ricardo, Maurice Capovilla, Jean-Claude Bernadet e Nilson Barbosa, todos roteiristas, quiseram apresentar. Sejam essas interpretações literárias, poéticas ou até mesmo, religiosas. Podemos nos apegar à possibilidade que o filme A Noite do Espantalho pode ser uma grande alegoria religiosa, levando em conta o local de gravação, o tema da fé como forma de luta e resistência e o poder da grande divindade que o personagem de Alceu exibe. Onipresente, onisciente e onipotente, não importa onde o mal estiver, o Espantalho estará lá transformando seus versos em respostas espirituais. Alceu interpretando o Espantalho, com sua juventude aflorada exibindo seus cabelos longos, segurando um cajado que antes fazia parte da cruz na qual estava preso, sofre junto com o trabalhador que sangra nas mãos do Coronel e de Zé do Cão, um tipo de cangaceiro do mal que é contratado pelo Coronel para expulsar o povo das suas terras. Uma imagem crística pode ser vista no Espantalho. Já a figura do dragão aparece sendo aclamada pelos dois responsáveis por amedrontar àqueles do bem, deixando a interpretação livre para que seja a cabeça maligna. Suas características físicas (chifre, presas, olhos negros) podem ser relacionadas a um bode, esse que é representado como o Diabo em muitas adaptações. Ou Maria do Grotão, uma mulher tentada a sedução dos dois Zé. São vários elementos que juntos resultam em uma rica discussão sobre a grandiosidade dessa obra. A Noite do Espantalho é inegavelmente um marco na nossa cultura. Foi escolhido para representar o Brasil no Oscar de 1975, mas não conseguiu a indicação. Ainda assim, ganhou diversos prêmios de melhor ator, melhor composição, melhor fotografia e até mesmo o prêmio especial dos festivais de Cannes e de Nova Iorque. Sua divindade artística não ficou apenas dentro da ficção. O fenômeno sensorial que o longa transmitiu foi além, graças ao trabalho espetacular de todos os artistas envolvidos nessa obra. A perfeição musical e surrealista que vai da montagem até a direção de arte mostra como o cinema feito em Pernambuco consegue ser cada vez mais diverso e surpreendente. É uma obra que deveria se tornar um pecado caso deixada de lado. Quando o corpo vai prum lado e vai pro outro o coração cante que só passarinho jogue o corpo na canção que o coração vê caminho e os pés se movem no chão Resenha crítica escrita por Samara Torres bianca.torres@ufpe.br

  • Funcultura Audiovisual abre inscrições na próxima segunda

    Inscrições acontecem no formato online e vão até o dia 26 de abril. Começam nesta segunda (05), as inscrições para o 14º Edital Funcultura Audiovisual e para o 15º Edital do Funcultura Audiovisual. Com um aporte de R$ 14,28 milhões, distribuídos nos dois editais, os interessados têm até o dia 26 de abril para efetuarem suas inscrições no formato online. O 14º Edital do Funcultura Audiovisual (2020/2021) destinará R$ 8 milhões para os projetos aprovados nas categorias de longa-metragem (produção e finalização) e produtos para televisão (obra seriada documental, obra seriada ficção, obra seriada animação, telefilme documental e telefilme ficção ou animação). Clique AQUI e confira o edital e seus anexos. O segundo edital, o 15º Edital do Funcultura Audiovisual (2020-2021), destinará o valor de R$ 6,28 milhões, para categorias não contemplados no primeiro certame: curta-metragem, games, difusão, formação, desenvolvimento do cineclubismo, “revelando os pernambucos”, pesquisa e preservação, desenvolvimento de longa-metragem, desenvolvimento de produtos para TV, obra seriada de curta duração, finalização e distribuição de longa-metragem e websérie/webcanal. Clique AQUI e confira o edital e seus anexos. O edital do Funcultura Audiovisual tem como objetivo selecionar projetos oriundos de produção pernambucana independente de obras audiovisuais e eventos do setor. As categorias apresentadas são: longa-metragem, curta-metragem, produtos para televisão, games, difusão, formação, pesquisa, preservação, cineclubismo e revelando os pernambucos. OUTROS EDITAIS – 3º Microprojeto Cultural Também no dia 05 de abril, o 3º Microprojeto Cultural abre suas inscrições. O prazo, porém, vai até o dia 16 do mesmo mês. Voltado para iniciativas de indivíduos, grupos e coletivos, formados por jovens de baixa renda entre 18 e 29 anos, principalmente de cidades com baixo Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M), o edital conta com o montante de R$ 640 mil para os projetos, com um limite de R$ 15 mil para cada. Para saber mais, acesse: www.cultura.pe.gov.br/editais/edital-funcultura-microprojeto-cultural-2020-2021. Funcultura Geral Ainda em Abril, a partir do dia 19 o Funcultura Geral abre seu período de inscrições que vão até o dia 30/04. Ao todo serão disponibilizados R$ 15,68 milhões para incentivar projetos das seguintes linguagens culturais: Artes Integradas, Artes Plásticas, Artes Gráficas e Congêneres, Artesanato, Circo, Cultura Popular e Tradicional, Dança, Design e Moda, Fotografia, Gastronomia, Literatura, Ópera, Patrimônio, Teatro, Formação e Capacitação e Pesquisa Cultural. Para saber mais, acesse: www.cultura.pe.gov.br/editais/edital-funcultura-geral-2020-2021.

  • Livro de Geneton Moraes Neto resgata as memórias do Super-8

    Organizado pelo pesquisador Paulo Cunha e-book está disponível no site da Amazon. Capa do e-book por Jaíne Cintra Uma coletânea de textos escritos, entre 1973 e 1983, por Geneton Moraes Neto (1956-2016) resgata parte da memória do que foi a produção de Super-8, no Recife, uma das mais criativas experiências de cinema experimental produzidas no Brasil. Na sua grande parte inédita, as reflexões do jornalista e cineasta são disponibilizadas agora no e-book Expedições à Noite Morena: em defesa de um cinema vadio [Fazer Super-8 no Brasil dos anos 1970], da editora Contraluz e disponível no portal da Amazon. Muitas reflexões de Geneton sobre o cinema em geral e o Super-8 em particular foram retirados de dois cadernos pessoais que ele preencheu entre 1977 e 1982. São os trechos mais íntimos, que permitem acompanhar a maneira como a geração do Super-8 foi percebendo a importância da expressão cinematográfica. Há também, no e-book, textos que foram escritos e publicados em jornais, mas que nunca tinham sido reunidos. Organizado pelo pesquisador Paulo Cunha, que teve acesso irrestrito aos diários de Geneton Moraes Neto, o e-book traz ainda um vasto material iconográfico, com a reprodução de trechos dos cadernos e das reportagens, além de fotografias do período. Segundo o organizador, o livro é quase um álbum de recordações de um momento do cinema feito em Pernambuco que oscilava entre a ingenuidade e a ousadia total. “Tenho percebido que jornalistas, realizadores e estudantes de cinema têm cada vez mais dificuldades de compreender o que foi o surto de produção em Super-8 dos anos 1970. E nesse sentido o livro é uma maneira de dar um mergulho profundo e divertido na história daquela geração”. Além de Paulo Cunha, organizador e autor da apresentação, o e-book teve a participação de Ana Farache (edição e revisão) e Jaíne Cintra (que criou e executou o projeto gráfico). Paulo Cunha foi o responsável pela organização do livro de Geneton O conjunto de materiais também ajuda os pesquisadores do cinema brasileiro, na medida em que trazem a gênese de muitos filmes de Geneton Moraes Neto. Estão no e-book, por exemplo, os primeiros rascunhos de roteiros e poemas que seriam utilizados posteriormente nos curtas, assim como a motivação de cada um deles no instante em que foram concebidos. Por outro lado, como explica Paulo Cunha, “o material é a defesa de um cinema mais impactante e mais simples, longe das superproduções que passaram a ser realizadas após a retomada, o que pode encher de sonhos e energia a cabeça da garotada que está se lançando hoje no audiovisual”. Os cadernos cobrem o período que contempla a realização de onze filmes em Super-8 de Geneton Moraes Neto: Quando JK (11 min., 1977), Corinthians, Coração (8 min., 1977), América Morena I (12 min., 1977), América Morena II (20 min., 1977), A Flor do Lácio é Vadia (6 min., 1978), Esses Onze Aí: Um filme panfletário, a favor do futebol (10 min., 1978, com Paulo Cunha), Funeral para a Década de Brancas Nuvens (10 min., 1979), Fabulário Tropical (6 min., 1979), Navegar em Terra Firme (9 min., 1980), A Esperança é um Animal Nômade (9 min., 1981), Loja dos Trapos do Coração (10 min., 1982). Mesmo lançado apenas em 1983, há referências a O Coração do Cinema (16 milímetros, 18 min., com Paulo Cunha) assim como aos filmes em Super-8 anteriores a 1977: Mudez Mutante (7 min., 1973), Isso é que é (6 min., 1974, com Amin Stepple), Conteúdo Zero: Um filme para desentendidos (14 min., 1975), Recife, I Love You (10 min., 1975), Tudo, Tudo (10 min., 1975) e Verão, Veredas (14 min., 1976). SERVIÇO Expedições à Noite Morena: em defesa de um cinema vadio [Fazer Super-8 no Brasil dos anos 1970], de Geneton Moraes Neto. E-book, Editora Contraluz, 131 páginas. Disponível no portal da Amazon. Acesso para download: https://amzn.to/3rQlPDY Preço: R$ 11,05

  • 3 curtas e 3 longas dirigidos por mulheres pernambucanas

    Separamos 6 filmes disponíveis no site da Cinemateca Pernambucana. Encerrando o especial do mês da mulher, selecionamos três curtas e três longas dirigidos por cineastas pernambucanas. Todos os filmes podem ser acessados de forma gratuita no site da Cinemateca Pernambucana. Curtas Superbarroco Direção: Renata Pinheiro 2008 - 17min A Minha Alma é Irmã de Deus Direção: Luci Alcântara 2010 - 20min Sexta Série Direção: Cecília da Fonte 2013 - 18min Longas Rio Doce/CDU Direção: Adelina Pontual 2013 - 72min Amor, Plástico e Barulho Direção: Renata Pinheiro 2013 - 85min Sete Corações Direção: Dea Ferraz 2014 - 97min

  • Memórias, sentidos e um olhar para outra realidade

    O cinema de Graci Guarani tem a força e a coragem de uma mulher indígena que atua com uma câmera nas mãos. Em posse desta poderosa ferramenta, Graci vem produzindo importantes registros históricos da cultura indígena. Graci Guarani - Foto: internet De origem Guarani Kaiowá, Graci Guarani trabalha como cineasta, comunicadora e produtora cultural. É uma das primeiras realizadoras de produções indígenas no cinema brasileiro, atuando ao lado de seu companheiro Alexandre Pankararu. Em parceria, os dois criaram o Olhar da Alma Filmes - uma produtora independente de audiovisual indígena - que tem o objetivo fomentar produções indígenas no cinema e no audiovisual brasileiro. É um cinema de intimidade e pertencimento onde o que importa mesmo é contar as histórias por uma perspectiva autêntica e fiel a identidade dos realizadores. Falar da obra de Graci Guarani é olhar para o lugar de onde ela fala e o que é dito sobre esse lugar. É um cinema realizado e protagonizado dentro de uma narrativa própria e indígena, concentrada nas vivências e percepções de uma mulher indígena quanto a realidade em que ela existe e resiste. É um cinema de intimidade e pertencimento onde o que importa mesmo é contar as histórias por uma perspectiva autêntica e fiel a identidade dos realizadores. Como documentos de memórias, os filmes apresentam a oralidade, a terra e os personagens indígenas que vivem nesses espaços. São produções divididas em curtas-metragens, vídeo-cartas e a direção de um longa-metragem. Sempre abordando temáticas que atravessam as vivências da comunidade indígena. Aqui seria o espaço em que os filmes são detalhados um por um, apresentando o significado de cada um deles. No entanto, percebi que a obra de Graci Guarani fala por si, é um trabalho forte que precisa ser visto e reconhecido pela sua importância histórica e cultural. Nada que eu escreva se aproximará da experiência de ver, ouvir e sentir o que essas produções têm a dizer. Boa parte das suas produções estão disponíveis no canal da produtora Olhar da Alma Filmes no YouTube. É possível também acompanhar outros trabalhos em seu perfil no Instagram @graciguarani . É transformador conhecer a obra de mulheres como Graci Guarani. Crítica realizada por Maria Clara Mendes para o Especial Mês da Mulher.

  • O que porra é cinema de mulher?

    A mostra de cinema de mulher e o desvelar do machismo no audiovisual pernambucano. A dissertação que escrevi como conclusão do mestrado em comunicação social na UFPE, cursado por mim de 2014 a 2016, trata sobre um momento muito particular do pensamento sobre o cinema produzido em nosso estado, Pernambuco. O trabalho se atém sobre a contribuição das mulheres que fizeram e/ou ainda fazem parte da cadeia produtiva de cinema do estado, sob a perspectiva de um devir mulher que acredito ter sido despertada em nossa sociedade brasileira, com maior força, junto ao advento dos Governos Lula (2002 a 2006 e 2006 a 2010) e Dilma (2010 a 2014 e 2014 a 2016), no embalo de algumas políticas públicas implantadas nesse período para a equidade de gênero. O título explosivo diz respeito a uma frase publicada como comentário, nas redes sociais, sobre uma mostra de cinema de mulheres ocorrida em 2015, período em meio aos meus estudos, que se tornou estudo de caso da dissertação e também gatilho para muitos debates e futuras mudanças que vieram a ocorrer nas políticas públicas e na cena local de cinema quanto às representações e representatividade das mulheres. É um trabalho apaixonado, que me tomou a cabeça e o coração de maneira intensa ao longo de todo o processo de pesquisa e escrita, mas que teve a condição de ser escrito com muita rapidez e poucas parcerias, já que o feminismo foi e continua sendo um interdito social e na academia, até hoje. Agradeço em especial a colaboração das cineastas que entrevistei para o trabalho. Dessa forma, as teorias feministas como um todo, fossem elas mais voltadas para as questões socioeconômicas ou para o campo do cinema propriamente dito, alimentaram uma fome que eu sentia de enfrentar os paradigmas patriarcais que vivenciei e ainda vivencio enquanto me movo no meio, já que além de acadêmica sou trabalhadora audiovisual a cerca de 17 anos. Espero que esse trabalho, hoje avalio, ainda que por vezes exaltado e noutras vezes insuficiente em suas conclusões, ajude a despertar novos embates, novas pesquisas e novas realizadoras para nossa primavera no audiovisual. Ação, mulheres! Dissertação completa: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/23077 Sobre Naya Lopes: Educadora popular, realizadora e doutoranda em cinema pela UFPE. Trabalha junto aos coletivos Ficcionalizar, desde 2016, e Fazendo Milagres Cineclube, desde 2012, além de coordenar outros projetos em cinema e educação com ênfase na descolonização do olhar, como a Baobácine - Mostra de Filmes Africanos do Recife (2018) e o curso audiovisual Ficcionalizar no Kilombo (2019). Também é integrante da banda Casas Populares da BR-232 (2005), do Coletivo Cabelaço de Mulheres Negras (2012) e do Coletivo da Negritude do Audiovisual de Pernambuco (2018).

  • Eu Menti Pra Você

    Montamos uma playlist para o Especial Mês da Mulher e falamos do porquê de algumas escolhas. Nunca é fácil criar uma playlist. Muitos nomes e muitas músicas sempre ficam de fora, não tem jeito. Nesta playlist, nos esforçamos ao máximo para tentar reunir um grande número de artistas pernambucanas que usam da música para se expressar no mundo. Destas músicas, uma é especial para cada colaborada da nossa equipe, e elas falaram o porquê da escolha. Hanna Aragão Isabela Moraes lançou o álbum em maio de 2020, quando todos ainda estavam extasiados por causa da pandemia. A única coisa que eu e boa parte do mundo tínhamos em comum é a vontade que o apocalipse acabasse. E ai, Isabela entrega ao mundo um respiro de esperança. A primeira música do álbum, "Ao redor do sol", é um lembrete que isso é que viver ao redor do sol, trilhando e trilhando sem se perder. Já faz um ano que o fim do mundo começou, e em alguns lugares as coisas continuam as mesmas ou piores, mas seguimos brincando com a luz do arrebol, brilhando sem se esquecer. Maria Clara Mendes "A música é uma força que mexe com os sentidos e nos leva a uma viagem por memórias. Seja qual for à ocasião, escolher uma música é sempre um desafio: a chance de dizer alguma coisa. 'De sal & sol eu sou' me lembra o mar, o sol e o tempo que nos leva para bem longe. É uma música de proteção e coragem. É para ouvir com o corpo enquanto as horas passam. O mundo sangra, anda e desanda e a gente vai aprendendo junto." Samara Torres "A mulher mais importante da minha vida deixou o mundo carnal em 2014, depois de dois anos lutando com as impossibilidades da idade. Durante esse tempo, fiz o que ela fez comigo pelos 14 anos anteriores a isso. Dei comida, dei banho, dei remédio, dei amor, carinho, atenção, tempo. Dei minha alma por completo, que já era dela desde que sua mão tocou a barriga da minha mãe quando eu ainda não era eu. Minha vó não me deixou sozinha nesse mundo. Muito pelo contrário, ela permanece viva por meio de todos os ensinamentos em que ela me apresentou na maior naturalidade e paciência do mundo. Isso inclui sua fé e suas crenças. No plural. Presenciei missas matinais no domingo lá na Catedral de Caruaru, rezas de terço, hinos cantarolados enquanto fazia meus bolinhos de feijão, mesas brancas, conversas com o outro lado, velas acesas, imagens espalhadas por toda a casa. Eu sinceramente não sabia o que minha vó era, acho que nem ela sabia. Uma adolescente de 14 anos pouco iria se importar em questionar aquilo, guardei essa curiosidade por um bom tempo até começar a me interessar pelo candomblé cinco anos depois de sua transição para o espiritual. Vó, que tanto se mantinha silenciosa dentro e acima de mim, apenas observando, decidiu mostrar algo que estava na minha frente o tempo todo: no meio das imagens de santo que guardava no altar do seu quarto, encontrei uma imagem de Oxum brilhando. A Mãe do Amor me comprovou mais tarde a ligação entre as duas. Tudo fez sentido, seja o quintal de vó repleto de lírios e margaridas, o mel que nunca faltava no armário (ela era diabética!) e até mesmo as muitas (muitas mesmo) imagens de Nossa Senhora Aparecida. Mesmo que eu ainda não seja tão dedicada às doutrinas religiosas como vó, sinto o olhar da sua encantada me acompanhando e guiando entre as ruas conturbadas da vida. Outros encantados me seguem, uns possivelmente meus (Saluba, Nanã!), mas a maioria é de vó. Ela não me deixou sozinha e nunca vai deixar. Ela apareceu para mim em D'Oxum, cantada por Karynna Spinelli."

  • O cinema de Adelina Pontual

    Nesse vídeo ensaio, nossa colaboradora Samara Torres faz uma imersão nos trabalhos de Adelina Pontual e mostra como os aspectos de espacialidade, gênero e mistério se conectam dentro do universo criado pela diretora e se tornam marcas do seu trabalho.

  • Oitava edição do Festival de Cinema de Caruaru é realizada em formato virtual

    As exibições dos filmes selecionados serão feitas através de uma plataforma de streaming. Entre os dias 15 e 30 de março, será realizada a oitava edição do Festival de Cinema de Caruaru, no Agreste de Pernambuco. Nesta edição, o evento acontecerá de forma virtual, com transmissões ao vivo pelo Instagram e canal do YouTube do festival, além de oficinas remotas e exibições por meio de streaming. Esta será a segunda vez que o formato será adotado, devido as normas de segurança adotadas durante a pandemia. Ao todo, serão realizadas seis mostras competitivas: Infantil, Adolescine, Latino-americana, Agreste, Brasil de curta-metragem e Brasil de longa-metragem. As exibições dos filmes selecionados serão feitas na plataforma cardume.tv.br, exceto dos filmes das mostras Infantil e Adolescine que estarão disponíveis no site FestCineCru. Nesta edição, o festival contará com o aporte financeiro da Lei Aldir Blanc, que tem o objetivo de apoiar a retomada da produção cultural. O festival será gratuito. Confira a programação: Cronograma de Debates Mostra Infantil Data: 16/03 Hora: 19h Mediação: Edson Santos Mostra Adolescine Data: 17/03 Hora: 19h Mediação: Edson Santos Mostra Latino-americana Data: 18 e 19/03 Hora: 19h Mediação: Luciano Torres Mostra Brasil de curta-metragem Data: 20 e 21/03 Hora: 19h Mediação: Stephanie Sá Mostra Agreste Data: 22/03 Hora: 19h Mediação: Priscila Urpia Mostra Reconexões Data: 23/03 Hora: 19h Mediação: Stephanie Sá Mostra Brasil de longa-metragem Data: 24 a 27/03 Hora: 19h Mediação: Edson Santos Mostra Especial Caruaru Data: 28 e 29/03 Hora: 19h Mediação: Stephanie Sá

  • Adelina Pontual, o legado do Vanretrô e a continuidade

    Entre suas obras mais famosas estão os curtas Cachaça (1995), Veio (2005) e o documentário Rio Doce CDU (2013). Adelina Pontual - Foto: Otávio de Souza Tudo começou na Universidade Federal de Pernambuco, quando um grupo de amigos inquietos descobriram um interesse em comum: a vontade e o desejo de fazer cinema. Formado em sua maioria por estudantes de Comunicação, o Vanretrô, nome dado posteriormente ao grupo, foi um importante acontecimento do Cinema Pernambucano. Foram eles, os responsáveis por colocar o estado na cena do audiovisual lá nos anos de 1980. Hoje, os idealizadores daquele grupo, que tinha nome que mais parecia de uma banda de rock, são de grande importância na produção audiovisual do país. Entre eles, está Adelina Pontual. Nascida no Recife, Adelina é uma diretora, roteirista e continuísta. Entre suas obras mais famosas, estão os curtas Cachaça (1995) e Veio (2005). Com o curta Cachaça, a cineasta fez um prenúncio para a quebra de uma estrutura de fazer cinema muito tradicional. Em 2013, ela nos levou em uma viagem pelos subúrbios de Recife e Olinda, no seu primeiro longa, o documentário Rio Doce/CDU. Seguindo o itinerário da famosa linha de ônibus, Adelina revelava em seu filme uma diversidade de paisagens urbanas e de tipos humanos que habitam aquelas ruas. Como continuísta, ela é uma das mais conhecidas e prestigiadas do país. Exerceu essa função em mais de 20 longas metragens nacionais, como Central do Brasil (1998), de Walter Salles, Carandiru (2003), de Hector Babenco, Era Uma Vez Verônica (2012), de Marcelo Gomes, Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda e Piedade (2017), de Cláudio Assis. Nesta entrevista, Adelina conversou com o Spia e falou sobre sua relação com audiovisual, o papel do continuísta, o Vanretrô e como ela imagina que será o audiovisual depois que a pandemia acabar. Adelina, falar de cinema pernambucano é falar do Vanretrô, qual a importância desse período para sua formação dentro do cinema? Foi importante no sentido de descobrir uma vocação, de que era isso que eu queria fazer. E que foi onde todos descobrimos aquela época e nos juntamos e criamos o grupo para batalhar por isso. Tentar fazer um curta-metragem que a gente pensou e elaborou um roteiro. Então foi por aí, essa coisa do início mesmo, da descoberta, de descobrir juntos, de tentar juntos. Foi muito bom ter o grupo, o apoio que um dava ao outro. O cinema pra mim é aquilo: “ninguém inventou a roda”, toda invenção de cinema, de linguagem, já veio, já aconteceu, e o que a gente faz é dar um olhar próprio aquela coisa. Já fazem 35 anos do Vanretrô, naquela época vocês queriam assumir as referências passadas, mas também propor uma estética vanguardista. Você acha que o atual cinema (brasileiro/pernambucano) tem seguido essa mesma linha? O cinema pra mim é aquilo: “ninguém inventou a roda”, toda invenção de cinema, de linguagem, já veio, já aconteceu, e o que a gente faz é dar um olhar próprio àquela coisa. Dar uma reciclada. Mesmo que a pessoa não tenha uma experiência, acho que de alguma forma aquele tipo de narrativa já foi feito em algum lugar do mundo. Pra mim, esse olhar pro passado é muito importante, buscar sua linguagem e maneira de expressão do que se fez na história do cinema. Cachaça foi o primeiro curta da cineasta, lançado em 1995 - Foto: Internet O start para fazer cinema já existia quando você era criança? Na verdade, não! Foi uma coincidência astrológica de tá todo mundo ali e todo mundo ir despertando junto. Foi na faculdade mesmo. A gente entrou pra comunicação, todo mundo pensava em fazer jornalismo, mas foi ali que se descobriu que tinha afinidades cinematográficas, que a gente gostava de cinema e porque não fazer, né? E tinha Paulo Caldas que já fazia super 8, aí foi chamando atenção e despertando para isso. Eu não fiz Super 8, mas o fato dele fazer instiga a gente. Também tinha Lírio Ferreira que trabalhou em algum filme de Paulo, acho que Samuel também, mas não estávamos tão envolvidos diretamente com isso. A gente se envolveu com a ABD, que é a Associação de Documentaristas de Pernambuco, porque a gente entendeu que o caminho tinha que ser por luta política, então todos nós, em peso, entramos na ABD. Entramos juntos e tentamos maneiras de como conseguir auxílio, já que o Cinema Pernambucano tava parado, e o ciclo do Super 8 tava acabando. Na verdade, Paulo Caldas foi um dos últimos a fazer filmes Super 8. Poucos conhecem o que é e qual o trabalho de um continuísta, fala um pouco sobre essa função. É muita coisa. É uma oficina inteira sobre isso. Então, todo mundo tem uma ideia meio equivocada sobre continuidade, achando que continuidade é só pra cuidar de questões do figurino, de maquiagem, ação de ator (...), mas a gente é uma espécie de assistente de direção também e que está muito ligada a esse trabalho de direção. Cineasta já atuou como continuísta em Central do Brasil e Carandiru - Foto: internet Porque tem uma questão de linguagem cinematográfica que o continuísta tem que dominar e estar a postos para entender o filme que está fazendo e ver como determinadas regras podem ser aplicadas ou não. Determinadas regras que vêm desde do momento que o cinema começou a se firmar como linguagem narrativa, e que essas regras foram se consolidando até o cinema clássico, e nesse cinema clássico essas regras já estavam totalmente consolidadas, que são as regras de continuidade. Hoje em dia você tem que dominar essas regras e saber até que ponto elas podem e devem ser aplicadas no filme ou não. E, além disso, cuidar também de toda essa coisa da continuidade aparente, que é figurino, maquiagem, objetos, cenografia. Confira as obras de Adelina Pontual disponíveis na Cinemateca Pernambucana O roteiro de um documentário é mais aberto que o de um filme de ficção. Seu primeiro longa-metragem (Rio Doce CDU) foi um documentário, como o teu trabalho de continuísta ajudou na produção do doc? Como continuísta eu acho que não ajudou muito, porque esse trabalho está mais ligado ao cinema narrativo de ficção. É muito mais o trabalho de montagem, de pensar e montar. Na verdade, a continuidade tá ligada à montagem, mas não no sentido de montagem documental e sim a montagem narrativa, porque você, como continuísta, tem que garantir que o filme depois de montado, seja editado. Por isso que existem essas regras. Para que o filme tenha uma edição fluida, aquela edição invisível, bem clássica do cinema americano. No documentário a gente tem que pensar mais em estrutura e isso tem a ver com montagem, mas montagem no outro sentido, que não é do cinema narrativo. Não deixa de ser uma narração, o doc, mas é outra coisa. É você pensar em estrutura e não em fluidez. É pensar na estrutura de como aquele filme vai se estruturar para resultar em um bom filme, que envolva as pessoas e que seja um filme com conteúdo e que aquele conteúdo esteja bem expresso naquele tempo de duração do filme. Assista ao trailer do documentário Rio Doce CDU E como foi o processo de montagem do documentário? Eu escrevi o projeto em vários editais até conseguir, não foi de primeira não. Eu fiz o roteiro, mas como tem a coisa do ônibus, então no roteiro eu trabalhei em cima do itinerário do ônibus. Eu tinha o roteiro bastante amarradinho, até demais pra ser um documentário. Porque tinha essa estrutura cíclica que é o trajeto do ônibus. Foram 8 semanas de trabalhos tanto dentro do ônibus, quanto fora, porque fazia parte do roteiro e da estrutura fazer as paradas. Eu chamava de paradas exploratórias, que era parar nos vários bairros que ele passava, escolhia determinados pontos e ia observando. É um documentário muito observacional. E observar os locais e ter alguns personagens que falassem. A ideia era essa, personagens anônimos dos próprios bairros, não queria gente famosa. Gente anônima dos bairros que falassem da cidade, porque na verdade o que eu queria falar era sobre a cidade, que no fim, com a escolha do Rio Doce – CDU, ficaram duas cidades, Recife e Olinda. Rio Doce CDU é um filme observacional - Foto: Internet Toda ideia dele parte dessa ideia do observador que viaja de ônibus. Uma pessoa que viaja de ônibus e observa a sua cidade. Então procuramos esses personagens de pessoas comuns e anônimas. E que tivesse alguma relação com esse ônibus, que foi escolhido por ser uma linha de ônibus muito antiga do Recife e Olinda. Uma linha tradicional e por ela fazer esse trajeto tão sinuoso de entrar por vários bairros. Depois das filmagens o processo de montagem foi bem longo, durou um ano, mas não corrido. A gente montava, parava, dava um tempo. Voltava, revia o material e aí ia trabalhando. E o contato com essas pessoas e histórias anônimas? A gente fez um trabalho de pesquisa anterior. Fizemos o percurso do ônibus em diversos horários e dos personagens a gente também fez o itinerário a pé e dessa forma a gente encontrou pessoas. Claro que durante as filmagens apareceram pessoas que não estavam nem previstas na pesquisa, mas foi muito legal encontrar e fazer. Agora, depois da pandemia as coisas mudaram completamente, como você acha que o cinema de hoje vai reagir amanhã? Eu fico me indagando como vai ser essa volta, da gente conseguir produzir de novo. É preciso a vacina pra isso acontecer, não tem como ficar fazendo teste em todo mundo, porque a gente sabe que isso ainda é arriscado e caro. Mas, acho que criativamente vão nascer várias coisas, porque tá todo mundo pensando seus projetos, escrevendo (...). Quando abrirem novamente as portas e disserem pode ir, acredito que vá sair um monte de coisa, um monte de coisa boa. Entrevista realizada por Hanna Aragão para o Especial Mês da Mulher.

  • Miremos nuestras histórias, nuestros puentes, nuestros pueblos y nuestros colores

    Um relato sobre a direção de produção de “King Kong en Asunción”, longa-metragem de Camilo Cavalcante. Por Amanda Nascimento* 5 de março de 2021 Andrade Jr. - Foto: Camilo Soares No trabalho (INT/DIA): -Alô? Quem é? -É Camilo Cavalcante. Tudo bem? Olha. Vou te enviar um email com um roteiro para um possível trabalho. Por telefone. Foi assim que “King Kong em Asunción” me chamou. Essa ligação mais pareceu a sensação de quando recebi o email, em 2008, de Patrícia Martín, coordenadora dos estudantes latino-americanos, dizendo que eu teria sido a última integrante do taller de dirección de actores, que aconteceria no verão caribenho, na Escuela Internacional de San Antonio de Los Baños (EICTV), em Cuba. Oportunidades que dividem a carreira de qualquer um que tem como propósito a integração da América Latina, através do Cinema. Reunião marcada, prestes à recusa. Sabia mais ou menos a escala que este filme iria proporcionar a quem ousasse se envolver. Ousar? Sim, ousar. Deserto, penhascos, fronteiras, estradas (quase) sem fim. Seria imprescindível ter uma equipe guerrilheira e ousada para topar tudo que viria pela frente de um projeto como este. Equipe de Tech Schout, no Salar de Uyuni (Bolívia) - Foto: acervo pessoal Queria recusar, mas como fazer isso para um trabalho que tem tudo a ver com o meu propósito de vida? Repetindo sempre “propósito”, esta palavra que anda sendo espalhada por aí. Um filme de fronteiras. Ou melhor, sem fronteiras. Como já diz o nome, “King Kong en Asunción” é um drama existencial pelas “veias abertas da América Latina”, como o título icônico de Eduardo Galeano. Um desafio de produção tríplice fronteira entre Paraguai, Bolívia e Brasil. Imagina ir buscar locações/ pesquisar/ reconhecer o roteiro (Tech Scout) e encontrar Werner Herzog (filmando)? Foi exatamente isso que aconteceu. Poderia ser qualquer outra pessoa, mas era Herzog filmando o seu “Sal y Fuego”, no Salar de Uyuni, deserto de sal da Bolívia. Perdidos, chegamos bem na hora em que ele estava livre para uma foto. Coincidência ou presságio? Estar perdido nem sempre é um mau negócio. Ao voltarmos, percebemos a real escala do que seria o filme. Das mudanças climáticas a ter como realizar financeiramente como queríamos que fosse. Encontramos um Golpe de Estado no Brasil e uma hérnia de disco no meio do caminho. Era o primeiro sinal que as políticas públicas para o Cinema Brasileiro iriam retroceder. Uma longa espera pela frente. A equipe cresce. Seguiríamos na espera. Amanda Nascimento - Foto: acervo pessoal Em 2016, estávamos quase prontos para a nossa rodagem. Fui sozinha na frente. Desafio dobrado. Na mala, a missão e os adjetivos: mulher brasileira, de cinema... Seria bem bom que estes fossem exemplificados (e romantizados) como os versos da música “Ela faz Cinema”, de Chico Buarque, mas, basta atravessar a fronteira, que outras camadas fronteiriças chegam rápido. Pensamos em uma estratégia diplomática para a segurança. Deu certo. Aí está a importância das embaixadas brasileiras nos road movies de fronteiras. Gratidão à Embaixada do Brasil na Bolívia pela assessoria e cuidado. Desde quando souberam do projeto, nunca soltaram a nossa mão. Além disso, tivemos a hérnia de disco adiando mais uma vez nossas filmagens. Era novembro, o Salar do Uyuni estava cinza. Realmente, ainda não era a hora de apertarmos rec. Com o diretor dentro de um bloco cirúrgico, teria que aceitar e seguir a “pré-produção” solitária, pois havia casting, negociação de locações e muito o que fazer. Pedir licença aos aimarás (povo indígena) era fundamental. Não se filma sem a autorização deles. Não só para registro audiovisual no território deles, mas também tê-los na frente das câmeras. A história de Cristóvão Colombo não vale lá. No caso do Salar de Uyuni, é um território subdividido em várias microrregiões e cada uma tem um cacique. É preciso muita negociação, diplomacia e conquista de confiança. Saindo da Bolívia e entrando no Paraguai, no Chaco paraguaio não é muito diferente. Na zona rural da cidade de Filadélfia, encontramos aldeias e caciques. Para filmar, é preciso uma permissão. A América Latina (ainda) é habitada pelos seus povos originários, aos quais se deve ter muito respeito e buscar descolonização: Ayoreos, Guaranis, Aimarás, Xukurus, Pataxós, Pankararus, entre outros. A Pachamama, grande nação. Não tem como falar neste continente geopolítico sem frisá-los. Miremos nuestras histórias, nuestros puentes, nuestros pueblos y nuestros colores. Não precisamos ir muito longe. Somos bonitos, alegres, competentes. Ayoreos - Foto: acervo pessoal Em 2017, passadas as filmagens na Bolívia e no Paraguai, depois de alguns meses, chegamos em Amaraji, município da zona da mata sul de Pernambuco. Apenas uma diária, mas de uma importância fundamental para a narrativa. Um novo elenco e outros técnicos que pareciam fazer parte da mesma família. Pareciam todos estarem destinados. De cima pra baixo: Alba Azevedo (controller), Amanda Nascimento (diretora de produção), Luján Riquelme (figurinista), Carol Vergolino (produtora executiva), Regiana Rial (Jaheka Casting), Pamela Paredes (assistencia de produção), Gessyka Toro Rodriguez (assistente de arte), Karen Fraenkel (diretora de Produção) - Foto: acervo pessoal Família? Neste filme, a equipe foi família. Em uma variável de 29 pessoas trabalhando em trânsito, não teria como ser diferente. Como diretora de produção, “King Kong em Asunción” não só me possibilitou conhecer um pouco de excelentes profissionais do mercado latino-americano, mas ter essa percepção do cinema horizontal que aprendi lá na EICTV, em Cuba, onde todos da equipe têm a mesma importância: os motoristas, as cozinheiras, os assistentes de todos os departamentos, as costureiras... Absolutamente todos com o mesmo tratamento. O cinema que nasci para executar. E, neste filme, teve. Foi bonito e prazeroso fazer. Um exemplo de produção colaborativa. Ou fazíamos juntos, ou não concluiríamos. Andrade Jr. - Foto: Camilo Soares Talvez todo esse relato explique os kikitos, os Labrfs, os prêmios no FEST Aruanda, a seleção no FAM, no Utopia ou a participação em outros festivais. Mas nada explicará, para além das estratégias de produção, o que fez levar nosso amigo-protagonista antes de ver o filme e de não poder viver tudo isto que estamos vivendo agora. Que o nome e trabalhos de Andrade Jr. sejam sempre honrados. Texto dedicado a Andrade Jr. (in memorian), a Camilo Cavalcante pela oportunidade e aposta no meu trabalho e a toda a nossa equipe guerrilheira, por nunca desanimar, sobretudo às mulheres, las madres del “King Kong en Asunción”. Adelante vamos. * Amanda Nascimento é diretora de produção, pesquisadora e assistente de direção de Cinema, jornalista (DRT-3931/PE) com especialização em Diplomacia e Negócios Internacionais.

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A SPIA é um portal colaborativo feito por alunos do curso de Comunicação Social e Design, da Universidade Federal de Pernambuco, campus Agreste. Todo o conteúdo produzido por nós é usado apenas para fins informativos e educacionais.

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