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Espetáculo da fragilidade: o retorno da tendência da magreza extrema

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 41 minutos
  • 4 min de leitura

Por Vitória Alves de Sá

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Treinos mirabolantes, dietas do momento e, agora, as famosas “canetinhas mágicas” para acelerar o processo de emagrecimento. Há quantas gerações novos métodos extraordinários continuam sendo criados apenas para que possamos nos adequar a um determinado padrão físico? O retorno da magreza extrema se deu por conta de uma pressão estética que, mais uma vez, se reinventou de maneira “sofisticada”.


Foto: Reprodução/Internet
Foto: Reprodução/Internet

Nos últimos meses, tornou-se cada vez mais evidente a hipervalorização de silhuetas extremamente pequenas e frágeis em tapetes vermelhos, capas de revistas e perfis de influenciadores, onde os braços excessivamente finos e clavículas bastante aparentes ganharam destaque. No entanto, é importante destacar que esse fenômeno não é novidade no ambiente digital: ele retorna a movimentos mais antigos da internet, como as comunidades "pró-ana" e "pró-mia”, que tinham como objetivo normalizar transtornos alimentares e ganharam muita força na época do Tumblr como uma visão de "estilo de vida”.


Ariana Grande na 16ª edição do “Governor's Award” em 2025. Foto: Reprodução/Internet
Ariana Grande na 16ª edição do “Governor's Award” em 2025. Foto: Reprodução/Internet

Uma tendência não surge da noite para o dia, mas aparece de forma sorrateira a partir da disseminação de comportamentos das celebridades e influenciadores em redes sociais. A lógica é simples: os famosos iniciam o comportamento, os seguidores reproduzem e rapidamente se espalha para terceiros. Assim, sendo impulsionado por algoritmos que criam microtendências a todo instante, essa estética atinge até quem não acompanha ativamente esses famosos por meio do FOMO ("Fear Of Missing Out" ou o "medo de ficar de fora"). É o receio constante de não pertencer e de estar obsoleto que impulsiona a rápida reprodução estética pelo público geral.

Um fato é: o bem-estar real foi substituído pela performance do bem-estar nas redes sociais, transformando a magreza em um espetáculo de engajamento e consumo rápido.



Sem nenhuma surpresa, as mulheres são o público mais afetado por esse cenário, já que enfrentam uma cobrança estética historicamente muito mais severa e opressiva em comparação àquela imposta aos homens. Por mais que a mídia mostre esses corpos como o ideal de perfeição e beleza, a realidade por trás deles envolve uma profunda fragilidade da saúde física e mental. O mais bizarro é que, mesmo vivenciando complicações que colocam em risco a estabilidade hormonal, a imunidade, a saúde dos ossos, da massa muscular, da energia do dia a dia e, consequentemente, abrindo mão do próprio bem-estar, é importante pontuar que o sofrimento dessas mulheres vai muito além de uma simples "insatisfação"; muitas perdem a autoconsciência da própria imagem e desenvolvem quadros severos de disforia tornando-se vítimas de um maquinário que destrói a percepção visual do próprio corpo.

Quando a saúde feminina entra em colapso, a cultura do consumo vende novos produtos para "resolver" esses danos, o sistema cria a insegurança e a patologia, para logo em seguida vender a solução embalada em formato de suplementos milagrosos, vitaminas e terapias capilares de recuperação. A indústria lucra duas vezes com o mesmo corpo, primeiro a imposição de uma dieta, depois com os danos causados por ela. Na saúde mental, também há estragos: o movimento desencadeia condições psicológicas graves, persistentes, e que alteram o humor e até mesmo a cognição.



Vale ressaltar que emagrecer não é algo que deve ser julgado de modo negativo, mas é necessário identificar quando a busca pelo emagrecimento se torna um sintoma. O valor de uma pessoa jamais pode ser medido por um número na balança, o fundamental é o corpo estar saudável e não condicionado a se moldar a réguas estéticas que estão constantemente se reinventando para gerar novas demandas de mercado.


Cena de "O Mínimo para Viver" de Marti Noxon, Netflix (2017). Foto: Reprodução/Internet
Cena de "O Mínimo para Viver" de Marti Noxon, Netflix (2017). Foto: Reprodução/Internet

Essas "réguas” cobram um físico seco, onde alterar o corpo por meio de exercícios físicos não parece dar mais conta dessa necessidade de mudar, criando uma busca cada vez maior pelas intervenções estéticas. Historicamente, no entanto, é impossível ignorar de onde elas surgiram. A cultura da constante alteração corporal tem raízes profundas que vão além das redes: desde as fitas cassete de Jane Fonda, que popularizaram a cultura da dieta na TV na década de 1980, até chegar à raiz matriz de tudo isso, que é o padrão eurocêntrico. No Brasil por exemplo, desde o período colonial características como pele clara, cabelos lisos e traços finos foram priorizadas, enquanto feições indígenas e africanas foram marginalizadas.

Ao longo das décadas, o modelo estético se transformou, mas manteve a predominância desses traços, adaptando-se à tendências como a valorização do corpo curvilíneo — porém, sempre dentro de limites "aceitáveis". A mídia e a publicidade reforçaram essa padronização e excluíram corpos fora desse ideal. Apesar dos avanços na representatividade e na aceitação da diversidade, a pressão estética ainda reflete a influência colonial, evidenciada por práticas como alisamento capilar e cirurgias estéticas. Tentar impor esse molde a corpos de mulheres, que alternam numa diversidade imensa de biotipos, é promover uma opressão estética. O corpo que foge dessa norma europeia passa a ser tratado como um erro, um desleixo, ausência de disciplina e inferioridade a ser consertado por clínicas, dietas e outras práticas que, do mesmo modo, chegam ao extremismo.



Por isso, desconstruir a cultura da magreza extrema também é um ato de romper a pressão social que frequentemente é imposta na autoimagem das mulheres, de alguns homens, crianças e idosos que também acabam sendo afetados. Em uma cultura pautada pela lógica do espetáculo, na qual a nossa insatisfação é a mercadoria mais rentável do mercado, fica o questionamento: até que ponto o desejo de transformar o próprio corpo é genuinamente nosso? Será que estamos, de fato, buscando a "melhor versão" de nós mesmos, ou apenas tentando desesperadamente caber na mais nova e lucrativa vitrine da indústria que se sustenta ao nos convencer de que nunca seremos o suficiente?

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