Pode avisar que não conseguiram matar ela!
- Revista Spia

- 24 de mai.
- 4 min de leitura
Atualizado: 28 de mai.
Por Lui Cadu
Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins
A Sulanca, em nome e sobrenome, continua vivíssima e a exposição Geração Sulanca, retratou sua vitalidade, resistência e identidade.

"João, que sonhava morar em Santa Cruz...
Maria, que morava em Santa Cruz e sonhava morar em Caruaru...
Carlos, que morava em Caruaru e sonhava morar em Recife...
Clarice, que morava em Recife e sonhava morar em São Paulo…
Pedro, que morava em São Paulo e sonhava morar em Nova Iorque…
E Antônia, que morava em Nova Iorque e sonhava morar na cidade de João.”
Foi assim, parafraseando as palavras de “Cidade”, poema escrito por Ascenso Ferreira, poeta pernambucano, que encerrei minha conversa com outra artista pernambucana: Agda. Ela, que é uma das artistas que deu vida à Geração Sulanca, fez questão de referenciar alguém importante que, em memória, formou sua identidade como sulanqueira: sua avó, uma mulher que, segundo a artista, já vivia na Sulanca quando “Santa Cruz do Capibaribe não passava de quatro ruas”.

Assim como Agda, outros filhos, netos, bisnetos e tataranetos de sulanqueiros e sulanqueiras de Santa Cruz do Capibaribe, do Agreste pernambucano, se reuniram no dia 26 de março para a estreia de Geração Sulanca, uma exposição que une memória, resistência e identidade como quem diz “Ei, respeita a nossa herança! Aqui a moda é Sulanca!”. Afrontando, na cara e na coragem, quem um dia associou o nome e a produção à má qualidade e que, agora, tenta desesperadamente mudar seu nome para barganhar em cima da sua força. S-U-L-A-N-C-A!
Elas também vestem Sulanca!
A exposição reuniu quatro produtos: o painel poético com falas da feira, feito por Agda, a peça sonora com sons e ruídos da Sulanca, Eu Queria Ser Artista/Eu Faço Sulanca/Eu Sou, feito por Virgínia Guimarães e Mayara Bezerra, o documentário Iluminação 7.0, também resultado da parceria de Virgínia e Mayara e, por último, mas pioneiro desta iniciativa, Eles/Elas Também Vestem Sulanca, ensaio fotográfico feito por Marcelo Taulbert e Gil Vicente, em 1996.
Cada produto revela um lado da feira, mostrando como esse comércio pulsa em diversos espaços da cidade de Santa Cruz do Capibaribe mesmo que você não enxergue a feira propriamente dita. Pensando nessa perspectiva, há 30 anos, Marcelo Taulbert, motivado pela ironia de filhos e filhas da classe média usarem os resultados da Sulanca financeiramente e não em suas vestes, cria um ensaio fotográfico com esses personagens usando as peças desse comércio, totalizando 150 imagens (sem contar aquelas que ficaram de fora da exposição). O que Taulbert não imaginava é que 30 anos depois a exposição iria reunir aquela mesma ironia ali, no Museu da Sulanca, ao lado de outros três produtos que dão destaque a outras faces da feira.

A fera se mistura!

“De mão em mão a feira se levanta, a fera se mistura” é uma das primeiras frases que você consegue ler ao mergulhar na primeira obra da exposição, O Painel poético com falas da feira feito por Agda. A obra, segundo a artista, revela a profunda simplicidade do cotidiano, pois traz pedaços de lona (comumente utilizadas para embalar peças de roupa e escrever informações sobre transporte e produção) com frases da feira. Durante a inauguração, não vi apenas um conjunto de resultados artísticos, vi histórias, das mais antigas até as que estavam surgindo ali (como a poeta responsável pelo painel mencionou “eu faço parte dessa história”) e são elas que formam a fera.
“A gente tava parecendo duas quenga”, foi o que Flávia, uma das estrelas da exposição Eles/Elas Também Vestem Sulanca disse para sua amiga, Mônica (outra estrela do ensaio fotográfico encabeçado e produzido por Marcelo Taulbert, em 1996) ao relembrar que, durante a produção das fotos, fizeram as sobrancelhas (algo que não era comum naquela época). Um momento de descontração capaz de revelar o contexto social e cultural de 30 anos atrás, marcado por cobranças estéticas sobre o corpo feminino.
A peça sonora com sons e ruídos da Sulanca, Eu Queria Ser Artista/Eu Faço Sulanca/Eu Sou, feito por Virgínia Guimarães e Mayara Bezerra, propõe uma imersão sonora ao dia a dia da feira, com áudio gravado na própria Sulanca. Além dessa obra, o documentário Iluminação 7.0, outro resultado da parceria de Virgínia Guimarães e Mayara Bezerra, também insere o telespectador no cotidiano desse comércio, trazendo uma breve introdução ao contexto histórico e econômico da cidade de Santa Cruz do Capibaribe e sua relação visceral com a feira, além de relatos e reflexões de sulanqueiros e sulanqueiras.

Geração Sulanca!
Em entrevista com Virgínia Guimarães, artista visual responsável por duas das obras expostas, conversamos sobre como a Geração Sulanca surge em contrapartida às repreensões sofridas pela feira, indo desde a associação do nome “Sulanca” à má qualidade até a mudança de nome por interesses políticos. “Quando se fala de mudar o nome se fala muito sobre modernizar porque os tempos mudaram, mas esse discurso também é contra colonial, porque associa a sulanca a algo antigo e a má qualidade, enquanto na verdade sulanca é inteligência, é verbo, é pajubá, se você quiser… Você está sulancando e isso é moda, cultura e política da atualidade”, diz a artista.
A exposição foi resultado da memória afetiva para quem vive ou já viveu na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, mas também foi história, política e cultura. De geração em geração, memórias foram costuradas para revitalizar a feira e mostrar a cultura que pulsa naquele espaço. Por fim, a Geração Sulanca chegará ao fim no dia 29 de maio, mas permanecerá sempre costurada nos corações de quem a prestigiou. Retomando as palavras de Agda, que relembrou as palavras de Ascenso Ferreira, deixo aqui as minhas: no fim, nós somos da Sulanca e sonhamos em sempre ser dela.


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