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40 anos de uma história que se repete

Atualizado: 23 de dez. de 2021

A Spia conversou com Luiz Lourenço e Pedro Aarão sobre o filme e o atual cenário em que a arte se encontra.


Há 40 anos, começava a ser filmado em super 8 o filme "A Peleja do Bumba meu boi contra o vampiro do meio dia" de Luiz Lourenço e Pedro Aarão. Um processo demorado, que só foi finalizado cinco anos depois, mas que valeu muito a pena. O filme fala sobre a peleja que artesãos e artistas caruaruenses enfrentam diante da desvalorização do trabalho e da cultura em Caruaru, Agreste de Pernambuco, e é tão elogiada mundo afora.


Hoje, 40 anos depois, as dificuldades que esses trabalhadores enfrentam ainda são as mesmas, na verdade, talvez estejam maiores. Para homenagear esse filme que diz tanto sobre o presente, a Spia entrevistou os dois realizadores do filme que falaram sobre como foi o processo de produção, o contexto atual e as adversidades para quem faz arte e cinema de modo geral.


A pandemia nos confinou em casa e mudou o rumo de muitas coisas. Como está sendo esse período para vocês?


Luiz Lourenço (LL): Está sendo muito difícil. Principalmente para quem mora só, como eu. E também para quem como nós que pertencemos ao grupo de risco. Sinto falta do trabalho presencial, estou tentando me adaptar ao trabalho remoto, o que nem sempre é fácil e adaptável. Por outro lado, tenho tido mais tempo para ler coisas que nos tempos ditos normais não pararia para fazê-lo. Agora tem o lado ruim que são as perdas, as ausências, faz um ano e meio que não vejo minha família que mora em Caruaru. Não pude ir ao enterro de minha mãe pelo nível de contágio que estava na Região Agreste, um ano atrás.


Pedro Aarão (PA): A pandemia está sendo muito ruim. O isolamento, o stress, ficar em casa sem poder sair nem receber visitas. Mas de uns anos pra cá, venho melhor dividindo o meu tempo, priorizando o meu bem-estar. Cuidando do meu corpo, da minha mente. Procurando acompanhar as programações dos teatros, do cinema e principalmente a literatura que foi fundamental para encarar esta pandemia.

Luiz Lourenço e Pedro Aarão ao centro - Foto por Germano Coelho Filho.

Quando foi que o cinema entrou na vida de vocês? E em que momento vocês começaram a fazer cinema?


LL: Meus pais eram cinéfilos, mas foi meu irmão Jadilson quem me levou pela primeira vez para o Cine Santa Rosa que ficava pertinho da minha casa. O filme era um desenho animado tipo Walt Disney. Eu era muito pequeno e aquela experiência tomou conta de mim e comecei a reagir às situações do filme, mas fazia muito barulho e meu irmão contou que isso estava incomodando a plateia. Um de meus irmãos, o Jonas, comprou um projetor de cinema, quebrado e que veio acompanhado de um único filme. Ele é muito habilidoso e fabricou uma peça de madeira que faltava para o projetor funcionar. Ver esse filme dentro de casa foi uma das coisas mais marcantes da infância. Minha iniciação em fazer cinema se deu com o curso de manusear câmeras de Super-8, ministrado por um Padre Marista na FAFICA em 1975. Depois de um dia teórico do curso, saímos num domingo para fazer imagens no Monte do Bom Jesus. As imagens que eu havia feito nessa primeira vez, chamou a atenção de Ivan Brandão que passou a me convidar para fazer documentações de eventos culturais e religiosos para o CEPED que era o Centro de Pesquisas e Documentação. Foi minha entrada nesse universo do fazer cinematográfico.


PA: O cinema em Caruaru tinha uma programação dinâmica. Eram 3 salas de projeção: o Cine Caruaru, o Cine Santa Rosa e o Irmãos Maciel, funcionavam diariamente, com as mudanças de programação na sexta. Sempre que podia estava no cinema. Quando criança assistia Bang-Bang. Quando eu tive a oportunidade de assistir às mostras de Super-8 no Recife, me despertou o interesse em produzir.


Já se passaram 40 anos do início da aventura que foi realizar ‘A Peleja do bumba-meu-boi contra o vampiro do meio-dia’. Tanto tempo depois, o que significa ter feito este filme?


LL: Fazer A Peleja foi a coisa mais importante da minha vida. Foi o maior desafio fazer um filme nas condições que fizemos. Um dia estávamos na rodoviária de Caruaru indo para Recife quando surgiu a ideia de fazer o filme. Lembro que eu tinha alguns cartuchos de Super-8 com o prazo de validade vencido. Não tínhamos câmera, mas consegui emprestado três câmeras para fazer o filme. Era uma ideia na cabeça, um roteiro e uma câmera na mão. Muito influenciados pelos filmes de Glauber Rocha principalmente. E hoje, tanto tempo depois, saber que ele continua sensibilizando as pessoas, é muito gratificante.


PA: Hoje quando participo de uma projeção da Peleja vejo que valeu a pena, todo o trabalho, porque o tema levanta questionamentos até hoje, mostrando a atividade do filme. A Peleja do bumba-meu-boi, está no imaginário dos artistas de Caruaru, uma das últimas apresentações da Peleja no Alto do Moura deu problema com o equipamento de projeção, mesmo assim, houve um debate muito significativo sobre a realidade do Alto do Moura. A Peleja foi um marco na mobilização de todos os segmentos da cultura de Caruaru, mostrando que a organização política poderá com empenho, determinação, alcançar melhores dias para a Arte, mostrando o cinema como objeto de transformação da sociedade.


Vocês acham que o filme dialoga com o que estamos vivendo atualmente? Com o desmonte e a desvalorização da cultura. E sobre Caruaru, como vocês veem a cultura da cidade nos dias de hoje?


LL: Infelizmente, sim. Digo isso porque gostaríamos que fosse diferente, que isso fosse apenas um passado distante onde a gente revisitasse através do filme. Estamos vivendo uma crise de poder, principalmente pela falta de caráter humanitário. Vivendo um desgoverno sem precedentes na história com um ditador/genocida que utilizou de mentiras para conquistar um eleitorado bombardeado através de mídias sociais e uma mídia convencional que contou meias verdades e é responsável pelo descrédito da população com a política. A cultura da cidade [Caruaru] não mudou muito. São grupos políticos que se revezam a anos no poder com visões parecidas e hegemônicas da cultura local. Houve um crescimento enorme do São João da cidade e só. Não vejo artistas como Galdino com um acervo público significativo que difunda a sua genialidade.


De onde surgiu a referência para o personagem do vampiro? O que este personagem representa simbolicamente?


LL: A referência do vampiro é própria do cinema mundial em filmes do Expressionismo Alemão como “Nosferatu” (1922) de F.W Murnau, Dança dos Vampiros (1967) de Roman Polanski e “Nosferatu, o vampiro da noite” (1979) de Werner Herzog. Trouxemos a referência para a realidade local e transmutamos para um personagem que suga as suas vítimas em plena luz do dia, em diversas situações cotidianas com a cena do velhinho na fila do Funrural na frente do banco, que era uma fila real onde introduzimos os personagens. Representa também o capitalismo selvagem dos Impérios-Nações que vivem da riqueza espoliada de países do Terceiro Mundo. É chocante para mim ver as cenas de travessia que presenciamos quase cotidianamente de tentativas de migração de pessoas de países arrasados pelas guerras, fome, intempéries da, etc. E maior ainda a postura desumana desses impérios responsáveis pela apropriação de riquezas e fomentador de genocídios por todo o planeta. A construção de muros e barreiras migratórias é só a “ponta do iceberg” da globalização da miséria humana.

Boi Tira-Teira - Foto por Germano Coelho Filho.

Por muito tempo, quando se falava de um cinema feito em Pernambuco, era na verdade um cinema feito no Recife. Para muitos é uma surpresa a existência de uma obra como A Peleja. Qual foi a maior dificuldade de se fazer um filme no agreste pernambucano?


LL: Talvez a maior dificuldade seja, ou era, a falta de compreensão do que podemos fazer. A questão do colonialismo cultural a que nos referimos no filme, quando usamos imagens de heróis americanos nos quadrinhos, é a de se reconhecer dentro desse caldeirão multi-étnico em que estamos mergulhados. O cinema brasileiro passou muito tempo com o complexo vira-lata, pois sofremos com um domínio econômico-cultural que ditava qual eram as condicionantes para ter um filme “de verdade”. O filme nacional foi por muitos anos confundido com “mal-feito”, “escrachado” e tecnicamente ruim. Com o avanço e desenvolvimento de várias tecnologias quebrou-se vários tabus que impediam que mais pessoas tivessem acesso a um aparato técnico e estético alternativo ao modelo hollywoodiano de fazer cinema que exige milhares de dólares na produção, divulgação/distribuição e no fomento de um star system cada vez mais restrito e excludente racialmente.


Qual conselho vocês dariam aos jovens de Caruaru que querem fazer cinema?


LL: Pra começar eu diria que não há modelo a ser seguido. A gente primeiro se reconhece como indivíduo dentro de um espaço/tempo inserido numa cultura híbrida, e procura buscar referências de originalidade que é o que conta. Sou absolutamente contra os modelos de sucesso. A gente sempre foi muito influenciado pela linguagem do cinema americano. Precisamos observar que existem várias cinematografias no mundo, do presente e do passado que podem nos auxiliar nas escolhas narrativas. Há certamente, junto com o acesso à procura de imagens/sons uma grande banalização do discurso audiovisual, na qual não podemos cair. Para mim é tão importante referências como o filme “Limite” de Mário Peixoto (anos 1930), como “Terra em Transe” (1967) de Glauber Rocha e “Cabra marcado para morrer” (anos 80) de Eduardo Coutinho.


PA: Hoje a produção tem leis de incentivo que de algum modo facilita a produção. Mas o problema é mesmo a falta de mercado para escoamento da produção. Mas quem pretende produzir tem que encarar esta realidade.

Mestre Otilio - Foto por Germano Coelho Filho.

Vocês estão trabalhando em algum projeto no momento? Quais são os planos para o presente e futuro?


LL: O último projeto de filme que fizemos foi um que inicialmente ia ser uma curta de meia-hora financiado pelo Funcultura e que acabou virando um longa-metragem e minissérie de 5 episódios chamado “O Reinado de Lampião no raso da Catarina", documentário sobre a trajetória do rei do cangaço com foco nos dez anos que ele viveu na Bahia. Devido ao escasso orçamento levamos seis anos para concluir e tivemos dificuldade para difundi-lo. A minissérie exibida na TV universitária sofreu com a pouca divulgação, precisando de um contexto mais favorável para sua difusão. A pesquisa do filme é de Pedro Aarão, dividimos a autoria do roteiro e eu fiz a direção.


Por fim, gostariamos que cada um de vocês definisse A Peleja em uma palavra.


Luiz Lourenço: Resistência.

Pedro Aarão: Luta


Entrevista por Hanna Aragão e Maria Clara Mendes.

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