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“Fazem 25 anos da partida dele, e eu vejo muita gente de uma nova geração que não o conhece"

Entrevista com Paulo André Moraes Pires, por Nayara Nascimento

Imagem/ Reprodução: Instagram (@pauloandremoraespires)


Fundador e organizador do festival Abril Pro Rock, um dos criadores da feira Porto Musical, empresário que articulou a jornada da música pernambucana dos anos 90 pelo mundo, especialmente a carreira de Chico Science & Nação Zumbi (e também da Nação após a morte de Chico), Paulo André Moraes Pires dá um novo passo em sua carreira, dessa vez como escritor. Em agosto deste ano lançou seu primeiro livro: "Memórias de Um Motorista de Turnês", o livro traz a memória principalmente do lado estradeiro de suas aventuras musicais. Em entrevista, ele conta um pouco como surgiu a ideia do livro e a cena Manguebeat.


Nayara Nascimento (NN) - Como surgiu a ideia de fazer um livro contando essas tuas experiências como produtor? Como se deu o processo criativo?


Paulo André Moraes Pires (PP)- Agora durante a pandemia, 2020 e 2021, foram duas datas redondas das turnês. Em 2020, foram 25 anos da “From Mud to Chaos”, o World Tour, né? Que foi a Turnê internacional de “Da Lama ao Caos”. E no ano seguinte foram 25 anos da segunda turnê que a gente chamava de “Afrociberdelia”. E bom, pandemia, a gente em casa, eu comecei a me debruçar no acervo. Eu sou colecionador desde os dez anos de idade, então eu sempre tive a preocupação de guardar os flyers, cartazes, e tal, e aí eu comecei a olhar esse material, jornais.... Então quando chegou a pandemia e eu comecei a postar essa memoriadelia e falar dos dias e das coisas que aconteceram, eu comecei a ver que eram os posters mais comentados. Quando chegou 2021, que aí eu já estava falando sobre a turnê Afrociberdelia Internacional e outros assuntos, veio o edital Recife Virado, da prefeitura do Recife, e ai eu comecei a analisar o Instagram, e me dei conta que eu já tinha textos suficientes tanto para um livro mais diferente do que eu idealizava. Eu sempre falo assim: eu estou escrevendo esses textos das turnês internacionais principalmente pela memória do Chico. A gente vive num país sem memória. Fazem 25 anos da partida dele, fazem agora mais de 25 anos dessas turnês, dos discos, e eu vejo muita gente duma nova geração que não conhece, então, a ideia era essa, mas eu desfiz essa ideia quando eu resolvi fazer essa compilação de textos que tem um pouco de cada um dos livros que eu pretendo lançar ainda num futuro próximo, como, por exemplo, a minha experiência dos três anos nos Estados Unidos, enfim um pouco dessa trajetória.


NN – E o que os leitores podem esperar do livro?

PP - Olha, o livro, acima de tudo, é um livro divertido, é um livro que eu escolhi não ter histórias tristes. Nesse livro eu tentei trazer duas coisas, a primeira: eu sou muito convidado para falar para jovens músicos e jovens produtores; e eu sou de uma geração que não gozou desse privilégio, porque não existiam palestras, não existia seminário de economia criativa, nada disso, eu aprendi fazendo. Então eu tenho o maior prazer de falar pra essa juventude, e eu quero desmistificar que o produtor é aquele que fica dando a coordenada em tudo, ele tem um compromisso e que você tem que fazer tudo, se você gerencia uma carreira, meter a mão na massa, literalmente. Mas são histórias divertidas, são histórias da música pernambucana, e principalmente nesses dois capítulos das turnês internacionais de Chico, um amigo meu me falou que a sensação que ele teve é como se ele tivesse embarcando na van com a gente, você sabe como as coisas rolam ali nos bastidores. Então é um trabalho não só pela memória do Chico, mas pra fazer com que a galera saiba onde ele chegou com a Nação. A gente atingiu o cume da montanha da música pop, a gente estava ali ao lado de grandes nomes da música pop daquele momento, como nós éramos também, e eu digo que nós éramos alpinistas amadores, mal agasalhados, mas que apesar disso conseguimos chegar no cume da montanha da música pop. Então o livro traz muito disso, né? E aí eu finalizo o livro dizendo o seguinte, meio que dizendo que não houve esse investimento da gravadora, eu digo que “não interessa o tamanho do veículo, mas sim a forma como se dirige”, que é um trocadilho com o título do livro. Enfim, desmistificar o papel do produtor também, que é mais do que só produzir.

NN – Nestes teus mais de 25 anos de carreira como produtor, qual o momento relatado lá no livro que pra você foi mais importante, teve um impacto maior na tua vida, ou algum fato curioso que você possa adiantar pra gente?

PP – Olha, eu falo muito das duas cenas que eu testemunhei nos Estados Unidos, o Fresh Metal com a metálica virando uma mega banda, e depois o funk-rock pesado COM O FAITH NO MORE, PRIMUS, O MORDRED aquilo pra mim mudou minha vida realmente, assim, virou uma chave, eu pensei que eu queria trabalhar com aquilo, aquilo era o que eu queria fazer pro resto da minha vida, e quando eu volto pra Recife, como eu era uma das poucas pessoas que a trabalha com isso, o Chico me convidou pra trabalhar com ele. Eu também acho que talvez se eu não tivesse esse passado recente nos Estados Unidos se eu não falasse inglês, se eu não tivesse já transitado de alguma forma na música, eu não teria o posto de gerenciador da carreira dele, então essas experiências foram incríveis, a vida continuou depois, infelizmente não pra ele, e eu também falo do Dj Dolores, eu falo do Cascabulho, da Cabroeira, outras bandas que eu trabalhei, que também circulei internacionalmente, realizei turnês com eles também. Hoje eu sou um motorista de turnês aposentado.


Capa do Livro Memórias de um Motorista de Turnês (Cepe Editora)

Páginas do livro Memórias de um Motorista de Turnês (Cepe Editora)

NN– No livro você fala sobre a sua experiência com a turnê no exterior, o sucesso da Nação Zumbi. Como foi ser produtor de uma das bandas que marcou o movimento Manguebeat?

PP – Olha, o mais incrível pra mim de ter sido o produtor dessa turnê histórica do Chico em 95, é que a gente não era nem samba, nem bossa nova, nem MPB, que eram os três gêneros musicais brasileiros mais conhecidos no exterior, e era até difícil rotular o som da banda, mas aquilo também foi o divisor de águas para uma nova música brasileira que se projetava internacionalmente, jovem, diferente de tudo que já havia sido conhecido por eles de música brasileira, né? Então foi incrível testemunhar aqueles momentos, tocar em grandes festivais, dividir o palco com gente..., né? Os encontros, a gente encontrou o David Byrne dos Talking Heads, conhecemos o cara do Ministry. Então, apresentar o Chico a esses caras, estar ali nos bastidores, a história que eu contei com CBGB que é um dos inferninhos mais famosos do mundo, que tem até um filme de Hollywood sobre a história do CBGB e do HILLY KRISTAL, então, a experiência de cruzar com esses personagens foi incrível.


NN – Hoje no lançamento do livro, você estava falando que o Abril Pro Rock, o movimento undergroud, traz a luta pela permanência do movimento. Qual foi a importância do Abril Pro Rock pra cena Manguebeat?

PP – Olha, eu diria que a cena Manguebeat foi importante pro Abril Pro Rock assim como o Abril Pro Rock foi importante pra cena Manguebeat também, porque quando o Abril Pro Rock começou nenhuma banda tinha gravadora, nenhuma banda tinha saído de Recife ainda pra tocar em outro estado. E aí logo depois Chico Science, Nação Zumbi e Mundo Livre SA viajam, vão tocar no sudeste, Belo Horizonte e São Paulo, já com as gravadoras assediando para assinar contrato, né? E aí no segundo Abril Pro Rock, o Chico já estava na Sony, e ai galera da Sony vem e já vê o Jorge Cabeleira, o “Da Lama ao Caos” fica pronto no segundo Abril Pro Rock, e no terceiro Abril Pro Rock o disco do Planet e do Jorge Cabeleira são lançados juntos pela Sony, a mesma gravadora do Chico. E ali começam as gravadoras a assistirem as bandas, gostavam... Os Devotos foi pra BMG, Penélope da Bahia foi pra Sony, e um pouco depois, no final dos anos 90, o Los Hermanos também creditam o Abril Pro Rock como um show importante para fazê-los chegar numa gravadora, né. Então ali começa uma movimentação.


NN – Para finalizar, 30 anos de Manguebeat, como é que você vê o movimento hoje? O que podemos esperar para o futuro?

PP- Olha, antes de mais nada, eu fico feliz porque tá todo mundo aí produzindo, todo mundo muito bem, obrigado, né? Tem o pós-mangue também que todo mundo continua aí, e eu vejo, como eu vi agora... Tem até uma matéria que saiu no programa Metrópoles da TV Cultura que eles me perguntam sobre hoje, e aí eu falo de grupos como Abolidos, Barbarize, uma banda chamada Janete Saiu Pra Beber que é do Cabo de Santo Agostinho que tem muita influência do Mangue, eu falo de muita gente que eu não tô lembrando agora, gente nova, e eu vejo como uma continuidade, né? E fico muito feliz em acompanhar. Então eu penso que a mensagem continua né, você vai no Recife, você vê Chico nos muros, influencia a galera do grafite, a galera das artes visuais, agora na FENEARTE, nossa, eu vi Chico de madeira, de barro, de ferro, de pano! Assim, você vê que o imaginário foi tão forte que visitando a FENEARTE eu queria ter dinheiro pra comprar tudo, consegui comprar algumas coisas, mas é impressionante como ele ainda inspira outros artistas, não só da música, a produzirem com essa influência, com esse universo como inspiração.




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