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  • Foto do escritorAmanda Nascimento

Em comemoração ao dia do Cinema Nacional: uma entrevista de arquivo inédito com Fernanda Montenegro

Entrevista realizada por Amanda Nascimento em abril de 2004.

Foto: Divulgação

Em comemoração ao dia do Cinema Brasileiro, trazemos aqui uma entrevista de arquivo inédita, realizada por Amanda Nascimento em abril de 2004 com Fernanda Montenegro. “Um hotel, na beira mar da Região Metropolitana do Recife, durante um festival de cinema local, quando veio para o lançamento de “O Outro Lado da Rua”, primeiro longa de Marcos Bernstein, roteirista de “Central do Brasil”, junto a João Emanuel Carneiro. Um SET montado na areia da praia. Enquanto concedia entrevista, era clicada para um ensaio. Em cada resposta, uma aula de cinema, televisão, teatro, humanismo e cidadania”.

AMANDA NASCIMENTO: O que fez você querer fazer esse filme? O que mais te agradou no roteiro?


FERNANDA MONTENEGRO: Eu achei que era um roteiro com começo, meio e fim. Um roteiro impressionista. Tinha crônica, mas que por baixo dessa crônica tinha um movimento de humanidade jamais totalmente expressada, intuída. Não era narrado o emocional dos personagens, não vinha aquela crônica seca, sabe? Assim: um fato e outro fato e outro fato. Senti que tinha um movimento de ondas. O filme de impressões com dois personagens que se encontram com total impossibilidade de convívio, mas com uma atração irresistível nas suas solidões. É difícil botar em palavras as coisas que estão intuídas. De impressões, de impressões… Eu acho que isso é raro como proposta de personagem até no cinema contemporâneo. É tudo muito explicitado hoje em dia. O filme é um risco que corre o produtor, o diretor, o roteirista e elenco numa hora de um cinema tão cronístico ou, às vezes, tão mágico nessas coisas que vem do primeiro mundo como “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, do mundo do imaginário. Ou é aquele cinema americano cronístico que se exige tudo com consequência clara. Então, acho que é um filme muito corajoso. História de dois velhos, velhos não decrépitos. Dois velhos inteiros com seus hormônios ainda funcionando, não com tanta pujança, mas existindo ainda. É um filme desafiador.


AMANDA NASCIMENTO: Marcos Bernstein escreveu o roteiro de Central do Brasil. Naquela época, vocês quase não se conheciam. O fato de ter sido ele, agora como diretor estreante, ajudou você a aceitar o personagem Regina?

FERNANDA MONTENEGRO: Não. Não foi o roteiro em si. Não tenho receio algum com diretor estreante. Eu acho que quando um diretor estreante chega a um longa, é uma luta tão grande, é um querer tão grande, que alguma coisa sai dali ou tudo sai dali. Tenho uma longa experiência porque tenho feito muitos filmes de primeira direção. E, também ali, ele representa a linguagem dele, completamente resolvida ou não, mas ali é que está a sua estética. Aquilo que ele vai perseguir pela vida dele se tiver chance de fazer o segundo, o terceiro ou o quarto filme. Até porque, no Brasil, você leva cinco, seis ou sete anos para fazer um filme.


AMANDA NASCIMENTO: O “Outro Lado da Rua” é a história de duas pessoas mais velhas e tem um romance. O que me impressionou foi Regina. Ela é uma pessoa que tem muita vaidade, apesar da solidão em que vive. Como foi interpretá-la?


FERNANDA MONTENEGRO: Eu acho que ela é daquele tipo de mulher que dentro de casa não aguenta. Eu fiz uma história para ela, pressuponho que ela foi até uma alta funcionária do Ministério da Justiça, aposentada há anos. Então, ela sofre a decadência do bairro, era por excelência o bairro da grande diversão da política e do dinheiro no período em que o Rio era capital. Ela foi alguém nos seus verdes anos… Aquele apartamento já foi um grande apartamento que agora está lá jogado às traças. Tem uma dualidade de quando for para rua, ninguém vai me pegar distraída, ninguém vai me pegar na pior. E, também diversificar essa figura, né? Ela é uma pessoa dentro da casa. Ela se dá o direito da sua depressão e se dá o direito da vida sem saída, mas botou a cara na rua como os velhos de Copacabana: batom, cabelinho cortado com franjinha, a cachorrinha, a roupa comprada à prestação nua boutique onde tem uma moda que passa a ser até um uniforme, uma cor de cabelo que eu chamo de louro menopausa. Tem um código nelas todas! Eu tenho certeza que, quando a gente entrou para gravar naquele apartamento, eu senti “ali tem um mofo, tem algo que ficou no passado”. Mas na rua não. Na rua não. O sol bate, tem a praia, tem a ginástica, tem as paqueras que não se importam muito com a barriga, com as varizes, com as rugas. Eu acho que ela é assim: tem algo que ficou do seu grande tempo que ela tinha algum poder dentro da sua secção do Ministério da Justiça. Por que eu invento que é Ministério da Justiça? Porque ela fala com o delegado de igual pra igual. Ela sabe que o juiz mata, que o juiz se vende, que a justiça do Brasil é um horror do mundo. Que aquele juiz pode matar mesmo, compreende? Vai ter que poder para segurar o corpo. Mas tem uma alquimia da vida que bota aquele homem diante dela, tão burguês, tão arrumado, tão ofendido na sua postura, na sua casa tudo no lugar, tudo bonito, tudo anos sessenta, bom talher, vela acesa. Isso tudo é o encontro da direção com os seus atores. O Marcos foi muito cuidadoso.


AMANDA NASCIMENTO: Você acha que o filme quebra tabus em relação aos personagens mais velhos terem tanta vitalidade e fazerem sexo como adolescentes?


FERNANDA MONTENEGRO: O filme tem coragem. Botou duas pessoas de quase 70 anos numa cama. Eu acho a cena do primeiro beijo muito bem realizada. É incrível. As pessoas se amam fisicamente de todas as idades. Há muitas formas de se amar fisicamente em qualquer idade. Mas também isso não é feito… Como posso dizer? Não é feito com feiura, na brutalidade, no grotesco, na violência. Por tudo isso, eu acho que é para o filme ser considerado.


AMANDA NASCIMENTO: O que foi voltar a Berlim depois de já ser consagrada e ter uma boa recepção?


FERNANDA MONTENEGRO: Nós vivemos uma recepção em Berlim a qual a gente hoje não compreende o porquê do filme não ter entrado na competição oficial, quais foram os mecanismos… Eu acho que eles mesmo ficaram surpresos. As testemunhas das pessoas que acompanham os festivais, os alemães não brincam em serviço. O festival de cinema em Berlim é um festival em Berlim. Sinceramente, acho que nenhum filme teve uma recepção como o nosso filme teve, apesar de estar na mostra paralela. Foram duas sessões: a primeira foi um sucesso! A gente pensava que tinha acabado naquela noite. A segunda foi tão grande quanto a primeira. Eu acho que ainda se lembravam um pouquinho de mim lá. A pátria do cinema brasileiro é Berlim.


AMANDA NASCIMENTO: E, começar bem em Berlim dá um sentimento bom, já que “Central do Brasil” teve tanto sucesso?


FERNANDA MONTENEGRO: É um festival temático, sabe? Mas não temático pelo exótico. Um festival cabeça. Tipo cabeça, sabe? É aquela presença de entendimento de cultura com K, a respeito do fato que se está observando. Não tem folclore, não tem frescura. Acho que fazem bons negócios. Não sei porque isso não é meu setor. As plateias são compactas, sem frescuras. Tão ali pra ver cinema.


AMANDA NASCIMENTO: Voltando ao seu personagem, você deu passeios por Copacabana ou foi só com as referências de roteiro?


FERNANDA MONTENEGRO: Sou carioca deslavada. Quer dizer: sou produto daquela cidade. Conheço Copacabana a vida inteira. Morei em Copacabana. Comecei a minha vida profissional lá. Acho que a praia é, por excelência, do Brasil. Não é que seja a mais bonita ou a mais feia. Você pode não saber onde é o Brasil, não saber se a capital é Buenos Aires ou Rio de Janeiro, ou Brasília, ou Recife, ou São Paulo, mas sabe que existe no Brasil uma praia chamada Copacabana. Eu acho que é uma praia emblemática deste país. Se encontra ali do sublime ao mais divertido dos mundos.


AMANDA NASCIMENTO: E o seu personagem em “Olga”, filme de Jayme Monjardim?


FERNANDA MONTENEGRO: Fazer Leocádia, mãe do Prestes, foi um prêmio. Ele será um filme de outra visão. É uma intuição certa que o Monjardim tem a respeito dessa história, uma história de amor, compreende? Botando em primeiríssimo plano a humanidade desses personagens. A política vai entrar porque ele não poderia deixar de lado, mas não é um filme sobre a ideologia nem sobre engajamentos políticos. É um filme das criaturas que se envolvem nesse período da História do Brasil e que é tocante.


AMANDA NASCIMENTO: Já que você está em Pernambuco, queria saber como foi a sua participação em “O Auto da Compadecida”?


FERNANDA MONTENEGRO: Eu considero um orgulho ter entrado naquele filme. Um filme que o Guel realizou de uma forma extraordinária. Só a gente sabe como é difícil fazer farsa à altura do texto do Suassuna e só ganhar. Não se afasta um milímetro do espírito desse autor extraordinário que é Ariano. É uma protagonista, a Compadecida é a própria.


AMANDA NASCIMENTO: Como é estar com mais um filme em Pernambuco?


FERNANDA MONTENEGRO: Ai, meu Deus. Eu adoro. Aqui o público participa em massa e já estão educados para festivais. Eu lembro quando vim com o “Central do Brasil”, estava tudo recomeçando. A vontade dos pernambucanos é surpreendente. Posso afirmar que, hoje, é o melhor cinema do Brasil. Espero voltar sempre.


Entrevista realizada por Amanda Nascimento.

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