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Nova estética junina redesenha a figura tradicional do "caipira"

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • há 6 horas
  • 6 min de leitura

Por Madu Santos

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Quadrilha junina no início do século XX, com roupas típicas. Foto: Reprodução/Internet
Quadrilha junina no início do século XX, com roupas típicas. Foto: Reprodução/Internet

“A moda é um produto do meio cultural e, hoje, não se tem mais a identidade do ‘caipira’ no estilo de antigamente. O São João parece mais uma vaquejada”. Essas frases foram proferidas pelo designer e alfaiate Alex Santos ao ser questionado sobre as roupas que são confeccionadas para o período do São João. Ele afirma que elas revelam o afastamento da figura do “caipira” nas festas típicas. Esse fator reverbera não somente nos shows e nos artistas convidados a se apresentar, que representam, cada vez mais, algo massificado, mas também na própria forma de se vestir do público consumidor e cocriador do São João. O modo de vestir-se é um ato comunicacional através do qual o indivíduo produz significação, mas ele também se modifica de acordo com as mudanças que a própria sociedade enfrenta. Assim, a criação de uma nova estética junina denuncia o surgimento de um conceito bastante atual atribuído ao São João.

Estilista e designer, Alex Santos, formado na UFPE, Campus Caruaru. Foto: Instagram
Estilista e designer, Alex Santos, formado na UFPE, Campus Caruaru. Foto: Instagram

As origens rurais da festa no Nordeste, com costumes tradicionais relacionados ao ciclo das colheitas agrícolas e ao calendário religioso, tornaram-se apenas uma das faces desta manifestação, que passou a sofrer influências das cidades, do aumento da industrialização e do próprio consumo do espetáculo. Hoje, a festa é marcada por um hibridismo cultural, que tenta – e consegue - misturar o tradicional com o teor comercial da modernidade produzido para as massas. Como já citado anteriormente, essas transformações também são visíveis nas vestimentas mais usadas pelos participantes da festa – artistas, patrocinadores, turistas ou até os locais.

As roupas juninas referentes às raízes do São João, como as mangas bufantes, os vestidos de chita, o xadrez, as peças remendadas e os chapéus de palha remontam aos bailes franceses da Idade Média – por exemplo, a dança, a ideia de quadrilha, vem dos bailes franceses do século XVIII. No caso das roupas, o grupo social conhecido como “plebe” foi o principal responsável por criar a figura do “caipira”, típico personagem do período junino, pois os integrantes desse grupo copiavam os looks, peças de roupas e acessórios da Aristocracia e da Nobreza, entretanto, de uma maneira mais caricata e popular, devido às poucas condições financeiras que possuíam.



Pessoas com trajes juninos. Foto: Reprodução/Internet
Pessoas com trajes juninos. Foto: Reprodução/Internet

Hoje, em um outro contexto, percebe-se uma mistura de elementos e até a incorporação da contemporaneidade com, por exemplo, a estilização do matuto e da própria estampa xadrez, e as roupas dos vaqueiros mescladas com a indumentária do sertanejo ou boiadeiro estilo country. O estilista e designer Alex Santos aponta essa descaracterização presente no vestuário e na própria realização da festa. “A festa de São João, que deveria ser significativa para nossa terra, está se tornando muito genérica. Não tem mais cara do São João da gente. Tem a de um sertanejo qualquer, do Centro-Oeste ou Sudeste. Existem diversas identidades de ‘caipiras’. E, ao longo do tempo, fomos perdendo muito da identidade do nosso São João. Inclusive, na forma de se vestir”, afirma Alex.

A Feira da Moda de Caruaru, localizada no Parque 18 de Maio e reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil, é um dos principais polos comerciais destinados à compra e venda também do vestuário. Durante o mês de junho, o fluxo de turistas na cidade aumenta e a feira torna-se um dos pontos turísticos de maior preferência deles, mas também dos locais. Dessa forma, as ofertas das roupas, nos boxes presentes no local, demonstram uma espécie de padronização dos looks mais procurados pela clientela desse polo. A comerciante Sheila Luna, que trabalha há 25 anos com a venda de roupas, fala sobre as principais escolhas do público neste período junino.

Comerciante e proprietária de um banco na Feira de Caruaru, Sheila Luna. Foto: Instagram
Comerciante e proprietária de um banco na Feira de Caruaru, Sheila Luna. Foto: Instagram

“As tendências que estão bem em alta, características do São João, são as calças resinadas, aquelas de couro fake; as blusas no modal, com mangas compridas, bastante detalhes e brilhos. Mas os consumidores também procuram muito shorts, saias, vestidos, todos na tendência do corino”, afirma Sheila. Além disso, conforme a feirante, o xadrez não está entre os produtos mais vendidos em seu banco, mas que o pouco que oferece, procura sempre um xadrez mais estilizado. Nesse sentido, observa-se que os elementos tradicionais nas roupas juninas deram espaço a uma nova estética, na qual afastam-se, cada vez mais, da figura do “caipira”.



Banco com roupas, na Feira da Moda, localizada em Caruaru (PE) (28 de Maio de 2026). Foto: Madu Santos
Banco com roupas, na Feira da Moda, localizada em Caruaru (PE) (28 de Maio de 2026). Foto: Madu Santos

No entanto, mesmo com uma modificação no estabelecimento de signos e símbolos nessa manifestação cultural, ainda existem pessoas que trabalham com a confecção de roupas “típicas”, principalmente para o mês de junho, e que mesclam o tradicional e o moderno. Segundo a costureira Salete Tabosa, que trabalha como profissional na área da costura de trajes juninos e fantasias há 18 anos, há uma necessidade de se adaptar as novas demandas do seu público. “No início, eu usava muito xadrez, chita, bicos e fitas. Hoje, as preferências dos meus clientes são sempre novidades e lançamentos”. A entrevistada ainda complementa que, devido ao favoritismo de sua clientela, todos os anos ela cria uma coleção exclusiva usando elementos tradicionais para não perder a característica junina, mas com modelos que acompanham as tendências anuais. Por exemplo, neste ano, um dos seus lançamentos chama-se “Brasileirinhas”, no qual a profissional mesclou elementos como o xadrez, as fitas e os bicos nas cores verde e amarelo, por causa da realização do maior evento esportivo, a Copa do Mundo de 2026.

A mistura de elementos no São João e até a integração de uma nova identidade das festividades ainda é visível em um dos principais lugares que compõem o período junino, na cidade de Caruaru (PE), o Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga. De acordo com a estudante Lyzandra Duarte, de 20 anos, que diz frequentar bastante o local, há uma grande padronização na escolha das roupas por parte do público-alvo, sempre com a presença do couro e do brilho, e com o xadrez aparecendo só alguma vezes. Ela ainda argumenta que esse fator se intensificou com a chegada das lojas de R$ 20,00 na cidade, o que, automaticamente, aumentou o acesso ao setor do vestuário, facilitando a normalização de certos estilos.


Lyzandra Duarte com família e amigos, no Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga (31 de Maio de 2026). Foto: Arquivo Pessoal
Lyzandra Duarte com família e amigos, no Pátio de Eventos Luiz Lua Gonzaga (31 de Maio de 2026). Foto: Arquivo Pessoal

Nesse contexto, percebe-se uma significativa influência das redes sociais, principalmente TikTok e Instagram nas tendências das roupas para as festas do mês de junho. Essas redes citadas tornaram-se importantes agentes influenciadores na vida dos seus usuários. O contexto apresentado, diante da inserção das redes sociais no cotidiano contemporâneo, é perceptível em alguns dos relatos. Ainda de acordo com a estudante Lyandra Duarte, essas mídias influenciam os usuários e mostram que as tendências vão mudando e, através das redes, as pessoas se adaptam.

Salete Tabosa, costureira de trajes juninos e fantasias há 18 anos. Foto: Instagram
Salete Tabosa, costureira de trajes juninos e fantasias há 18 anos. Foto: Instagram

“Sempre quando surge uma tendência, as pessoas vão se adaptando a ela. Se eu gosto de alguma roupa que vejo alguém usando no TikTok, por exemplo, já penso em usar e ir adaptando ao meu estilo”, afirma a estudante. Essa situação também é vista na realidade da costureira Salete Tabosa que relata usar referências das redes sociais na criação de sua coleção anual, como uma forma de atualizar seus modelos para o momento. Além disso, a comerciante Sheila Luna também encontra essa influência externa no seu comércio. “Acontece muito de chegarem no meu banco na feira, querendo o que passa na TV, nas redes sociais, o que pessoas famosas vêm usando ultimamente nesses meios, principalmente, no Instagram”, atesta Luna.

A moda e a sua comunicação sofreram várias transformações desde o surgimento do meio digital, devido à diminuição de sua exclusividade as elites e também devido à própria ideia de democratização da informação. Agora, os indivíduos, de qualquer grupo ou classe social, passam não somente a aderir a moda, mas também a cria-la por meio de suas próprias redes, como as citadas. Segundo o estilista Alex Santos, a transformação que ocorreu nas roupas juninas reflete a nossa sociedade, que não se importa tanto com o contexto cultural, porém o status e o que é instagramável tornaram-se foco desta geração, usando até mesmo como referência as trends do TikTok, traduzidas como tendências. Dessa forma, percebe-se que a plataforma é grande influente nos padrões atuais, e o São João, assim como a Feira de Caruaru e o Pátio de Eventos são alvos dessa interferência cultural.

Em suma, é imprescindível afirmar que as redes sociais foram, de certa forma, um dos aspectos responsáveis pelas mudanças na simbologia do vestuário junino nos dias atuais. O tradicional do São João, ainda tenta reafirmar a figura do “caipira”, procurando sustentar-se em alguns elementos, como o tema do São João de Caruaru: “Tecido de tradições, costurando gerações”. Entretanto, a população, ao receber tantas influências e referências através das redes, mudam sua forma de vestir-se, e assim, indiretamente, criam uma nova estética, misturando na composição itens de couro, cores como o preto e o marrom, paetê, brilho, botas e chapéus, com detalhes do estilo country, muito difundidos no ambiente virtual.

Dessa forma, profissionais como a costureira Salete Tabosa e a comerciante Sheila Luna, que possuem uma demanda maior neste período festivo, precisam procurar um equilíbrio entre o tradicional e o moderno, mesclando elementos das duas propostas, o que confirma a presença de um hibridismo cultural na comunicação das vestimentas juninas.

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