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Carnaval como paixão, sangue e pesquisa de Amilcar Bezerra

Atualizado: 23 de dez. de 2021

Professor e pesquisador pela Universidade Federal de Pernambuco, Amilcar Bezerra também é músico e compositor. Não por acaso, todas essas áreas tem um eixo em comum: o frevo.

Amilcar em 1981 - Créditos: Acervo pessoal

O frevo está presente na vida de Amilcar desde sempre. Essa relação de berço, foi construída através da relação de seus pais com o carnaval. A paixão pelo ritmo seguiu e hoje, faz parte da sua vida profissional.


Através de algumas obras específicas, como o trabalho do compositor e cronista Carlos Fernando na série de discos Asas da América, o professor percebeu no frevo muito mais que um ritmo eletrizante. E esse foi um dos pontapés para inúmeros projetos seus sobre o carnaval e o frevo. Projetos esses que se misturam com a sua vida pessoal e profissional.


Nesta entrevista, a Spia conversou com ele sobre carnaval, frevo e a obra de Carlos Fernando e também sobre o não tão recente trabalho como músico e intérprete.


Qual sua relação com o carnaval?


A minha relação com o carnaval vem desde muito cedo, porque meus pais são muito ligados ao carnaval. Quando eu nasci, meus pais já faziam parte do Bloco da Saudade. O bloco surgiu em 1974, e no carnaval de 1976 ou 1977, eles desfilaram pela primeira vez. Desde muito pequeno eu sempre me acostumei a ver meus pais se mobilizando para brincar de carnaval, se fantasiando e participando das prévias. No ano de 1980, minha mãe assumiu a presidência do Bloco da Saudade. A partir disso, a casa da gente passou a ser uma sede informal do bloco, então eu cresci numa espécie de barracão de uma escola de samba, sempre quando chega a época do carnaval a casa deles fica repleta de fantasias, com ensaios e reuniões do bloco.


Minha mãe ainda é presidente do bloco, são 40 anos à frente do bloco já. Eu cresci ouvindo muito frevo, e diferente da maior parte das pessoas que gostam de carnaval e frevo, na minha casa se escutava frevo o ano inteiro. Nisso, eu acabei gostando. As vezes os filhos se rebelam contra os gostos e comportamentos dos pais, mas nesse aspecto eu acho que eu incorporei muito isso. Eu sempre gostei de frevo, sempre gostei de carnaval. Comecei a desfilar muito cedo, com 10 anos eu fui ao meu primeiro desfile. As primeiras músicas que eu aprendi a cantar foram músicas de carnaval, com dois anos de idade eu já cantarolava algumas músicas do repertório do bloco. Desde muito cedo o carnaval já estava no sangue.


Foi daí que surgiu a vontade de escrever um livro contando a história do Bloco da Saudade?

A ideia do livro surgiu em 2004, o Bloco da Saudade fez 30 anos em 2004. Nesse ano, o bloco lançou o terceiro CD, se eu não me engano. Eu estava concluindo o mestrado e essa ideia apareceu junto com Lucas Victor, que é um amigo de infância e também é muito ligado ao carnaval. Lucas tinha concluído o mestrado em história e eu estava concluindo um mestrado em comunicação, e tivemos essa ideia de apresentar um projeto no Funcultura para contar a história dos 30 anos do bloco da saudade.


O projeto foi aprovado, tivemos quase um ano de pesquisa, fizemos uma série de entrevistas e o livro foi lançado no carnaval de 2005. Eu me lembro que a gente lançou o livro em um ensaio do Bloco da Saudade e só no dia do lançamento a gente vendeu mais de 200 livros. Esse livro está esgotado hoje, mas estamos pensando em fazer uma edição maior e mais arrojada dele. A gente fez uma pesquisa que resultou em um CD Rom, que vinha anexado ao livro, com muitas fotos, depoimentos e entrevistas. A gente tem pensado em lançar em um outro formato já que ninguém mais tem CD Rom.

Créditos da imagem: Arquivo pessoal

Foi uma experiência muito bacana, é uma espécie de livro reportagem, mas com uma contextualização histórica muito embasadas por conta das pesquisas de Lucas. Ele é um pesquisador do carnaval, a tese dele no doutorado foi sobre o carnaval do recife na primeira metade do século XX. O resultado ficou muito bacana, apesar de já ter 15 anos, eu sempre pego para reler e é uma coisa que eu me orgulho muito de ter feito.


Essa foi sua primeira vez pesquisando sobre o carnaval?


Não, eu já tinha feito alguns trabalhos na faculdade sobre blocos de carnaval. Em disciplinas de graduação mesmo, tinha uma disciplina de pesquisa que a gente fez algumas entrevistas, eu e meus colegas de faculdade, com alguns dirigentes de blocos de carnaval do Recife, visitamos vários blocos. Produzimos um documento falando sobre a situação dos blocos na época com essas entrevistas todas, isso no final dos anos 90. Infelizmente, esse trabalho se perdeu. Mas eu posso dizer que essa sim foi minha primeira experiência como pesquisador nessa área de agremiações de carnaval.


Além do frevo em si, a obra de Carlos Fernando é uma das suas pesquisas, como foi que você chegou até ele e começou a pesquisar ele?


Carlos Fernando, foi um compositor caruaruense que - apesar da principal obra dele ser a série de LPs Asas da América, que é uma série de LPs de frevo, cantado por grandes intérpretes da MPB (ele não era cantor, era só compositor) - tinha uma capacidade de articulação muito grande. Ele foi capaz de trazer para cantar no mesmo disco Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, Elba Ramalho, Alceu Valença, entre outros. Ele foi o primeiro produtor, que conseguiu reunir tantos medalhões da MPB em um mesmo LP. Para cantar músicas que eram dele, esses medalhões eram cada um de uma gravadora, então você tinha uma série de impedimentos legais. Ele foi capaz de passar por tudo isso e convencer as gravadoras e os artistas a cantarem as canções dele.

Capa do primeiro disco do Asas Da América (1979)

São, ao todo, 5 LPs da série Asas da América, que foram lançados entre 1979 e 1993. Essa, é exatamente a época de minha infância e pré-adolescência, então, muito embora, na casa dos meus pais o Asas da América não fossem muito escutado, porque meus pais gostam de um tipo de frevo mais tradicional e mais antigo, meus tios e primos que eram mais jovens escutavam muito o Asas da América.

Discos por ano de lançamento 1980, 1981, 1983 e 1989

Eu me lembro de adorar as musicas, que era um arranjo mais moderno, era uma pegada mais pop. Eu me apaixonei pelo Asas da América ainda criança. Uma das coisas que me incomodava, quando eu me tornei adulto e passei a pesquisar o carnaval com mais seriedade e frequentar mais prévias, era que não se tocava não se tocava as músicas do Asas da América nas prévias carnavalescas de Recife e Olinda e nem no carnaval. Dificilmente você escutava qualquer coisa do Asas da América, e eu achava aquilo um absurdo porque tem músicas muito mais antigas que tocam repetidas vezes no carnaval e tinha coisas mais recentes do Asas e as pessoas não conheciam.


Eu descobri que não era o único que pensava assim. Lucas, que escreveu o livro comigo, também era fã do Asas. Essa galera da minha geração que cresceu escutando discos dos anos 80 também curtia bastante.



E foi aí que surgiu o “Quero ver Quem vai”?


A gente começou a tocar músicas do Asas em farras que a gente fazia. De vez em quando a gente fazia uns saraus, se junta pra cantar e tocar. Tínhamos esse hábito de nos juntarmos em um bar para tocar violão e tomar cerveja. E quando era uma farra mais próxima do carnaval a gente tocava muita coisa do Asas. Para nossa surpresa, pessoas que estavam sentadas próximas conheciam as músicas, chegavam perto, iam cantar com a gente, perguntavam como é que a gente conhecia, dizia que escutava na infância, etc.

Créditos da imagem: Arquivo pessoal

Esse feedback positivo das pessoas e o repertório que a gente gostava de cantar, fez com que a gente criasse uma agremiação, sobre o Asas da América, que é o "Quero ver quem vai". Ele foi criado em 2015, não tocamos só Asas da América, mas agregamos ao repertório vários frevos de artistas da MPB que participaram do Asas da América, mas que também tinham outros trabalhos de frevo. Então, tocamos sempre Caetano, Gilberto Gil, tocamos muitos frevos de Moraes Moreira. É uma proposta que a gente sentia muita falta aqui, que era tocar esse frevo mais próximo da MPB, que era representado tanto pelo Asas da América quanto por algumas canções que esses artistas da MPB gravaram, eventualmente, frevo. Fomos atrás desse repertório de frevo desses artistas e incorporamos ao Quero ver quem vai.


Nas terças-feiras de carnaval a gente faz essa farra no bar Royal, que é um bar do Recife Antigo. Ano passado a gente tinha quase 400 pessoas assistindo. Começamos a nos profissionalizar também, colocar amplificadores, mesa de som, ensaiar mais porque vimos que estava chegando muita gente e não queríamos passar vergonha. Hoje, a brincadeira virou uma coisa mais profissionalizada. Essa coisa do "Quero ver quem vai" surgiu em paralelo com a vontade de pesquisar Carlos Fernando. O bloco surgiu em 2015, para executarmos as músicas de Carlos Fernando e ao mesmo tempo eu fui me interessando também em pesquisar sobre a obra dele.


Por que o “Asas” não ganhou o mundo?


Eu tenho uma hipótese sobre isso. Pelo menos aqui em Pernambuco as músicas de Carlos Fernando não são muito tocadas por dois motivos: primeiro porque ele produziu os discos no Rio de Janeiro; são discos que foram produzidos por grandes gravadoras nacionais, enquanto o repertório clássico do Recife foi praticamente todo gravado aqui pela rozenblit. Isso é uma razão. O networking de Carlos Fernando era outro, não era muito ligado ao pessoal do carnaval tradicional daqui, e sim, ligado muito aquele showbusiness das gravadoras do Rio de Janeiro, o que gerou uma certa resistência das pessoas daqui à música que Carlos Fernando produzia.


Em segundo lugar, porque era diferente mesmo. O frevo de Carlos Fernando tinha guitarra elétrica, tinha baixo elétrico, não tinha muitas vezes o naipe de metais que é tão característico do frevo em Pernambuco. Então, muitos músicos e jornalistas tradicionalistas aqui de Recife acusaram ele de tá desvirtuando o frevo, diziam que ele fazia frevo "abaianado”, que aquilo não era música de Pernambuco. Havia uma resistência muito grande por conta disso. Porque ele transitava em outro círculo e que não tinha nada a ver com esse pessoal tradicional daqui, e porque a música dele, a música que ele fazia também não era tradicional.


Pode ver que as letras dos frevos são diferentes. Falam eventualmente das agremiações e de temas ligados ao carnaval, mas não só isso. Os frevos de Carlos Fernando falam sobre tudo. Isso era uma coisa que ele defendia: “A gente tem que parar com esse negócio de que frevo só toca no carnaval. A gente tem que fazer frevo de todos os assuntos para que o frevo toque o ano inteiro, pra que deixe de ser uma música sazonal.” E ao mesmo tempo ele pensava que incorporando essa linguagem mais pop ao frevo, trazendo guitarra, baixo elétrico, faria o frevo se "desprovincializar", facilitaria o frevo ser escutado por pessoas fora de Pernambuco. Isso que ele achava. Isso tudo gerou muita resistência aqui. Por isso, eu acho que acabou que a música carnavalesca dele não ficou tão conhecida aqui. A parte mais conhecida da obra de Carlos Fernando são as parcerias dele com Geraldo Azevedo.



Trazer tua relação com o frevo para o acadêmico, é de certa forma resgatar personagens que normalmente não tem sua importância valorizada?


Eu acho que trazer pro acadêmico permite que a gente conheça melhor, permite que a gente reflita sobre o legado dele, sobre a obra dele, mas não é o suficiente para torná-lo conhecido. Para que ele se torne conhecido é preciso que esse legado dele seja divulgado. A academia vai lá e pesquisa, descreve, dimensiona a importância da obra, mas é preciso dar um passo adiante, é preciso que essa obra se torne conhecida. É preciso que a mídia apoie, que os jornalistas produzam matérias, reportagens. É preciso que as escolas encampem isso, falem sobre esses personagens que são importantes pra cidade, para que as pessoas desde cedo tenham a dimensão da importância deles.


É muito triste o que acontece com o acervo de Álvaro Lins, por exemplo, em Caruaru. Um acervo valiosíssimo que se estivesse em uma situação bem cuidada, bem acomodado; se estivesse, por exemplo, aberto à visitação pública, ou de pesquisadores, ou de turistas, você teria um foco de turismo cultural, de turismo literário; pessoas que viriam a Caruaru só pra conhecer a coleção de Álvaro Lins.

Carlos Fernando era um cara que fazia música popular moderníssima, a poesia dele é super arrojada, os arranjos, tudo. Ele é um artista pop. E você ter esse acervo, esse patrimônio e a cidade não valorizar isso é até meio burro, acho meio maluco.

No caso de Carlos Fernando a mesma coisa. Se tem todo um repertório, todo um cancioneiro moderno falando sobre Caruaru. Isso também porque a população não se interessa. Se a população pressionasse e valorizasse, os políticos acabariam valorizando também por tabela. Acho que é um problema geral no Brasil como um todo.


Desse lado acadêmico, a gente parte pro teu lado de músico. Em 2019, você interpretou a faixa Senhor da Cartola do disco Um Frevo Impossível de Fernando Duarte . Como foi essa experiência?


Isso. Eu interpretei essa música de Fernando Duarte, com ele. Inclusive, essa foi a primeira vez dele como compositor. Ele, que é artista plástico, me falou que desde os anos 90 fazia e gravava músicas em fitas cassetes e deixava esse material guardado. Então, em 2019, ele resolveu transformar essas canções em um álbum. Era um material bem volumoso, então ele selecionou alguns e fez esse álbum com 15 faixas. E aí ele chamou vários intérpretes. Cada faixa é um diferente. A gente não conhecia pessoalmente. Ele sabia de mim porque ele frequentava o Bloco da Saudade e porque ele foi um fã de primeira viagem da banda Quero Ver Quem Vai. Já no primeiro ano da banda, ele já estava lá. Ele é um cara super simples, acessível e muito talentoso. Eu acho que as músicas dele são incríveis. Esse álbum pra mim é todo bom.


A música que você gravou com ele lembra um pouco as canções de Carlos Fernando, existe alguma relação?


Ele [Fernando Duarte] é muito fã de Carlos. Fã incondicional. Então isso influencia a música que ele faz.


Como foi concretizar essa tua experiência com a música, ver uma interpretação tua em um disco?


[A faixa Senhor da Cartola] foi a minha primeira gravação em estúdio. Eu já canto há um tempo. 20 anos na verdade, mas de gravação em estúdio, essa foi a primeira vez. Eu devia ter feito isso há muito tempo, mas eu ficava protelando esse meu lado artista, deixando em segundo plano. Eu achava que tinha coisas mais importantes para fazer. Mas chegou um momento da vida, e eu acho que a Eu Quero Ver Quem Vai tem uma participação nisso, de assumir um lugar. Não só eu, mas as pessoas que tocam também.


A Eu Quero Ver Quem Vai é uma banda de 10 pessoas e todos são amigos. É o pessoal que fazia farra no bar. A partir de 2015 a gente deu uma guinada quando criou de fato a banda para tocar frevos elétricos. E passou a tratar isso de maneira mais profissional, com ensaios, reuniões, definição de repertório, pesquisas.


E isso também despertou um lado meu que é compositor e que estava enterrado, latente. Eu já tinha composto algumas coisas lá atrás. No início dos anos 2000 já tinha gravado um disco com marchas de la ursa, com esses meus amigos. Mas fiquei um tempo sem me envolver com isso seriamente. Foi a partir de 2015 que passei a levar mais a sério e a entender que isso podia ser uma carreira minha, que é paralelo à carreira acadêmica, mas que é uma coisa que pode alimentar a outra. A minha carreira artística pode alimentar a minha carreira acadêmica e vice-versa.


Você está planejando alguma coisa, algum futuro projeto?


A gente lançou o clipe da música Fogo Branco, trabalho da Joana Francesa e está em fase de produção Dissonância, outro single da Joana Francesa, com produção de Pedro Costa, produtor de Fogo Branco. Além disso, o segundo volume de Frevos Impossíveis, está em fase de execução e Eu Quero Ver Quem Vai, interpretará uma faixa.


Entrevista realizada por Hanna Aragão e Márcio Correia

para o Especial de Carnaval.











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