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  • Foto do escritorHanna Aragão

Adelina Pontual, o legado do Vanretrô e a continuidade

Atualizado: 23 de dez. de 2021

Entre suas obras mais famosas estão os curtas Cachaça (1995), Veio (2005) e o documentário Rio Doce CDU (2013).

Adelina Pontual - Foto: Otávio de Souza

Tudo começou na Universidade Federal de Pernambuco, quando um grupo de amigos inquietos descobriram um interesse em comum: a vontade e o desejo de fazer cinema. Formado em sua maioria por estudantes de Comunicação, o Vanretrô, nome dado posteriormente ao grupo, foi um importante acontecimento do Cinema Pernambucano. Foram eles, os responsáveis por colocar o estado na cena do audiovisual lá nos anos de 1980. Hoje, os idealizadores daquele grupo, que tinha nome que mais parecia de uma banda de rock, são de grande importância na produção audiovisual do país.


Entre eles, está Adelina Pontual.


Nascida no Recife, Adelina é uma diretora, roteirista e continuísta. Entre suas obras mais famosas, estão os curtas Cachaça (1995) e Veio (2005). Com o curta Cachaça, a cineasta fez um prenúncio para a quebra de uma estrutura de fazer cinema muito tradicional. Em 2013, ela nos levou em uma viagem pelos subúrbios de Recife e Olinda, no seu primeiro longa, o documentário Rio Doce/CDU. Seguindo o itinerário da famosa linha de ônibus, Adelina revelava em seu filme uma diversidade de paisagens urbanas e de tipos humanos que habitam aquelas ruas.


Como continuísta, ela é uma das mais conhecidas e prestigiadas do país. Exerceu essa função em mais de 20 longas metragens nacionais, como Central do Brasil (1998), de Walter Salles, Carandiru (2003), de Hector Babenco, Era Uma Vez Verônica (2012), de Marcelo Gomes, Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda e Piedade (2017), de Cláudio Assis.


Nesta entrevista, Adelina conversou com o Spia e falou sobre sua relação com audiovisual, o papel do continuísta, o Vanretrô e como ela imagina que será o audiovisual depois que a pandemia acabar.


Adelina, falar de cinema pernambucano é falar do Vanretrô, qual a importância desse período para sua formação dentro do cinema?


Foi importante no sentido de descobrir uma vocação, de que era isso que eu queria fazer. E que foi onde todos descobrimos aquela época e nos juntamos e criamos o grupo para batalhar por isso. Tentar fazer um curta-metragem que a gente pensou e elaborou um roteiro. Então foi por aí, essa coisa do início mesmo, da descoberta, de descobrir juntos, de tentar juntos. Foi muito bom ter o grupo, o apoio que um dava ao outro.

O cinema pra mim é aquilo: “ninguém inventou a roda”, toda invenção de cinema, de linguagem, já veio, já aconteceu, e o que a gente faz é dar um olhar próprio aquela coisa.

Já fazem 35 anos do Vanretrô, naquela época vocês queriam assumir as referências passadas, mas também propor uma estética vanguardista. Você acha que o atual cinema (brasileiro/pernambucano) tem seguido essa mesma linha?


O cinema pra mim é aquilo: “ninguém inventou a roda”, toda invenção de cinema, de linguagem, já veio, já aconteceu, e o que a gente faz é dar um olhar próprio àquela coisa. Dar uma reciclada. Mesmo que a pessoa não tenha uma experiência, acho que de alguma forma aquele tipo de narrativa já foi feito em algum lugar do mundo. Pra mim, esse olhar pro passado é muito importante, buscar sua linguagem e maneira de expressão do que se fez na história do cinema.

Cachaça foi o primeiro curta da cineasta, lançado em 1995 - Foto: Internet

O start para fazer cinema já existia quando você era criança?


Na verdade, não! Foi uma coincidência astrológica de tá todo mundo ali e todo mundo ir despertando junto. Foi na faculdade mesmo. A gente entrou pra comunicação, todo mundo pensava em fazer jornalismo, mas foi ali que se descobriu que tinha afinidades cinematográficas, que a gente gostava de cinema e porque não fazer, né? E tinha Paulo Caldas que já fazia super 8, aí foi chamando atenção e despertando para isso. Eu não fiz Super 8, mas o fato dele fazer instiga a gente.


Também tinha Lírio Ferreira que trabalhou em algum filme de Paulo, acho que Samuel também, mas não estávamos tão envolvidos diretamente com isso. A gente se envolveu com a ABD, que é a Associação de Documentaristas de Pernambuco, porque a gente entendeu que o caminho tinha que ser por luta política, então todos nós, em peso, entramos na ABD. Entramos juntos e tentamos maneiras de como conseguir auxílio, já que o Cinema Pernambucano tava parado, e o ciclo do Super 8 tava acabando. Na verdade, Paulo Caldas foi um dos últimos a fazer filmes Super 8.


Poucos conhecem o que é e qual o trabalho de um continuísta, fala um pouco sobre essa função.


É muita coisa. É uma oficina inteira sobre isso. Então, todo mundo tem uma ideia meio equivocada sobre continuidade, achando que continuidade é só pra cuidar de questões do figurino, de maquiagem, ação de ator (...), mas a gente é uma espécie de assistente de direção também e que está muito ligada a esse trabalho de direção.

Cineasta já atuou como continuísta em Central do Brasil e Carandiru - Foto: internet

Porque tem uma questão de linguagem cinematográfica que o continuísta tem que dominar e estar a postos para entender o filme que está fazendo e ver como determinadas regras podem ser aplicadas ou não. Determinadas regras que vêm desde do momento que o cinema começou a se firmar como linguagem narrativa, e que essas regras foram se consolidando até o cinema clássico, e nesse cinema clássico essas regras já estavam totalmente consolidadas, que são as regras de continuidade.


Hoje em dia você tem que dominar essas regras e saber até que ponto elas podem e devem ser aplicadas no filme ou não. E, além disso, cuidar também de toda essa coisa da continuidade aparente, que é figurino, maquiagem, objetos, cenografia.



O roteiro de um documentário é mais aberto que o de um filme de ficção. Seu primeiro longa-metragem (Rio Doce CDU) foi um documentário, como o teu trabalho de continuísta ajudou na produção do doc?


Como continuísta eu acho que não ajudou muito, porque esse trabalho está mais ligado ao cinema narrativo de ficção. É muito mais o trabalho de montagem, de pensar e montar. Na verdade, a continuidade tá ligada à montagem, mas não no sentido de montagem documental e sim a montagem narrativa, porque você, como continuísta, tem que garantir que o filme depois de montado, seja editado. Por isso que existem essas regras. Para que o filme tenha uma edição fluida, aquela edição invisível, bem clássica do cinema americano.


No documentário a gente tem que pensar mais em estrutura e isso tem a ver com montagem, mas montagem no outro sentido, que não é do cinema narrativo. Não deixa de ser uma narração, o doc, mas é outra coisa. É você pensar em estrutura e não em fluidez. É pensar na estrutura de como aquele filme vai se estruturar para resultar em um bom filme, que envolva as pessoas e que seja um filme com conteúdo e que aquele conteúdo esteja bem expresso naquele tempo de duração do filme.



E como foi o processo de montagem do documentário?


Eu escrevi o projeto em vários editais até conseguir, não foi de primeira não. Eu fiz o roteiro, mas como tem a coisa do ônibus, então no roteiro eu trabalhei em cima do itinerário do ônibus. Eu tinha o roteiro bastante amarradinho, até demais pra ser um documentário. Porque tinha essa estrutura cíclica que é o trajeto do ônibus. Foram 8 semanas de trabalhos tanto dentro do ônibus, quanto fora, porque fazia parte do roteiro e da estrutura fazer as paradas.


Eu chamava de paradas exploratórias, que era parar nos vários bairros que ele passava, escolhia determinados pontos e ia observando. É um documentário muito observacional. E observar os locais e ter alguns personagens que falassem. A ideia era essa, personagens anônimos dos próprios bairros, não queria gente famosa. Gente anônima dos bairros que falassem da cidade, porque na verdade o que eu queria falar era sobre a cidade, que no fim, com a escolha do Rio Doce – CDU, ficaram duas cidades, Recife e Olinda.

Rio Doce CDU é um filme observacional - Foto: Internet

Toda ideia dele parte dessa ideia do observador que viaja de ônibus. Uma pessoa que viaja de ônibus e observa a sua cidade. Então procuramos esses personagens de pessoas comuns e anônimas. E que tivesse alguma relação com esse ônibus, que foi escolhido por ser uma linha de ônibus muito antiga do Recife e Olinda. Uma linha tradicional e por ela fazer esse trajeto tão sinuoso de entrar por vários bairros. Depois das filmagens o processo de montagem foi bem longo, durou um ano, mas não corrido. A gente montava, parava, dava um tempo. Voltava, revia o material e aí ia trabalhando.


E o contato com essas pessoas e histórias anônimas?


A gente fez um trabalho de pesquisa anterior. Fizemos o percurso do ônibus em diversos horários e dos personagens a gente também fez o itinerário a pé e dessa forma a gente encontrou pessoas. Claro que durante as filmagens apareceram pessoas que não estavam nem previstas na pesquisa, mas foi muito legal encontrar e fazer.


Agora, depois da pandemia as coisas mudaram completamente, como você acha que o cinema de hoje vai reagir amanhã?


Eu fico me indagando como vai ser essa volta, da gente conseguir produzir de novo. É preciso a vacina pra isso acontecer, não tem como ficar fazendo teste em todo mundo, porque a gente sabe que isso ainda é arriscado e caro. Mas, acho que criativamente vão nascer várias coisas, porque tá todo mundo pensando seus projetos, escrevendo (...). Quando abrirem novamente as portas e disserem pode ir, acredito que vá sair um monte de coisa, um monte de coisa boa.

Entrevista realizada por Hanna Aragão

para o Especial Mês da Mulher.

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