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Padim Ciço e a trajetória do Cabocolino

Relato por João Marcelo, diretor e roteirista do filme Cabocolino (2021).


Que bom, poder recordar os dias de nossas gravações. Só sei que foi assim...Numa tarde ensolarada, o calendário marcava o dia 05 de fevereiro de 2021, quando iniciamos as filmagens. Deslocamo-nos até o Sítio Campo do Borba em João Alfredo, onde foram colhidas as imagens das cenas iniciais do documentário segundo o plano de filmagens elaborado.

Como mostra na Fotografia 1, o personagem vestido dos trajes de caboclinhos, caminha solitário no campo e vai de encontro a árvore de Tambor (Enterolobium maximum Ducke, nome científico). No intuito de colher as sementes para preparação e plantio na cidade de Juazeiro do Norte. Prosseguimos e registramos as cenas do entardecer no campo e depois filmamos o personagem chegando à noite em sua residência, seu convívio com a esposa e interação com os animais de estimação. Por fim, registramos a cena do personagem dormindo.

Fotografia 1 - Gravação cenas abertura Cabocolino. Fonte: Acervo Autor (2021).

No sábado, 06 de fevereiro, logo cedo, fomos à residência do personagem, registramos a entrevista com ele na sala de sua humilde residência e dois fatos destacamos, os quais passamos a narrar. De repente, centenas de cigarras e outros insetos começaram a emitir os seus zunidos característicos, o que provocou interferência no som captado na fala do entrevistado, ocorrendo a paralisação de nossas atividades.

Segundo Sr João, não era comum o canto dos insetos naquele horário do dia. Sanado o problema, retornamos à entrevista e, de repente, Alexandre Taquary na função de técnico de som, interrompia as gravações alegando que estava escutando nos autofalantes auriculares do equipamento um forte som de batidas de coração. Fato constatado por Marlom, que de imediato pensou ser provocado pelo microfone de lapela. Mesmo desligando o equipamento, o misterioso som persistia, quando Sr. João de Cordeira, tranquilamente pontuou: “O caboclo que me acompanha está aqui conosco, não precisa se preocupar”.

Após essa fala, o som imediatamente sumiu, ficamos intrigados com o ocorrido e ficou a expectativa para, no final do dia das gravações, checar se as batidas de coração escutadas foram captadas no material sonoro da entrevista, fato este não ocorrido.

No período vespertino, fomos a um monte próximo à residência do Sr. João, conhecido como a Serra da Ventania e registramos reflexões do mesmo sobre a essência do bloco, o lado místico e suas expectativas sobre o futuro da dança dos caboclinhos, evidenciado na Fotografia 2. As filmagens se encerraram no momento do pôr-do-sol e nossa equipe aproveitou o momento do jantar para checar todas as ações do dia seguinte, pois envolveria uma logística maior e um grande número de figurantes.

Fotografia 2 - Serra da Ventania – João Alfredo PE. Fonte: Acervo do Autor (2021).

Nossa maior preocupação eram os cuidados com as medidas preventivas contra a Covid-19 e, também o fato de que, além do personagem principal, havia muitos outros idosos que ainda são brincantes, os quais foram especialmente convidados por João de Cordeira para participarem como dançarinos nas filmagens. Para o entrevistado, era a forma de retribuir a parceria de longos anos em acompanhar o bloco.


Após buscar cada um dos integrantes do bloco de caboclinhos em suas residências com a ajuda do motorista “Rosinha do Amor”, toyoteiro, fomos ao Memorial dos Severinos, no Parque dos Mamulengos Gigantes em Surubim, onde realizamos as filmagens de apresentação das danças e performance dos integrantes, juntamente com a Banda de Pífano de Surubim do mestre Sr. Sebastião. Gravamos, dirigimos os posicionamentos e movimentos dos grupos, para as cenas e finalizamos os trabalhos após checagem de todo material filmado. Todos os integrantes foram transportados de volta até suas residências, muitas delas situadas em diversas localidades da zona rural de João Alfredo e, no final da tarde, retornamos ao Memorial para realizar outras filmagens, desta vez, apenas com Sr. João de Cordeira.

Fonte: Fotografia de Devyd Santos (2021).

No final do dia, comemoramos o sucesso dos trabalhos, pois o nosso maior desafio era o cuidado com a integridade física das pessoas, filmar com o maior número de integrantes previstos no roteiro e nosso planejamento envolvia deslocamentos entre cidades, alimentação para mais de 30 pessoas e, principalmente, seguir as normas de prevenção contra a pandemia. Todas as ações transcorreram conforme o planejado.

Na segunda-feira, 08 de fevereiro, registramos o percurso do personagem até a cidade do Juazeiro do Norte no Ceará. Cedinho, gravamos imagens da despedida de Sr. João com sua esposa, a saída da cidade de João Alfredo, a parada no terminal rodoviário de Caruaru, cenas na estrada em Cruzeiro do Nordeste, no município de Sertânia e nas proximidades de Serra Talhada. Chegamos às 21h na cidade do Juazeiro do Norte - CE.


A varanda do quarto proporcionava uma vista defronte ao monte onde se localiza a estátua de Padre Cícero. Movido pela ansiedade e emoção, acordei cedinho e quando me dirijo à varanda para apreciar o surgimento do sol, antevejo, no horizonte, a aproximação de negras nuvens. Tudo começou a ficar nublado e, de repente, muita chuva, uma enxurrada.

Nosso dilema era filmar ou não naquele dia, nossa agenda apertadíssima, pois a fotografia estava sob a responsabilidade de Marlom, que, antecipadamente, por conta de outros compromissos já havia alertado que somente poderia realizar as filmagens do dia 05 a 09 de fevereiro e, no dia 10, teríamos que retornar.


A programação de gravação envolvia várias cenas externas, a previsão era de fortes chuvas durante todo o dia. Daí resolvemos alterar a ordem das filmagens. No trajeto, discutimos sobre a otimização das filmagens naquelas condições. Providenciamos a aquisição de guarda-chuvas e capas. Antes, no quarto do hotel, acondicionamos todas as toalhas possíveis em nossa bagagem de equipamentos e, por sorte ou milagre do “Padim Ciço” e dos protetores espirituais, a chuva resolveu cair de uma vez.


No Horto, havia a determinação de Sr. João de Cordeira de plantar as sementes trazidas de João Alfredo somente após autorização do padre local. Pedimos a autorização de dois padres, mas acabaram direcionando nossa equipe e o Sr. João à Irmã Sônia, religiosa responsável pelo local. A Irmã foi muito receptiva, autorizou a plantação das sementes do Tambor, e nos levou a um local reservado onde, segundo a Irmã, havia sido um jardim e horta do Padre Cícero no passado. Mesmo sem estar no roteiro, conversamos com a Irmã para que participasse do documentário, já que por conta da imensa carga emotiva verificada, acabou se tornando peça importante no projeto, principalmente para o personagem em realizar a homenagem ao seu avô, cujos restos mortais repousa sobre aquele solo.

Cena da plantação das sementes em Juazeiro do Norte (CE). Fonte: Acervo do Autor (2021).

De instante e instante, dirigia meus olhos para o céu, agradecendo a colaboração dos Santos em segurar a chuva nas nuvens. Após esse momento, Sr. João também pediu autorização à Irmã Sônia para se trajar com suas vestes do bloco de caboclinhos e realizar outra homenagem: apresentar-se com suas danças e passos sob os pés da estátua do Padre Cícero. De imediato, comecei a reproduzir no celular o som da banda a partir das gravações realizadas no Memorial dos Severinos e, antes de convidar o Sr. João a iniciar suas homenagens, ele começou a dançar feliz sob os pés da estátua do Padre Cícero. Naquele momento, consolidava a homenagem ao falecido avô.


Na quarta-feira, 10 de fevereiro, o céu estava ensolarado. Sugeri a Marlom que, de forma rápida, retornássemos ao Horto e registrasse novamente algumas cenas, para posterior análise no momento da montagem. Feito os registros, finalizamos as gravações, a partir daí iniciamos nosso retorno para Pernambuco.


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