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Entre hennings e casquetes: como o medieval moldou a moda atual

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    Revista Spia
  • há 21 horas
  • 5 min de leitura

Por Rafaela da Hora

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Trecho do filme “Coração de Cavaleiro” (2001). Foto: Reprodução/Internet
Trecho do filme “Coração de Cavaleiro” (2001). Foto: Reprodução/Internet

Ouvi-me, estimados leitores! A boa nova que vos trago é urgente! Voltamos à Idade Média! E não em termos de comportamentos, mas em termos fashion! Seja de forma direta ou indireta, o medieval ainda está presente em nossas vidas. Tal fenômeno pode ser chamado de medieval revival, e é denominado como um movimento cultural e estético que resgata o imaginário da Idade Média.

Essa estética, assim como tantas outras, não surgiu do nada. Ela veio reinterpretada como uma válvula de escape do presente, preservando, assim, uma idealização do passado. O imaginário que temos do medievalismo, que é a devoção a elementos do período da Idade Média, é modificado com base nos fragmentos de nossa memória, assim como a moda faz ao replicar certas eras. Em alguns casos, o que é considerado e comercializado como medieval pode ser confundido com o estilo renascentista.



À esquerda, uma fantasia de um traje medieval, e à direita, um traje renascentista. Foto: Reprodução/Internet
À esquerda, uma fantasia de um traje medieval, e à direita, um traje renascentista. Foto: Reprodução/Internet

Os primeiros sinais desse renascimento surgiram no século XIX, durante o período da Era Vitoriana. Nessa época, a Revolução Industrial já estava em sua segunda fase, e nisso, um passado campestre começava a desaparecer, dando espaço a um futuro mecânico que fascinava e ao mesmo tempo preocupava os vitorianos. Assim, apesar de grande parte da sociedade vitoriana considerar o período atrasado e o intitular como a Idade das Trevas, eles recorriam a uma sensação de nostalgia, querendo reinterpretar a época medieval.

Vale ressaltar que a Grã-Bretanha estava numa fase de colonização em massa. Para se mostrarem superiores e evoluídos, eles se apropriaram da estética medieval, criando um paradoxo romântico e fantasioso, inspirados pelos contos de fada. Os vitorianos criaram o movimento dos pré-rafaelitas nas artes plásticas e essas obras criavam um cenário ambientado por belas donzelas e seus cavaleiros, além do uso de cores vibrantes.


“La Belle Dame sans Merci”, de John William Waterhouse (1983). Foto: Reprodução/Internet
La Belle Dame sans Merci”, de John William Waterhouse (1983). Foto: Reprodução/Internet

Mas isso não ficou ilustrado apenas no campo artístico: na indústria têxtil e no design de interiores houve um movimento intitulado de Arts & Crafts, que trazia um ideal de retorno ao processo manual e criticava a indústria massificada. Eles usavam texturas naturais, como a flora e elementos de fantasia inspirados na época em que os objetos eram feitos de ponta a ponta pelo mesmo artesão. Em um aspecto social, os contos do Rei Arthur também foram remodelados, fazendo com que o personagem se tornasse um exemplo de herói cristão perfeito, promovendo valores como a moralidade, a lealdade e a grandeza do Império Britânico.

A estética também foi adaptada ao vestuário e cotidiano vitoriano, especialmente em bailes de máscara e eventos sociais. Elementos como os botões frontais em vestidos, bainhas cortadas em formatos de losango e capas com mangas longas referenciando o houppelande conseguiram consolidar um visual que é reaproveitado até os dias atuais.


À esquerda, ilustração de “Grandes Crônicas de França”, 1455. À direita, um Mourning Dress da Rainha Vitória, 1894. O detalhe proeminente são os botões frontais em ambos vestidos. Foto: Reprodução/Internet
À esquerda, ilustração de “Grandes Crônicas de França”, 1455. À direita, um Mourning Dress da Rainha Vitória, 1894. O detalhe proeminente são os botões frontais em ambos vestidos. Foto: Reprodução/Internet

No século seguinte, especificamente em 1960 e 1970, a ascensão do rock'n'roll e os movimentos de contracultura, como os hippies, criavam um cenário de rebeldia, onde os jovens eram culpabilizados pelos problemas da sociedade. A subcultura Mod, derivada de Modernista, rompia com o conservadorismo da geração anterior e possuía inspiração em ícones como a Twiggy, supermodelo britânica conhecida por revolucionar os padrões de beleza da época. Quando a subcultura passou a se popularizar, alguns elementos foram preservados para o estilo psicodélico.

O termo era dado às drogas que alteravam a percepção e cognição, a exemplo da LSD e a psilocibina. O uso de substâncias era algo recorrente entre os músicos da época, e, consequentemente, influenciaram diretamente a estética da década. Como já disse Ringo Starr, integrante dos Beatles: "Acho que o LSD muda todo mundo. Com certeza faz você enxergar as coisas de forma diferente. Faz você olhar para si mesmo, para seus sentimentos e emoções. E me aproximou da natureza, de certa forma — da força da natureza e de sua beleza. Você percebe que não é só uma árvore; é um ser vivo. Minha perspectiva certamente mudou — e você se veste de forma diferente também!". Esse espiritualismo romântico aproximava-se dos ideais medievais.

O folk, gênero musical que se popularizou na década de 1960, contava com uma estética naturalista e mística, com instrumentos que misturavam as cantigas medievais com o som moderno. Artistas como Donovan, Sunforest, e The Fool se denominavam como trovadores, e personificavam essa psicodelia com a visão sessentista do que foi a era medieval. Eles traziam figurinos de palco e ensaios fotográficos que saíam diretamente de contos fantasiosos, desafiando a percepção vitoriana do período e mostrando um lado mais esperançoso e ensolarado.



À esquerda, o artista Donovan e à direita, o grupo The Fool. Foto: Reprodução/Internet
À esquerda, o artista Donovan e à direita, o grupo The Fool. Foto: Reprodução/Internet

Nos anos 1990 para a virada dos anos 2000, o estilo medieval ganhava força com uma estética sombria, fazendo referência ao gótico e às bruxas. Filmes como Jovens Bruxas, Da Magia a Sedução, Abracadabra e séries como Buffy, a Caça-Vampiros trazem releituras das figuras mitológicas, unindo a modernidade e elementos medievais, através de acessórios e peças de roupa. Além disso, artistas como Fleetwood Mac e Kate Bush também foram influências nessa estética.


Trecho do filme “Jovens Bruxas” (1994). Foto: Reprodução/Internet
Trecho do filme “Jovens Bruxas” (1994). Foto: Reprodução/Internet

Durante a pandemia, essa estética foi impulsionada graças ao aplicativo TikTok, quando os usuários da plataforma batizaram o movimento como "whimsical goth". Roupas com aspecto vintage, como se tivessem saído de contos de fada, reinventaram a aura boêmia e a figura das bruxas, transformando a persona de uma mulher antiquada e gargalhada assustadora em uma mulher dotada de sedução e jovialidade.


Nicole Kidman como Gillian Owens em “Da Magia à Sedução”, 1998. Foto: Reprodução/Internet
Nicole Kidman como Gillian Owens em “Da Magia à Sedução”, 1998. Foto: Reprodução/Internet

Entre longas passagens de tempo, o que levamos em consideração é que o medieval sempre esteve presente em nossas vidas. Esse revivalismo não quer dizer que devemos ignorar o presente, pelo contrário, ele só quer demonstrar uma representação do passado pela ótica atual. Não é possível retornarmos a outros tempos completamente.

Como já citado no início, esse apelo ao passado é um sintoma de desilusão com o futuro. Ao invés de imaginarmos o amanhã, nossa geração recorre a estéticas fantasiosas, que funcionam quase como uma declaração de amor à criatividade humana, preservando a memória dos antepassados. É uma oportunidade de conexão para reconhecermos como a época moldou o presente. A moda nos ajuda com isso. Parafraseando a influencer Kaz Rowe: “roupas antigas sobrevivem pelo mesmo motivo que muitas outras não sobrevivem: porque foram amadas.”


SAIBA MAIS

Neste vídeo, a youtuber Aline Pascholati explica um pouco do que foi o Arts & Crafts: para acessá-lo, clique aqui!

A música "Strawberry Fields Forever", dos Beatles demonstra um visual fantasioso, fazendo referência a psicodelia dos anos 60.

CURIOSIDADES

No Brasil, o psicodélico tomou forma graças ao movimento da psicodelia nordestina. Nomes como Ave Sangria e Zé Ramalho criavam uma nova sonoridade com a mistura do rock e ritmos ancestrais, como o coco.

O medieval revival também esteve presente em desenhos animados, principalmente em Shrek.


 
 
 

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