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O amor vivo em versos: entrevista com Ana Júlia Pereira Carneiro, autora de Luiza.

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • 3 de ago.
  • 7 min de leitura

Por Fausto Paranhos

Trabalho aprovado por: Paula Donato e Marcelo Martins


Autora em foto para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods)
Autora em foto para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods)

Não sei se você já ouviu alguém falar que “quanto menor o muro, mais segura é a casa”, mas neste conceito, à primeira vista paradoxal, que sustento minha leitura de Luiza (2023, Editora Novos Ases), publicação inaugural da escritora e poetisa pernambucana, da cidade de Palmares, Ana Júlia Pereira Carneiro. O livro é uma coletânea de suas confissões e pensamentos íntimos, registrados em versos que traduzem seus sentimentos em relação a quem empresta o nome ao livro, sua falecida irmã.

Por meio de desabafos, apelos e fantasias, vemos em Luiza a sinceridade crua que as emoções causam na vivência cotidiana e como a autora lida com suas culpas e confortos ao viver o luto. É assim, despida de suas armaduras, e expondo o seu lado mais vulnerável que Ana Júlia encontra sua força e a expressa em seus versos que sintetizam, em poesia, o amor — nas suas mais diversas formas.


Com a palavra, Ana Júlia

Me chamo Ana Júlia Pereira Carneiro, tenho 21 anos, sou de Palmares, considerada a “Terra dos Poetas”. Sou estudante de psicologia e tenho uma loja online de cookies (@sunsetcookies__). Me encontrei no mundo da literatura, como escritora, em abril de 2023. Mês de aniversário da minha Luiza.


[FAUSTO]: Sua primeira publicação já é envolta em forças e vulnerabilidades, como você entendeu e concebeu a ideia de partilhar sentimentos tão íntimos quanto os relatados em Luiza?

[ANA JÚLIA]: “Quando eu vi, virou livro”, disse isso uma vez e repito até hoje. Eu nunca escrevi pensando que um dia isso aconteceria. Escrevia porque precisava disso para sobreviver à tudo, era algo muito natural quando eu era mais nova, antes mesmo de tomar consciência de que eu escrevia como uma forma de existência. Antes do livro, quando sentia a necessidade de compartilhar algum verso que tinha escrito — fosse em algum diário ou no bloco de notas do celular — eu apenas publicava o texto nos stories, por exemplo; as respostas à essas publicações me fizeram perceber que talvez as pessoas quisessem ouvir o que eu tinha de falar.


Como normalmente funciona seu processo de escrita? E como foi em Luiza?

Minha escrita sempre surge naturalmente, de uma forma que não consigo conter; ela só vem e toma conta. Sempre foi assim! Primeiro eu sentia, vivia e, quando me dava conta, estava dizendo e escrevendo sobre o “indizível”. Lembro de uma palestra da Ana Suy, ela diz que a escrita é como um espirro: ele só vem, e a gente não consegue contê-lo.


Quais desafios você enfrentou para a publicação, em especial num gênero como o poema?

A literatura já tem resistido muito diante de todas as dificuldades, mas a poesia é como uma flor sobrevivendo no meio do deserto. Sinto falta de uma propagação da literatura de modo geral, com lugares acessíveis a todos para o incentivo à leitura. Faz alguns anos que implantaram uma feira literária em minha cidade, antes disso não tinha nada. Mesmo com a feira, os preços dos livros são muito altos, sendo a maioria dos compradores, professores e outros funcionários públicos que recebem o voucher de incentivo.

No fim, o acesso ainda é pouco democrático. Mas, para a publicação, passei na chamada de uma editora, onde eles custeavam metade da produção, o resto do valor foi pago por mim, com ajuda de familiares e amigos. Com o tempo descobri que poderia ter produzido tudo de modo independente, ou contado com auxílios públicos à produção cultural, como a Lei Paulo Gustavo, entre outros editais.


Autora em evento para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods)
Autora em evento para divulgação do livro "Luiza". Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods)


Falar das consequências do luto é sempre um tópico sensível, em especial quando vivenciando isso de modo tão precoce. Qual foi a parte mais difícil ao tratar de um momento tão delicado de sua vida?

Acredito que escrever permite que a gente reviva alguns momentos e reflita sobre sentimentos que estavam adormecidos. Vivo em um processo de análise para a elaboração do meu luto e acho que minha escrita foi uma consequência disso. Uma das coisas que percebi durante todo o processo do livro, foi o receio das pessoas em falar sobre a morte. O receio e o silêncio da minha família — e de todos os conhecidos e desconhecidos — sobre a dor [desses processos], dói muito mais do que falar sobre ela. Passei a escrever para lidar com a ausência da vida da minha irmã.


Em todo o livro você comenta sobre sua decisão de transmitir a vida de sua irmã por meio da sua. Você considera Luiza como uma materialização desse sentimento?

Sim, com certeza! É meio louco saber que, hoje em dia, se eu falar o nome “Luiza”, as pessoas sabem sobre quem estou falando. Eu sempre disse que o livro não é apenas sobre ela e a sua morte, mas como se eu contasse a Luiza tudo que vivi depois que ela partiu.


Como você interpreta esse relacionamento do público com o seu texto? Qual o sentimento envolto ao ver essa relação sendo construída?

É uma surpresa. Eu acho muito curioso quando um leitor dá sentidos a um texto, que eu ainda não tinha atribuído ou pensado sobre. É, de fato, ele tomar o texto para si e fazer o que quiser dele.



Algo que me marcou na leitura do seu livro é o modo como não somos apresentados aos relatos e seus personagens. Isso acrescenta ao intimismo, que o próprio teor da obra aponta, de uma maneira que nos conecta com seus sentimentos, como se fôssemos parte de sua consciência. Esse artifício de conexão foi proposital durante seu processo de escrita?

Essa é a primeira vez que penso sob essa ótica! Não foi algo planejado, naturalmente aconteceu. Algo que sempre fiz foi manter uma certa “distância” dos personagens, tanto para preservar quem eram — já que a maioria deles são inspirados em pessoas com quem convivo, mesmo que com traços da fantasia — quanto para que fosse algo em que o leitor pudesse identificar a sua própria história e se enxergar nas minhas palavras.


Em um dos textos do livro, você descreve um cenário cotidiano em que você tem uma filha, até revelar que se trata de uma fantasia de uma vida futura. Mesmo a conhecendo e sabendo que nada daquilo era possível, estava tão convencido e conectado àquela estória que até duvidei de minha memória [risos]. Qual foi a sua intenção, como poetisa, ao escrevê-lo?

Existem textos que são inteiramente reais, outros são histórias de amigos e alguns são fantasias pessoais. Uma vez me escreveram uma resposta à esse texto, contando como se vissem de fora o desenrolar dessa cena. Logo no lançamento, eu costumava dizer que o livro era uma conversa que eu iniciava com o leitor, e receber essas respostas era a prova desse diálogo.



Retomando o tópico conexão, a partir de um certo ponto do texto o pertencimento passa a ser um tópico central, você fala de sua cidade, de suas relações — a quem você chama de “minhas pessoas” — e daquilo que lhe foi habitual durante toda a vida, justamente em um momento narrativo sobre amadurecimento. Você diria que o momento narrativo se relaciona com esse sentimento de falta e quebra de hábitos?

Sim! Acho que amadurecer e “sentir falta” caminham juntos em dado momento da vida. Sentir falta de casa foi o que me fez enxergar o que realmente importava para mim, as coisas das quais não posso abrir mão de ter perto, por me fazer ser quem sou. Falar sobre minha família, minha cidade e minhas pessoas, de certa forma, é falar sobre quem me tornei. O amadurecimento que cito no livro nasceu das ausências e das mudanças. Pertencimento, para mim, é carregar aquilo que nos formou, mesmo quando tudo ao redor muda.


Ainda sobre conexão, e acrescento pertencimento, você é de Palmares, cidade do interior de Pernambuco que recebe a condecoração de “Terra dos Poetas” título que, inclusive, aparece em um momento mais descontraído do livro. Qual sua relação como escritora, poetisa, artista das letras, à realidade interiorana, em especial no contexto de Palmares?

Palmares é a minha casa, a cidade onde meu coração mora. Estão aqui as minhas pessoas, que me ensinaram o que é amor e como amar, me fizeram ser quem sou. A Terra dos Poetas é onde mora o coração da poeta.



O livro foi publicado em 2023, quando você tinha 18 anos, e é interessante reparar nas referências que nos lembram que aquelas palavras advêm de uma adolescente. Hoje, sob uma ótica mais adulta, como você enxerga essa relação da poesia com a sua vivência de juventude?

Eu precisava da poesia para sobreviver à adolescência e hoje preciso dela para sobreviver à vida adulta. Provavelmente continuarei precisando dela pelo resto da vida. A vida mudou e o repertório, por consequência, também. Não é como deixar a juventude para trás, mas assumir a vida adulta e entender que o que escuto e o conteúdo que consumo hoje é somado a tudo isso.


Você diria que houve mudanças na sua escrita desde então?

Com certeza! Acho que todo escritor com quem conversei me relatou sobre o amadurecimento da escrita. Acho que é possível sentir esse processo dentro de Luiza. Os textos iniciais são diferentes dos textos do meio, que são diferentes dos que estão no final dele; alguns são de quando eu tinha 13 anos, outros foram escritos quando o livro já estava em processo de produção.


Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods)
Foto: Bruna Araújo (@brunaaraujods)

Para finalizar, onde podemos encontrar Luiza e como Luiza vai nos encontrar?

Você pode encontrar em sites on-line ou comprar diretamente comigo pelo Instagram (@anajcarneiro), que é onde a maioria prefere. Envio pelos correios, com dedicatória e brindes!



PALAVRAS FINAIS


Luiza é um livro que vai colocar luz onde há sombra. Nele, eu falo sobre o processo de luto, pertencimento e amadurecimento que precisou continuar mesmo depois da partida da minha irmã. Acima de tudo, falo sobre o amor que nos sustenta depois da dor da partida. Se você acha que as palavras podem ser abrigo, esse livro é para você. Transforme meu livro em casa para seu coração.


 
 
 

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