"O Encontro", de Justine Lévy, e entre eu você
- Revista Spia

- há 2 dias
- 5 min de leitura
Por Paula Donato
Trabalho aprovado por: Marcelo Martins e Nilton Barros

Louise aguarda no balcão, Justine fuma cinco maços ao dia e eu vos escrevo essa crítica. Três mulheres unidas pela espera, pelo tabaco e pela relação edipiana que ronda a figura da mulher e da mãe. “Sou a melhor coisa que mamãe já fez”, é como Justine Lévy abre seu primeiro livro. O Encontro (1996, Editora Record) é um livro que poderia ser uma confissão envergonhada, mas que Justine se limitou a lançar, apenas, para alguns milhões de pessoas no ápice dos seus 20 anos; e nos deu a oportunidade de ficar aliviados ao descobrir, desse lado do mundo, que uma filha ressentida é a mesma em todo lugar.
Neste livro, Louise e Isabelle, mãe e filha e filha e mãe respectivamente, encontram-se no L’Écritoire, um restaurante localizado na Praça da Sorbonne, em Paris, e discutem a recém-chegada de Isabelle de Kuala Lumpur, da Malásia. Louise toma um café, Isabelle toma uma cerveja; Louise pensa em como sua mãe está bonita, de como sempre fora bonita, e Isabelle chora pela perda das mulheres de sua vida; nunca pela perda da própria filha, no entanto. Era conhecida por ser uma mulher volúvel, marcada pela beleza surrealista e pela decadência romantizada dos anos 1960.
"Mamãe mente. Aí está. É a sua forma de curar a depressão, seu remédio para a doença de se sentir desimportante." O Encontro (p. 11)
A dinâmica e a escolha minuciosa de palavras entre as personagens revelam uma figura ambivalente de Isabelle, o resultado de quando uma femme fatale se torna mãe. Justine suspende o afeto pela figura maternal da mesma maneira que suspende o tempo no livro. Temos acesso a duas mães e duas filhas: sem aviso nenhum, somos constantemente jogados para o pensamento das mulheres em momentos fundamentais de nostalgia. Quando, no restaurante, Louise revira os olhos para uma piada da mãe, eu, você e Justine temos acesso completo à narrativa familiar que resultou nessa reação.

Sendo filha de Bernard-Henri Lévy, considerado um dos líderes do movimento dos Novos Filósofos em 1976, a autora conseguiu esquivar da sombra do pai e concentrou a narrativa na figura materna em suas obras. Isabelle Doutreluigne, com personagem inspirada no mesmo nome, faleceu deixando como legado apenas uma figura de ex-mulher e mãe atormentada. Une drôle de peine (2025, Editora Stock), ainda sem previsão para adaptação no Brasil, é a obra mais recente da autora, que se certifica de preservar a memória de Isabelle mais de 20 anos após a sua morte, e pela segunda vez. Neste livro irônico e melancólico, Justine tem quase a idade que sua mãe tinha quando lançou O Encontro. Então, se há 30 anos tivemos um vislumbre do passado e, até então presente, agora temos a figura central da maternidade incorporada na própria autora.
“Continuo tão sensata quanto antes, tão sem imaginação: gasto muita energia tentando não ser como você, mãe. Eu não conseguiria ser criança e não sei ser adulta.” (excerto retirado do site da Editora Stocks)
Numa tradução livre, Uma Estranha Tristeza (2025) vai abordar a materialidade do luto que Louise – e Justine – sentia desde O Encontro, mas desta vez saindo do campo emocional e lidando com a perda, de modo que todos os versos franceses ainda não a fariam alcançar a pele da mãe, mesmo quando sua mãe, em vida, já era ausência. Embora meio ficcional, meio autobiográfico e totalmente melancólico, os livros não fazem parte de uma saga, pelo menos, não de uma saga literária, mas contam a história de uma vida inteira que foi definida por uma presença-ausência que deveria, acima de tudo, tê-la ensinado a ser uma filha.

Descobri Justine Lévy em 2016, num sebo de livros para onde eu gostava de ir quando queria fugir das aulas e/ou flertar com um de meus colegas. Ganhei o livro com um adesivo que indicava o valor de 5 reais e um garrancho em formato de letra que dizia “com amor, para Gaby”. Não tem “y” no meu segundo nome e ninguém, além dele, nunca me chamou de Gabriela, mas o livro ficou marcado comigo desde então. Um evento de tomada como esse só se repetiu anos depois, quando comecei a estudar linguística e pude analisar o livro por mais uma das várias interpretações que eu já havia aplicado ao texto.
Na semiótica greimasiana, teoria criada por Algirdas J. Greimas e que estuda como os sentidos são construídos a partir de estruturas narrativas, existe um percurso de análise de sentido que se chama “esquema canônico narrativo”. Através de quatro modalidades (dever, querer, poder e saber), analisamos como um sujeito (tido como destinador ou enunciador, dependendo da maneira como você analisa) manipula o destinatário (destinatário ou enunciatário) a realizar uma ação (performance) através dos atributos que ele adquire (competência) até chegar ao resultado (sanção), seja ele esperado ou não.
Como escritora e crítica, comecei a pensar o papel do crítico como uma figura que busca orientar a paixão – seja ela simples ou complexa – sobre uma obra que não lhe pertence. Sua influência decorre do juízo que formula sobre a obra e, principalmente, da relação de confiança que estabelece com seus leitores. Sua sanção da narrativa, positiva ou negativa, pode influenciar o modo como o leitor se relaciona com ela. Mas não me interprete errado, pouco me importa se você, leitor, vai sair dessa publicação e procurar o arquivo digital do livro para tirar suas próprias conclusões com relação às nossas protagonistas, Louise e a mãe, ou entre Justine e Isabelle ou ainda, entre mim e o livro. No entanto, me interessa muito mais o nível de confiança que foi construído entre mim e você até esse momento do texto.
Ao longo de minha crítica, tento brevemente contextualizá-lo quanto ao meu livro favorito, não só, de modo deliberado, deixando de lado um ponto crucial da história, mas, principalmente, o modificando de maneira consciente: Isabelle nunca chega ao encontro. Algum ou outro detalhe foi modificado para efeito de sentido e embasamento de minha meia-verdade que por certo não será comprovada, a não ser pela leitura atenciosa do romance. Embora utilizado como exercício prático de minhas supostas habilidades para a crítica, a função principal deste texto é, para a semiótica e para mim, despertar uma paixão: seja ela a da curiosidade, da revolta ou da vergonha por ter confiado em mim até aqui.
Torço para que, ao contrário da ausência de Isabelle em mais um dos encontros marcados com a filha, o meu leitor não se contente com palavras bonitas, informações pela metade e, talvez, mascaradas com verdades construídas por minhas palavras. Para o meu leitor e para Justine, desejo a liberdade da ponderação e do discernimento de não se contentar com falácias produzidas por figuras de autoridade com as quais me revisto neste momento.
CURIOSIDADES |
Além de escritora, Justine atuou em 3 obras: Mauvaise fille (2012), adaptação de seu próprio livro; Cet amour-là (2001), roteirizado por Marguerite Duras; e Paris dernière (1995), onde faz participação em um episódio. |
Justine Lévy já foi traída pelo marido com a Carla Bruni (compositora da famosa música "Quelqu'un m'a dit", ou, para os locais, "Baby Fala pra Mim" da banda Desejo de Menina), que era namorada do Bernard-Henri Lévy, na época. E, obviamente, escreveu um livro contando tudo isso: Rien de grave (2004). |

.png)



Comentários