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Kátia Mesel e o cinema pernambucano: "É o cinema mais heterogêneo do Brasil"

Atualizado: 23 de dez. de 2021

Cineasta já acumula 50 anos de carreira e mais de 300 filmes entre curtas e longas

Katia Mesel - Foto: Rafael Bandeira

Dona de uma criatividade incansável e de um espírito livre e contagiante, Kátia Mesel é um dos grandes nomes do audiovisual pernambucano. Com 50 anos de carreira, e mais de 300 filmes produzidos, foi a primeira realizadora do audiovisual pernambucano que se tem registro, além de ser a primeira mulher a ter participado de um festival de cinema no Brasil, em 1973.


Entre curtas e longas, passando pelo Super-8 até o digital, ela coleciona pioneirismos. Formada em Arquitetura e Artes Gráficas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a diretora, produtora e roteirista, começou a utilizar a Super-8 ainda no começo da graduação e logo iniciou a carreira de cineasta, misturando sua formação de arquiteta e dando uma nova perspectiva ao cinema.


Kátia falou com a Spia sobre sua história e vida real, seu grande interesse enquanto documentarista, sua produtividade em período de confinamento e o cinema pernambucano de hoje.


Como está sendo esse período de pandemia?


Engraçado, na realidade não mudou muito. Eu moro sozinha e minha produtora é aqui em casa. Eu sou uma pessoa que vivo muito só. Estou sempre fazendo alguma coisa, escrevendo, revendo, pesquisando, sempre criando, então se fosse apenas o isolamento seria normal. Eu não sou mais tão festeira, que eu era muito, fui deixando de sair de noite.


Passei três meses em Aldeia na casa do meu filho mais velho e quando voltei, a primeira coisa que eu fiz foi um curta. Feito aqui em casa, chama-se “A Volta”, inclusive, está no meu canal do YouTube: Kátia Mesel. Estar sozinha pra mim não é problema. Mas vou dizer, sair de máscara pra mim é uma tortura.

“Olha aí, você não gosta tanto de fotografar, o moderno agora é fotografar em movimento.”

Quando foi que você começou a fazer cinema?


O estalo foi meio do nada, porque eu estudava arquitetura, fotografava muito. Eu tinha uma câmera maravilhosa e vivia fotografando tudo. Em 1978 meu pai e minha mãe viajaram para Europa e me trouxeram uma câmera 8mm. Chegaram e me disseram: “Olha aí, você não gosta tanto de fotografar, o moderno agora é fotografar em movimento.” Caiu do céu, eu não tinha a mínima noção, não tinha curso de cinema, não conhecia ninguém que mexesse nela.


E aí a câmera chegou na minha mão, primeira coisa que vai fazer é o que? Filmar ao redor! Então foram filmagens muito experimentais, só olhando o mundo. Depois eu adquiri um super 8, aí já ficou melhor. Porque essa de 8mm demorava três meses pra gente saber o que é que tinha filmado. Mandava revelar no Panamá. Não fazia cópia, o filme, a película dele era positivo. Então, não foi uma coisa que eu gostaria de fazer, caiu do céu pra mim e eu gostei, me identifiquei. Aos poucos fui me desestimulando de arquitetura e fui entrando pra cinema e fiquei.



O super 8 foi a porta de entrada para muitas cineastas no cinema, como foi o momento pra você?


O ciclo super 8 foi um ciclo mais teórico do que de fato um movimento. Não eram pessoas que, eventualmente, se encontravam e construíam coisas juntas, não vejo como um movimento.


Você é formada em arquitetura, queria saber como o curso influenciou e influencia nos teus trabalhos?


Eu fazia arquitetura e artes gráficas. Acho que os dois cursos foram fundamentais pra minha estética cinematográfica. Arquitetura como tridimensional, noção de espaço, perspectiva, de claro e escuro, iluminação. E artes gráficas, a composição, o contraste. Foram coisas que foram se complementando, tanto esteticamente, como tematicamente, porque meu primeiro 35mm foi sobre arquitetura tropical, baseado num livro de Gilberto Freyre chamado “Oh de Casa”, o filme também tem o mesmo nome.


Esse experimentalismo que eu falo tem muito de ambiências, de lentes, de estranhezas, de movimento de câmera, tudo isso e que eu acho que tá tudo ligado a esse meu lado estético e espacial de arquitetura e artes gráficas. E a coisa da técnica eu fui me adaptando ao que era, ao que eu queria.


Boa parte das tuas produções são documentários. Foi uma escolha natural?


Mais de 90% são documentários, embora eu transite um pouco pra ficção. Foi tudo bem natural, até pelo meu início, que foi bem experimental. Eu comecei a usar a câmera ao meu redor. O que me encanta e que eu gosto mesmo no documentário é que eu acho que a verdade é muito mais surpreendente do que o que a gente consegue inventar. Tem cada coisa tão louca nessa vida, coisas impressionantes.

Kátia é a fundadora da Arrecife produções - Foto: internet

A ficção por mais que você se esmere, vai ser baseada em fatos reais, vai ser baseado em alguma experiência real, eu gosto muito do documentário por isso. E eu adoro filmar na luz do dia, filmar em luz natural e isso é mais difícil na ficção, não que não seja possível. Como o documentário não tinha isso de ensaiar, era a minha aproximação com a pessoa, o foco do tema, ir conversando e tornando aquele papo natural.


Acho que é um dom que eu tenho, que é tornar uma conversa fluente e agradável, sem ser aquela coisa técnica. O que não tá errado, cada um faz do jeito que quiser, mas eu tenho essa facilidade de chegar.


Você foi a primeira realizadora a participar de um festival de cinema no Brasil, em 1973, com seu filme “Rotor”. Como essa participação foi recebida se tratando de um contexto de ditadura militar?


Era um festival promovido pela Universidade da Bahia, então era uma coisa bem oficial. Mesmo sendo na ditadura não tinha nenhum clima de guerrilha, nem de protesto. Era super 8, era uma coisa muito iniciante. Não cheguei a ir fisicamente, mandei meu filme, Rotor. Foi um trabalho de luzes, numa festa de rua com o povo, roda gigante, tudo muito iluminado. Eu fiz todo um experimentalismo com luzes, mexendo, subindo, de cima pra baixo, de baixo pra cima.


Aí o pessoal da Embrafilme disse “Kátia, tem um festival na Bahia de filmes universitários, você não quer participar?”. Eu já tinha mostrado no teatro do parque também, e aí mandei. Trinta anos depois, quando foi editado o livro “ABD 30 Anos", eu soube que fui a primeira mulher a participar de um festival de cinema no país. Eu não sabia.


Você foi casada com Lula Côrtes, como a obra dele influenciou seus trabalhos?


Fomos casados, fomos ‘juntados’, por dez anos. Nós nos conhecemos no TPN, Teatro Popular do Nordeste. Eu estudava arquitetura ali pertinho e Lula ia lá, tinha o pessoal tocando. Ele tinha chegado a pouco tempo em Recife, tinha morado um tempo em Minas e era meio escanteado porque era aquela pessoa meio agoniada, falava muito, o tempo todo. A gente trombou e foi um magnetismo.


Tinha, praticamente, um centro de artes na minha casa. Eu sou a mais velha de sete filhos e a gente tinha um quarto de estudos, laboratório de fotografia, gravador de som, ninguém tocava, mas escutamos de tudo. Todo mundo ia pra Europa, EUA, trazia os últimos lançamentos. Quando a gente se juntou, Lula Côrtes trouxe todo um repertório musical a mais, começamos um movimento musical. Eu fiz vários livros dele, vários Lp’s, exposições dos quadros dele, fiz filhos (risos). A formação dele era mais erudita, mais clássica, como sou pernambucana raiz fui introduzido ele à algumas coisas da nossa cultura.


Por falar em Pernambuco, como você enxerga o Cinema Pernambucano hoje?


Hoje, para mim, é o cinema mais criativo, incrível, questionador, heterogêneo que tem no Brasil. Nenhum cineasta faz parecer que é um movimento, não é um movimento cinematográfico pernambucano. Cada um faz o seu cinema, do seu jeito, usando, quase na maioria das vezes, técnicos pernambucanos, gente local, da nossa região.

Hoje, para mim, é o cinema mais criativo, incrível, questionador, heterogêneo que tem no Brasil.
Cena do curta “Recife de dentro para fora” - Foto: internet

Cada um do seu jeito, com sua pegada. Uma pegada pela sensibilidade, outra pela ferocidade, outra pelo humor, outra pela desconstrução. Adoro essa multiplicidade, essa independência do cinema pernambucano para o resto do Brasil e a independência de cada cineasta nesse panorama audiovisual local.


Boa parte dessas produções, se não todas, acontecem através de algum incentivo do Estado, como você enxerga esses incentivos?


Eu acho que são importantíssimos, inclusive eu fiz parte da primeira comissão que criou o Sistema de Incentivo à Cultura (SIC) estadual, que foi antes do FUNCULTURA. Agora, o que me preocupa demais é a dissociação dessas comissões julgadoras, que são pessoas de fora do nosso estado e que não levam em conta uma série de coisas, inclusive da credibilidade de execução.


Disseram no projeto “em momento de pouca verba temos que ter certeza da execução”. Meu deus do céu! Eu tenho cinquenta anos no mercado, nunca deixei de fazer um projeto que submeti. Pessoas de Pernambuco jamais diriam isso. Isso me preocupa demais. Para mim é o grande defeito sermos julgados por outras cabeças, por outras estéticas. Gente que faz comediazinha carioca claro que vai ter outra mentalidade.


Entrevista realizada por Hanna Aragão e Adelvando Queiroz

para o Especial Mês da Mulher..


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