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“Chico falava isso, sobre diversão levada a sério e hoje a gente vê isso”

Entrevista com Roger de Renor, por Nayara Nascimento

Roger de Renor. Imagem/ Reprodução: Instagram

Cadê Roger, cadê Roger, cadê Roger, ô?”


Vendedor, capoeirista, dançarino, empresário, ator, apresentador de rádio e tevê e produtor cultural. Roger de Renor, teve e tem um papel importante na movimentação da cena cultural pernambucana. São mais de três décadas dedicadas às artes. A história de Roger de Renor se confunde com a trajetória da cultura de Pernambuco e com a cena Manguebeat. Afinal, não tem como falar do Manguebeat sem falar da Soparia. Roger de Renor, dono do bar Soparia, lugar que foi um dos principais redutos do movimento manguebeat, conta como surgiu o bar, sua trajetória e perspectivas sobre o movimento.

Nayara: Não tem como falar do Manguebeat sem falar da Soparia que se tornou praticamente uma sede do movimento. Como surgiu a Soparia e quais foram os desdobramentos dessa iniciativa?


Roger: Eu brinco que a Soparia foi uma tentativa de viver sem trabalhar, depois eu descobri que viver sem trabalhar dá mais trabalho. Mas a Soparia era como se fosse uma festa na minha casa, eu sempre fui muito bom de festa porque eu conhecia muitas pessoas. Eu trabalhava com disco, era representante de uma gravadora de disco, conheci o pessoal da capoeira, fazia teatro e depois fui para o balé popular. Então quando eu deixei de ser representante de disco, eu sabia que daria certo vender ‘rango’ de madrugada e conciliando com a boemia, com a farra... Recife não tinha loja de conveniência de madrugada, tinha mercado público ou a porta da restauração, mas não era lugar feliz e sim de trabalho. A Soparia surgiu para isso, era uma festa todo dia e eu levava a sério isso, eu tava lá toda noite e cuidava de todos os detalhes menos do caixa (risos). Era um lugar muito aconchegante. No início não tinha músicos, começou com chorinho e depois passou a ter atração de segunda a segunda, exibição de clipes, de filmes, teatro, era um lugar muito diverso, ocupou um espaço de sede do Manguebeat e acolheu a galera na ida e volta dos shows, era um lugar muito livre.


Nayara: Chico Science e Nação Zumbi foi uma das principais bandas que se consolidou no Brasil e conquistou um renome através do manguebeat. Quais outras bandas do movimento passaram pela Soparia e que conseguiram ter essa consolidação que a Nação Zumbi teve?


Roger: Não digo exatamente que foi por tocar lá. Acho que a gente teve mais proveito do que as bandas. Por exemplo, Mundo livre e Nação Zumbi tocaram lá uma vez. Mestre Ambrósio fez temporada lá, tocou toda quarta durante dois anos, era um evento. O show de Chico e Mundo Livre S/A foi bem no começo da carreira deles. Muitas bandas tocaram lá. Chegou um ponto que teve uma banda, que eu não me lembro qual, chegou pra mim falando que ia tocar no Rec Beat em São Paulo, mas que nunca tinha tocada na Soparia e que queria tocar lá antes pra não chegar lá e ser a única banda que não tocou. Banda Eddie, Matala na Mão, todas as bandas da época e as que também por outros motivos não continuaram, mas se estivessem estariam se transformado também como essas, como o Cavalo do Cão, super importante na cena. Era muita gente do movimento que está aí hoje ou pararam por outros motivos.


Nayara: A Soparia se tornou uma sede do movimento, era realmente um local que movimentava a cena. Você considera que hoje ainda é importante ter um lugar como esse funcionando como sede para a movimentação de uma cena musical?


Roger: Sim, acho que o lugar físico é imprescindível, por mais que a tecnologia preencha o lugar da rádio, hoje por exemplo tocou uma artista e eu fui procurar ela no Instagram e eu já a conhecia por referência de outros músicos como Lucas Torres. Então hoje a gente tem a referência do algoritmo, mas ele não é honesto com a gente, não que os bares sejam, a gente não confia tanto, mas a confiança na pessoa humana que produz o lugar, o aconchego, o acolhimento para as pessoas irem e se encontrarem. Música é encontro. Tem outros lugares como o Terra Café e o outros que eu considero que são lugares bem importante pra nossa música. Outros institucionais como o Passo do Frevo, que são importantes e construídos também a partir dessa necessidade. Mas os lugares físicos continuam, talvez não como sede, ou inferninhos porque as coisas mudam, mas como espaços humanos de encontros e de assistir ao vivo, e agora com essa necessidade que a gente tem de lugares de pequeno porte, porque a gente tá cansado de palcos grandes que você ver nos telões. Antes da pandemia já tinha lugares pra 40 pessoas, mais acessíveis etc. E isso é massa porque você fideliza a galera e depois consegue multiplicar pelas redes sociais.


Entrevista com Roger de Renor

Nayara: Olhando pros 30 anos do manguebeat, para toda a trajetória da soparia, você faria algo diferente?


Roger: Tô respirando pra pensar não, mas pra não chorar. Com essa volta do FIG, se eu parar pra pensar eu me emociono. Eu teria estudado, daria tempo ainda. Mas eu tive uma experiência legal na época que eu fui chamado pra estudar era uma pauta pública que a gente discutia muito, fiz programas de rádio mesmo sem ter me formado, me assumir como comunicador, fiz vários programas de rádio… Essas experiências foram uma formação também, mas talvez com formação acadêmica eu também teria contato com outras pessoas e ia descobrir muitas coisas também, ia ser outro aprendizado.


Nayara: O manguebeat surgiu através dos manifestos e críticas sociais, através do que a própria sociedade enfrentava. Você enxerga que o movimento continua com essas mesmas ideias?


Roger: Eu não vejo mais o movimento como só musical, acho que a música serviu pra chamar atenção, mas hoje as causas tem mais alcances porque tem mais ferramentas. O Manguebeat sofreu com esse remédio que ele usou pra ter o alcance. A forma de comunicação era a MTV, eu fico meio assim quando vejo as pessoas falando e quase celebrando “ah, MTV tava chegando no brasil” e esquece a crítica sobre isso, a MTV clareou, embranqueceu o Manguebeat. O movimento tem pessoas brancas sim, mas o reflexo dele é negro, é periférico. A gente tem Chão de Estrelas e Peixinhos como a base, e isso se calou, Josué de Castro é um fundamento, por exemplo, mas passou a ser curiosidade. As pessoas dentro da comunidade hoje, que compõe, que faz manifestação, que faz grafitagem, tá ocupando os espaços no CAC, na Universidade Federal, muita gente do teatro, dança etc. Elas têm outra visão, são pessoas do Bode, Ilha de Deus, de Peixinhos... Fui fazer uma pesquisa sobre a galera de Peixinhos porque eu queria citar os nomes aqui e não lembrava de alguns, e eu encontrei várias monografias sobre o movimento lá, as bandas de lá, os lugares de diversão da juventude, muitos projetos acadêmicos e eu fiquei muito feliz com isso, isso é fruto do movimento Manguebeat.


Nayara: Em relação aos 30 anos do Manguebeat, o FIG voltando depois da pandemia, o Som na Rural, quais foram suas expectativas e como está sendo vivenciar esses movimentos?


Roger: Eu fiquei pensando nisso, desses 30 anos, e eu acho massa, é um planejamento pro futuro. Eu fico muito incomodado se alguém me falar que é uma homenagem. Eu não vejo como uma homenagem, eu vejo realmente como um planejamento pro futuro. Muita gente chega pra tirar foto comigo, a gente bate um papo muito de boa, é uma galera de 23, 24, 25 anos, não tem papo de que “poxa, meus pais te conheciam” não, geralmente os pais são mais caretas, quando eles estão juntos eu até brinco e tal. Enfim, eu tenho pirado com uma galera que é apaixonante, Barbarize e outras bandas novas. Ontem tava Joyce Alane tocando aqui um som muito foda e é música muito profissional, muito requintada e é uma galera jovem que consegue isso de uma forma muito séria, diversão levada a sério. Chico falava isso, sobre diversão levada a sério e hoje a gente vê isso. Então eu quero acompanhar esse planejamento futuro dessa turma, eu quero tá por perto, eu tô sempre querendo começar de novo, acho muito legal a gente sempre tá inventando coisa nova. Eu dependo da galera, de vocês, dos novos.


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