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Azulão: 80 anos depois, o dia 25 de Junho deveria ser dia de festa

  • Foto do escritor: Revista Spia
    Revista Spia
  • 25 de jun. de 2022
  • 5 min de leitura

Maria Clara Mendes e Joyce Noelly


No dia 23 de Junho de 1942 foi realizada a colheita do milho, pessoas se reuniram para celebrar a véspera da festa, a fogueira queimou até virar cinzas. Talvez balões tenham enfeitado o céu e a música esquentado o chão. Ao final do dia 24 de Junho, os vestígios da festa se guardaram para o dia de São Pedro. O que ninguém poderia imaginar é que no dia 25 de Junho de 1942 nascia um dos maiores artistas da história do forró e da cidade de Caruaru. 80 anos depois, o dia 25 de Junho deveria ser dia de festa.


Azulão - Foto: @azulao.oficial, autor desconhecido.
Azulão - Foto: @azulao.oficial, autor desconhecido.

Um personagem ilustre, Francisco Bezerra de Lima, imortalizado Azulão, nasceu em Serra dos Cavalos e se criou em Brejo de Taquara. Só depois Azulão passou a morar na cidade de Caruaru, primeiro no Alto da Banana e posteriormente na gloriosa Rua Preta. O resto não só virou história, virou música e um pedaço do que conhecemos como a Capital do Forró. Reconhecido por uma voz inconfundível, uma presença arrebatadora e um repertório que se confunde com a história de multidões, abordar o legado de Azulão é um desafio imenso e necessário.


Quis o destino que a volta das festividades do São João em Caruaru, interrompidas pela pandemia da COVID-19, coincidisse com os 80 anos de Azulão e com a aposentadoria dele dos palcos. Até aqui foram 60 anos de carreira, um compacto duplo, LPs aclamados, participações em coletâneas, um CD e um DVD lançados. Uma arte pulsante de um artista inquieto, talentoso e pernambucano de tantos espaços que formam uma só presença: Caruaru, Rua Preta, Brejo de Taquara e Serra dos Cavalos. Impossível separar o artista Azulão das suas origens, é isso que o alimenta e nos inspira a ouvi-lo.


A história de Azulão se confunde com Caruaru e com a história de personagens importantes da cidade e do forró. Azulão participou das caravanas de Ivan Bulhões e Lídio Cavalcante. Compôs a música ‘Pé de Jatobá’ (1969) com Jacinto Silva, sucesso na voz de Marinês. Integrou a primeira banda de forró do Brasil, a Bandinha do Camarão. Em parceria com Mestre Camarão, lançou a sua primeira música ‘Olhei o meu amor’ (Azulão e Camarão), na coletânea Forró do Zé do Gato (1964). Gravou três músicas no LP Retrato de um Forró (1974), gravado também por Camarão e Sandro Rogério. Conviveu com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Jacinto Silva, Messias Holanda, entre outros mestres. Lançou álbuns inesquecíveis que marcaram época e influenciaram gerações de brasileiros.


Não há testemunha melhor do legado de Azulão do que a sua própria obra. Nela está impressa a originalidade de um artista que sempre soube dialogar com o novo e com as suas vontades e crenças. Esta originalidade aparece nas capas que trazem fotografias de um jovem e vaidoso Azulão, vestindo roupas estampadas, de cores vibrantes, calça boca de sino e black power. A singularidade de Azulão fica evidente em sua aparência e nas músicas que fazem referência a religiosidade dele.


O vínculo de Azulão com as religiões de matriz afroindígena é um aspecto que só o próprio artista para elucidar, mas encontramos indícios de sua fé em canções como a belíssima ‘Cabecilé’ (Francisco Azulão), na qual Azulão faz honrarias à sua cabeça (ou Ori), menciona a orixá Iansã e logo em seguida brada a saudação ao orixá Xangô, que dá nome à canção. No catolicismo, Xangô é sincretizado como São João. Azulão nasceu um dia depois do dia de Xangô.


Algumas capas dos LPs de Azulão nos anos 70.
Algumas capas dos LPs de Azulão nos anos 70.

Na década de 1970, em meio a uma natural concorrência entre os próprios cantores, Azulão se destacou pela sua maneira única de cantar e interpretar o que cantava. Em ‘Dona Tereza’ (Elias Soares), presente na obra-prima de 1976, Azulão muda a voz nos trechos que representam a personagem Dona Tereza. Ele não só intercala os falsetes, como traz consigo uma performance com movimentos corporais para representar a personagem. Estes movimentos corporais são assinaturas do artista Azulão, a sua voz e interpretação são inconfundíveis. Estas características tão próprias do Pequeno Grande influenciaram toda uma geração de artistas que vieram depois, sendo ele considerado a maior voz de Caruaru.


A cidade de Caruaru tem um espaço imenso na vida e na obra de Azulão com várias canções exaltando as histórias e personagens da Princesinha do Agreste. Estas histórias estão eternizadas em ‘Caruaru do Passado’ (José Pereira), ‘Capital do Forró’ (Walmir Silva e F. Azulão), ‘Caruaru do meu tempo’ (Juarez Santiago e Lula Torres), entre outras. Só vivendo e conhecendo Caruaru com propriedade para dar voz a tantas memórias de forma tão autêntica. É sempre importante destacar que ao longo de sua carreira, Azulão tratou de gravar músicas de compositores de Caruaru e região. Segundo Natan Lima, músico e conhecedor do forró, Azulão foi o primeiro artista a gravar uma música de Petrúcio Amorim, a canção ‘Confissão de um Nordestino’ dá nome ao LP lançado em 1980.


Em sua apresentação de despedida, realizada no Pátio do Forró, no dia 17 de Junho, o Mestre Azulão, já bastante fragilizado pelos sinais do tempo, cantou algumas poucas canções. Mais do seu imenso repertório foi apresentado por artistas locais em participações especiais, como o jovem sanfoneiro Luan Nascimento, porém quem realmente conduziu o show foi seu filho Azulinho, que há anos divide o palco com o pai, inicialmente como backing vocal. Azulinho aproveitou a oportunidade para mostrar seu trabalho solo, cantando alguns piseiros que gravou recentemente. Algo muito oportuno numa noite em que o Pátio do Forró estava lotado de pessoas para ver o show do artista seguinte, João Gomes, o maior nome do gênero na atualidade. Tão lotado que desencorajou parte do público de Azulão a ver seu show pessoalmente.


Atualmente Azulão tem o seu nome em um dos principais palcos do São João de Caruaru. O Polo Azulão representa um espaço alternativo dentro da programação do São João da Capital do Agreste. Curiosamente este palco tão importante pouco se aproxima do legado de Azulão, ficando a homenagem restrita ao nome do mestre. Por mais que a homenagem seja válida, seria interessante discutir de que forma Azulão poderia estar mais presente neste palco. Neste ano, o Polo Azulão apresentará um tributo à obra de Azulão, onde, no dia 26 de Junho, artistas convidados terão a missão de interpretar os clássicos do Mestre. Um bom sinal, mas que a iniciativa não se limite a uma homenagem protocolar pela despedida de Azulão dos palcos.


Afinal, um artista que soube falar de si mesmo, do seu povo e das suas origens, merece ser enaltecido em vida por tudo que nos deu. O forró, a cidade de Caruaru e a música brasileira não seriam os mesmos sem Francisco Bezerra de Lima, nosso Mestre Azulão. As músicas de Azulão despertam memórias e saudades de pessoas e de lugares, nos trazem conforto e divertimento. Falar de Azulão compreende uma parte considerável da história do Brasil e do que este país é feito: festa, música e coragem. Ele se retira dos palcos e continuará vivo em nossas vitrolas, rádios, playlists e por cada pedaço dos lugares que encantou. Muito obrigada, Mestre.


Um agradecimento especial a Natan Lima, a Luiz Ribeiro e a Azulinho.


Referências:

MACEDO, Eliane; PAIVA, Henrique. Azulão, o Pequeno Grande. 5 de Março de 2017. Disponível em: <https://youtu.be/NfssT9WCPdY>. Acesso em 21 de Maio de 2022.


LIMA, Natan. Entrevista concedida a Maria Clara Mendes. Revista Spia, Pernambuco, 2 de Junho de 2022. [A entrevista foi realizada pelo WhatsApp]


TV Asa Branca. Filhos da Terra – Azulão O Pequeno Grande. YouTube, 05 de Maio de 2019. Disponível em: <https://youtu.be/IizuXqT-5xY>. Acesso em 01 de Junho de 2022.


TVPE. Azulão - São João da TVPE. YouTube, 13 de Julho de 2010. Disponível em: <https://youtu.be/DSGMemcBQ8Y>. Acesso em 22 de Junho de 2022.


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