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  • Foto do escritorHanna Aragão

O documentário de Marcelo Pedroso e a convergência entre cinema e jornalismo

Cineasta fala sobre a trajetória e influência de sua formação acadêmica nas produções audiovisuais.

Marcelo Pedroso - Foto: Ivo Lopes Araújo

Marcelo Pedroso é diretor e documentarista, formado em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco. Combinando o olhar atento e crítico com as possibilidades documentais, Marcelo deu vida a vários curtas, entre eles Aeroporto (2010) e Em trânsito (2013), além de longas como Pacific (2009), Brasil S/A (2014) e KFZ - 1348 (2009), sendo este último seu primeiro longa, com roteiro e direção em parceria com o cineasta Gabriel Mascaro.


Ainda durante a faculdade, o diretor e mais alguns amigos deram início a um coletivo de cinema que mais tarde se tornaria a produtora Símio Filmes. Em 2008, a Símio foi oficialmente formalizada integrando apenas Daniel Bandeira, Marcelo Pedroso, Gabriel Mascaro e Juliano Dornelles. Marcelo conversou com a Spia e falou sobre como começou a fazer documentários, como sua formação em jornalismo influencia nas suas produções e qual sua relação com a idas e vindas da vida.


Como foi que você entrou no mundo do documentário?


Eu me formei em jornalismo pela Universidade Federal de Pernambuco, e tive contato com o cinema na universidade. Eu fui estudar jornalismo porque eu gostava de escrever e não tinha nenhuma vontade ou vocação para trabalhar com imagens, mas aí na faculdade eu entrei em contato com vários colegas que eram vocacionados e tinha interesse de trabalhar com cinema e eles já filmavam.


Foi a partir daí que eu comecei a me aventurar por esse meio e eu acho que teve uma convergência entre o jornalismo e o cinema que resultou na prática do documentário, não que o documentário seja tributário do jornalismo, são correntes que tem muitas diferenças, mas o fato de ter o interesse pelo o que a gente chama de real, pelo mundo histórico que vinha do jornalismo, de abordar questões do mundo, fatos e acontecimentos, tudo isso convergiu e resultou nessa aproximação com o documentário.

Politicamente, eu me via muitas vezes desalinhado das prerrogativas do jornal e acho que foi um pouco em função disso que eu fui encontrando esse vetor de fuga e passei a trabalhar com o documentário como modo de aproximação com a realidade.

Boa parte dos cineastas pernambucanos fizeram jornalismo e dentro do curso se envolveram com cinema e não atuaram mais nesta área, contigo foi quase a mesma coisa, mas você chegou a atuar como jornalista.


Eu trabalhei 4 anos na redação do Jornal do Commércio. Na verdade, quando eu estava na faculdade eu era estagiário do jornal e depois que me formei passei uns 3 anos como contratado mesmo. E foi uma experiência muito boa, eu adorava! Trabalhei no Caderno de Cidades e era um caderno muito difícil, porque você tem um contato muito epidérmico com a realidade, com uma realidade muitas vezes brutal, de violência, de injustiças... Estar perto disso e tentar através da sua capacidade de reportar aquilo, tentar modificar e transformar de alguma forma, fazia com que eu me encontrasse nesse ofício, ao mesmo tempo eu também tinha muita dificuldade.

Brasil S/A foi lançado em 2014 - Foto: internet

Enquanto jornalista, você está sujeito a uma corporação e isso traz uma série de regras e limites para a sua atuação. Muitas vezes você está querendo ir de encontro aos interesses do jornal, da empresa e se vê muito cerceado. Então, politicamente, eu me via muitas vezes desalinhado das prerrogativas do jornal e acho que foi um pouco em função disso que eu fui encontrando esse vetor de fuga e passei a trabalhar com o documentário como modo de aproximação com a realidade.


São paradigmas muito distintos do ponto de vista ético e político. Existe sim uma convergência em algum lugar, talvez essa aproximação com o mundo histórico, mas ainda são coisas muito diferentes. A liberdade e a possibilidade de ter autonomia do ponto de vista político e estético que o documentário ofereceu foi o que respondeu justamente às limitações que eu encontrava no jornal.



Eu tenho uma professora que diz que não existe jornalismo imparcial, e como estamos falando de jornalismo e eu enxergo o documentário como sendo e não sendo uma vertente do jornalismo, eu queria saber de você se o documentário é imparcial?


Eu acho que o campo do documentário é muito plural, existem práticas documentais que são muito impregnadas no ideário jornalístico, inclusive no ideário da imparcialidade jornalística, algo que não acredito, mas que é defendido por muitas vertentes, empresas e pessoas. Eu, particularmente não acredito, como também não acredito na possibilidade do documentário ser imparcial, eu não acredito na imparcialidade de nenhum campo da atividade humana.


Essa suposta neutralidade é uma invenção de um determinado momento histórico que atendia a interesses políticos, sociais e científicos específicos, que a história tem mostrado que não procede. O que eu acho mais interessante do documentário é entender que ele tem um lado. O jornalismo também tem um lado, embora ele tenha que dissimular e camuflar sob essa áurea da imparcialidade, ele tem um lado, é o lado do capital, o lado do patrão, da empresa, mas ele nega isso. O documentário não, a gente assume que a gente tem um lado e esse lado pode ser um que a gente queira se alinhar.


Eu acho isso uma grande confusão, quando as pessoas cobram essa neutralidade. O barato é justamente o filme que se assume enquanto ponto de vista sobre a realidade, um recorte que direciona, seleciona, organiza e manipula todas essas ações que não necessariamente são dissimuladas no documentário. Pelo contrário, elas são colocadas às vezes dentro da própria cena, a gente quebra o pacto ilusionista no documentário, a gente admite a filmagem do próprio processo. O que me encanta no documentário é a parcialidade, é o tomar partido, é o ser histórico, é estar no mundo assumindo um posicionamento.

Aeroporto é um curta sobre partidas ou chegadas - Foto: internet

Muitas pessoas cobram isso, só os fatos, mas acredito que não exista uma verdade única.


Isso. Mesmo que você seja uma pessoa super desejosa da neutralidade, ela tem que entender que ela é um sujeito. Por exemplo, um filme feito por um homem branco e heterossexual, é um sujeito tido como “universal”, dentro do projeto colonial, e que muitas vezes tenta ocultar essa perspectiva. Eu, por exemplo, já cai nessa de achar que o lugar que ocupo não é perspectivado. Qualquer filme ou reportagem vai ser assumido a partir desse lugar específico ocupado por essa pessoa.


Essa pessoa vai sempre reportar essa dimensão a partir da sua própria existência, dos pontos cegos que incidem sobre ela e das possibilidades de leituras do mundo que serão determinadas pelas condições de existência dela. Tudo isso é filtrado por uma sensibilidade que é esculpida por condições históricas, esse filtro ai é inescapável, mesmo que ela queira negar, é ela que está no jogo.

Em geral, são lutas responsáveis por produzir, por tentar, por construir mundos mais igualitários e menos injustos. O audiovisual pode disseminar ideias, pode apresentar modos de vida, pode endossar pontos de vista, dar visibilidade a formas de existência, e todas essas operações podem ser lidas como instrumentos úteis à luta dos movimentos sociais.

Você é uma pessoa ligada a movimentos políticos, queria saber qual o papel do audiovisual dentro desses movimentos?


Eu acho que tem muitos papéis, um deles é de ser aliado e se colocar como instrumento para uma determinada luta. O audiovisual agencia diferentes regimes de visibilidade e de sensibilidade, então, ao construir representações ele constrói mundos. O imaginário que ele propõe e produz é parte do mundo em que a gente vive, então nesse sentido, o audiovisual pode se valer dessa capacidade de produzir mundos ou produzir imaginários para se aliar aos movimentos em suas diversas lutas.


Em geral, são lutas responsáveis por produzir, por tentar, por construir mundos mais igualitários e menos injustos. O audiovisual pode disseminar ideias, pode apresentar modos de vida, pode endossar pontos de vista, dar visibilidade a formas de existência, e todas essas operações podem ser lidas como instrumentos úteis à luta dos movimentos sociais. Você se engaja ali, enquanto um militante, que está empenhado em produzir esses materiais servindo uma causa.


Ao mesmo tempo, o audiovisual pode também problematizar os próprios movimentos, tensionar alguns consensos que existem dentro dos movimentos, porque os movimentos sociais não podem ser idealizados. Eu por exemplo, por mais que na minha atuação eu tente me construir como um aliado, enquanto alguém que endossa o projeto de sociedade que os movimentos estão construindo e estão defendendo, também tenho minhas críticas a várias coisas. Tem filmes que a gente faz pensando em desorganizar alguns consensos, levar uma auto reflexão para dentro dos movimentos, tensionar alguns pressupostos.



Você acredita que os documentários produzidos aqui em Pernambuco têm alguma especificidade?


Não sei, eu acho que no Brasil a gente fala muito o documentário mineiro, ou do pessoal do Ceará de uma galera que fez algo que trouxe uma identidade específica, uma diversidade grande de perspectiva. O Cinema Pernambucano em geral, diz respeito a um cinema de ficção, eu acho que o documentário feito aqui não tenha muito essa unidade, embora que o Cinema Pernambucano também não tenha muita essa unidade, pelo menos do meu ponto de vista.


Acho que a ideia de Cinema Pernambucano também é uma grande estratégia política e de marketing, que foi e tem sido eficaz, por exemplo, cobrar políticas públicas para o audiovisual. Essa grife do cinema pernambucano foi muito bem usada e muito bem aproveitada pra isso, mas ele realmente agrega uma diversidade tão grande de coisas, de pessoas, de forma de olhar, que também não dá pra reduzir a isso.


Você é integrante da Símio Filmes, como é o trabalho dentro de uma produtora?


A Símio foi criada oficialmente como um coletivo em 2002/2003 e queríamos fazer filmes de forma lúdica, descompromissada, era um desejo das pessoas de realizar aquilo. Para a maioria de nós, nessa época, não tinha nenhuma pretensão de levar a frente, pra mim mesmo isso estava bem longe do horizonte, era, realmente, uma curiosidade, uma coisa prazerosa.


Aos poucos, a gente foi levando mais a sério, e fomos nos conhecendo dentro daquela atividade. Além do prazer, percebemos um compromisso com aquilo, a gente se via ali como um espaço de expressão política no mundo e posteriormente no mundo profissional. Acho que a Símio se consolidou como produtora justamente na medida em que essas políticas públicas foram permitindo que a gente vislumbrasse a possibilidade de realizar nossos projetos e ideias que, até então, eram realizadas de forma completamente espontânea e financeiramente gerida sem incentivo externo.

Pacific foi feito a partir de imagens de registro dos tripulantes de um cruzeiro - Foto: internet

E era uma produtora, inicialmente com 10 homens, heterossexuais, a maioria brancos, isso diz muito sobre uma certa possibilidade de quem era autorizado a fazer cinema naquela época e ainda é hoje. Quando a gente formou a produtora dos 10 caras, só ficaram 4. As outras pessoas já tinham trilhado outros caminhos, um virou músico, outro diplomata, outro professor e aí os quatro que ficaram e formalizaram a Símio em 2008, foram: eu, Daniel Bandeira, Juliano Dornelles e Gabriel Mascaro. Em 2012/2013 Gabriel saiu da Símio e fundou uma produtora própria e ficamos só eu, Daniel e Juliano.


Hoje, a gente continua enquanto um grupo de amigos fazendo algumas coisas juntos, mas não temos a mesma organicidade que tínhamos no começo, de realizar os filmes juntos. Hoje, tem uma certa atomização das relações, eu tenho os meus projetos, Juliano tem os dele, Daniel tem os dele, a gente se encontra, troca uma ideias, eventualmente nós colaboramos com o projeto um do outro.


Mudando um pouco de assunto, dois filmes me chamaram a atenção que foram “Aeroporto” e “Pacific”. Eu achei que os dois dão a sensação de nostalgia, de saudade, idas e vindas...Qual é tua relação com as idas e vindas, principalmente neste período de distanciamento social?


É isso aí (risos)... É difícil! Eu tenho a sensação que esse distanciamento social e o fato de muitas relações estarem se dando hoje mediados por essas câmeras e dispositivos eletrônicos, na verdade, é um grande laboratório do que vai ser o mundo, do que está se tornando o mundo. A proximidade se dá pela agência desse meio eletrônico.

Para mim isso é muito assustador! Claro que tenho uma certa leitura positiva disso, mas também acho isso muito distópico. É realmente um paradigma de virtualização e não presentificação das relações que eu acho que vá ser muito difícil para a minha geração, talvez não para a sua. O que eu sinto, olhando um filme como Pacific, é que ele já estava olhando para isso. Acho que tudo isso é a consumação dessa sociedade do espetáculo, dessa sociedade mediada por imagens. Que é um projeto que está em curso, atualmente gerido por grandes corporações.


Quando assisti O Dilema das Redes (2020), o que ele faz é colocar em palavras o que a gente já sabe, mas é bem didático. O que eu fiquei pensando foi que, o grande atentado terrorista hoje, seria destruir essa matrix, o Vale do Silício, para libertar a humanidade desse modo de se relacionar. Ali é onde tudo nosso está armazenado, onde nossos desejos estão sendo fabricados, onde estamos aprendendo a ser gente, reproduzindo padrões desenvolvidos por essas indústrias.


Entrevista realizada por: Hanna Giovanna Aragão



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