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Agda costura o céu do agreste na história da música pernambucana com o seu primeiro álbum

As costureiras, mototáxistas, árvores, feiras, olhos e braços humanos viram movimento e canção nos “ter sidos” de Agda.


Entrevista por João Rocha e Nayara Nascimento


Foto: Teresa Benassi


As encruzilhadas genéticas que perpassam por Agda, já indicavam, ainda muito jovem, a potência transformacional e poética que se encontraria com o público na sua adolescência. Filha, neta e bisneta de costureiras, Agda carrega consigo os sentidos que a feira da sulanca, em Santa Cruz do Capibaribe lhe apresentou. A influência da família paterna impregna através dos sons e da estrada que lhe leva até o sertão da Paraíba, seu avô, Zé de Cazuza é um patrimônio vivo de poesia, seu pai Miguel Marcondes, é cantor e compositor há mais de trinta anos e está à frente da banda Vates e Violas. Agda aglutina suas vivências as paisagens sonoras, visuais e afetivas em muito verso e rima. Utilizando-se de seu imaginário fértil e de uma escrita flutuante, a artista transfigura para as suas composições os encontros, desencontros e a efemeridade profunda da poesia, da arte e da cotidianidade de um dia de sol ou de chuva.


Com produção de Juliano Holanda, a carta sonora conta com a participação de vários artistas como: Neide Maria, Fábio Xavier, Flaira Ferro, Almério, Isaar, Isabela Moraes, Mery Lemos, Virginia Guimarães, Joana Terra, Ezter Liu, Olegário Lucena, Jr. Black, Lirinha entre outros. O álbum carrega o seu nome e é dividido em quatro tempos: “Apontar”, “Us Doidus”, “Ter Sidos” e “Poeira”, que foram divididos com quatro canções cada, denotando sua identidade e autoria, sendo possível ser acessado nas plataformas online de músicas ou ser adquirido em formato físico, o disco, tem um encarte bastante especial, como diz a própria artista. Virginia Guimarães é quem produz esse material gráfico que mais parece uma dança, e conta com vários desenhos da artista, a designer nos concedeu uma pequena entrevista também que segue abaixo.


Poeta, artista plástica, desenhista, pintora, compositora, produtora cultural, atriz e cantora, Agda, para além de todos os rótulos que agregam seu percurso, é verbo. Agda é uma ação, um movimento cheio de figuras de linguagem, algo difícil de pegar mas tátil demais para se sentir, como vocês poderão compreender melhor com a entrevista, a seguir:


Esse é o seu primeiro álbum, e autointitulado, o que ele fala sobre a Agda e sua trajetória até esse momento?


Agda é a primeira e a última coisa de mim. Gosto da distância de uma letra para a água e anda o rio Capibaribe aqui dentro.

Comecei a cantar colocando meu irmão Raimon pra dormir quando era criança, acho que foi ali que começou a ser feito. Me parece ter a ver com um mapa de encontros, entre escolas, feiras, e gente querida que amo e amei viver.


Precisamos desbravar juntos a alegria de existir, a inventividade, a bravura, o ir e voltar de nosso povo agreste. Cheio de carregações, interlúdios do cotidiano vindo do pano, do tecido, e pode ser uma carta, um trajeto de encontros, entregando algo que fui talvez num poema, e na cantoria somos acompanhados pela natureza.


Esse disco é parte de um movimento acontecendo em mim e onde vivo, agora mesmo e desde criança, através do chocalho (espaço cultural pensado por Agda, para produções artísticas em Santa Cruz do Capibaribe), das varandas com meus amigos e a base mais (estúdio criativo de arte e design também de Santa Cruz do Capibaribe, gerido por Marcelo Taubert, seu produtor), tem também as costureiras e pessoas arteiras, mototáxistas, árvores, feiras e olhos humanos trazendo motivos de vida, virados em canção.


Acreditei inteiramente na palavra, ao entrar numa biblioteca e me sentir voltada a mundos encontrados nas prateleiras e perto dessa época entender também que a rua e as mesas de poesia são como uma grande escola. Pude perceber fronteiras que dizem sobre o que nos tornamos ao atravessar a realidade, a arte, as rádios, os antigos e novos saberes, até onde nos é dado praças e sementes.


Respeitar o que se torna o tempo quando a gente sente, perto e longe do que acreditamos. Então o disco pode ser como um bilhete que vem de uma carta que não para de ser escrita, e que sobe e desce a serra vermelha e volta pra rua grande, em frente a tua casa Jones, te chamando na beira do rio *risos* (Jones é um dos codinomes que Agda adora criar e colocar nos amigos/amores, e essa casa, que atualmente moro, tem uma janela onde é possível ver e conversar com o rio Capibaribe). São 4 tempos, de um sítio, só e conjunto, girando dentro do meu juízo.


Como foi o processo criativo do álbum?


Criar deve ser o estado mais perto do grito mudo. Letras, tintas, máquinas e aspiração a nosso favor, desembocar em uma obra é como intervir e ser interferido ao mesmo tempo. Um nó de cada vez fez minha cidade, o retalho alinhado a outro

fez a colcha, a bandeira, fez o traço na identidade de um lugar que recebe o Brasil e seca no sol de cada varal brasileiro. Então venho da situação de crescer dentro da feira como minha mãe, vó, bisavó e trisavó… ao mesmo tempo venho de cantorias no Cariri paraibano, donde venho dos poetas repentistas e de algumas gerações de Zé de Cazuza, meu avô.


Foram 5 anos montando um percurso sonoro, arrudiados com Julians (Juliano Holanda), Mery Lemos sua companheira e outras pessoas queridas que estenderam a poesia de inventar o registro permanente. Acredito no improviso como ímpeto humano luminoso, tive dificuldade de visualizar algo que durasse além do que pudesse ser esquecido após acontecer, mas ao aceitar o processo, fui descobrindo sobre a região, a arte e principalmente sobre nossas capacidades sensíveis, sobre as abelhas que beijam jasmins em Recife e que acordam aqui no agreste e lá no sertão, o que somos juntos e singularmente.


Fui café com leite várias vezes ao longo da vida, mas sempre feliz por realizar mais devagar e de outras formas as situações propostas a cada medida do tempo, então quatro tempos, de quatro canções, andar pelo meio, foi como…



Foto: Teresa Benassi


Muitos artistas saem de sua cidade natal, e lançam na capital, porque você foi na contramão disso?


Interiorá é uma ideia que anda comigo, anda em meus amigos, adoro acreditar no que a gente é de bom, a arte é manutenção do coração, ajuda a gente a decidir o caráter do futuro, do presente, do passado… conheci crianças de escolas nas zonas rurais de Santa Cruz do Capibaribe, quero dizer que isso me fez perceber que antes, muito antes das coisas grandes, as pequenas e mais simples coisas nos fazem.


Geralmente precisamos do mínimo pra nos apontar, flechas de todas as direções, andar interiorante me diz: Vai!! Pra os que sabem ir assim, sabemos ir e voltar, e ficamos aqui por escolher lhe amar!! Essa terra!!


Uma hora será preciso aprender a necessidade de não sujar o rio para tê-lo lavando o jeans. Será preciso entender e colher do que todos nós fazemos o rio ser, onde vivem as capivaras, como elas sabem da terra além e muito depois de todos nós, bem como antes, bem antes… vamos entender como chegar ao princípio, a origem das emoções que nos são.


Imagino que venhamos do mangaio, da fartura, da pouca matéria e muitas formas de inventar e sobreviver. Vou muito satisfeita nos menores lugares, eles guardam o que avisaremos ainda, do que saberemos. Ainda vamos andar adentro, desbravar miragens e paisagens perto do que estava longe.


Observamos que seu álbum tem participação de diversos artistas da região e locais como Fábio Xavier, Olegario Lucena, Isabella Morais, Lirinha, Virgínia Guimarães. Qual o significado que essas participações têm pra você e como essas colaborações foram feitas?


A poesia continua em cada parte de um caminho, alguns, e todos nós levamos juntos o interior de cada capital que ao redor é muito maior, é um espaço grande demais para criação e possibilidade.

Encontrar essas pessoas queridas é como abraçar cada pedaço da terra do que somos, o sonho que é em nós, juntar verso é avivar o encontro, a disposição inspirativa, o motivo maior, como caminhar e abraçar artistas que trazem a fruta do imaginário.

Queremos continuar, encerrar e levantar ideias. Estamos percebendo juntos como fazer isso? Sim, interligando, aprendendo. O trânsito é uma força do povo da gente.


Foto: Teresa Benassi

Agda, esse álbum tem várias peculiaridades que fogem desse caminho habitual sonoro que outros artistas fazem, como a inserção de um áudio para um amigo, a presença de uma passagem sonora falada com ruídos e atravessamentos, me fala um pouco do que isso representa para você.


A minha trisavó chamava Maria Serrote, ela cortou o mato de uma trilha onde as crianças passavam pra ir à escola, é a partir disso que confio no que a dor e a alegria oferecida desbravam no vivido. Então, o verso livre vem como corredor,

atalhos inventados para validar o sentimento acontecido em quem acorda ao inerente modo; a curva, ao paralelo, o contrário modo, o abismo entre o pavão e a pena. Estou aprendendo a ouvir e dizer, criarei o meio dizendo livremente memórias, o ocorrido, a ida, a volta, vamos dizer…


A metáfora e a sensibilidade com as palavras são um dos pontos encantadores do teu disco, como no trecho da música A curva de miroucha: “piso na sombra da gameleira, piso na feira, sulanca, mangaio, retalho, couro e algodão”, ao tempo em que o sensível nos invade por meio dessas palavras, teu disco é também composto de muitas denúncias, onde tu enche/preenche teu bisaco de poesias, e você enxerga esse disco como uma ação política?


Cada música tem um desenho, um estudo de cores… dedico às pessoas que mudaram e atribuíram a multiplicidade da vida, o gosto pela arte e o sabor das frutas.


Vejo estas canções como um conjunto de sons que andou comigo, para andar ainda e talvez, por isso, passageiras, seja isso um dos vínculos que essa feitura atenta, por onde escolhemos passar e ser, como vamos e voltamos. Estas canções vieram, principalmente, de experimentações humanas acontecidas em: escolas públicas, feiras, praças e a varanda da casa de minha mãe...também o teto da casa de Flau (Marcelo Taubert), o quintal onde cresceu Ofélia (nome da gameleira que brotou do concreto na casa em que Agda morou), o café com Anita, a palmeira do sítio São Francisco, o pé de umbu e as gameleiras da Rua Grande...


Creio que ouvir, e dizer, seja parte do maior ato político global que atravessamos, estamos na busca de entender como participar desse giro, alargando as possibilidades artísticas e a valoração ao ser humano em sua existência. As práticas que nos fortalecem, e criam impulsos de saberes contínuos. A poesia e as palavras são ferramentas que tocam no mais sensível tangido pela memória. Estamos no meio de bandeiras invisíveis e reais, levo algumas com outras e vejo o mover acontecer, o êxodo urbano, a feira… Como viver essas pessoas e o rio, o que faremos com essa situação é o nosso ato político.


Nascida no sertão Pernambucano, a estudante de design Virgínia Guimarães, participou do concebimento do disco "Agda". Virgínia experimenta as artes visuais, sonoras e o design em projetos pessoais no estúdio de arte e design Base/Mais, no Chocalho, coletivo de arte e educação e no laboratório de audiovisual Punctum Filmes, este, fundado com amigos em 2017.

No disco realizou o design do encarte e teve participação na canção intitulada “O Cigano” com outros nomes como Ezter Liu, Mery Lemos, Miriam Juvino, Numa Ciro e Paula Tesser. Virgínia também participou da produção do disco juntamente com Marcelo Taubert. Em entrevista, nos conta um pouco de sua veia artística e de sua participação no disco "Agda".



Virginia Guimarães. Foto: Nayara Nascimento

Primeiro eu queria que você falasse sobre você, dessa tua veia artística, como você se vê, quem é Virgínia?


Eu sou estudante de design e estou me formando na Universidade Federal de Caruaru e artista desde família, dos pais. Então essa veia artística que também permeia a cidade, a costura também, que é uma arte. Então crescer nessa cidade também me transformou numa artista, me levou por esse caminho, no caminho das artes visuais e das artes sonoras e também do audiovisual, do cinema, da fotografia. Então, são muitas áreas aí que a gente se alarga, então também na produção e do design, enfim, para além.


E você também faz parte da Punctum, não é? Me conta, como surgiu a Punctum Filmes?


Surgiu em 2017, concomitantemente, quando nasceu o primeiro filme, Palestina Brasil. A Punctum nasceu com ele, que foi uma ideia da minha mãe, que é agente de saúde comunitária, que queria que a gente fizesse um filme sobre algumas pessoas do bairro. Então a gente se uniu, né? Amigos que também sabem de fotografia, um pouco de produção, um pouco de jornalismo, então se juntou para realizar, né? Porque se não tem a gente, a gente tem que fazer, sabe? E aí a gente deu nome a isso, né? Então é isso. E desde então a gente vem fazendo algumas produções. O primeiro filme foi Palestina Brasil, que é um documentário e a gente já fez outras coisas também, mais experimentais, animação, ficção e sempre também trazendo questões da cidade, da nossa região, sabe? E surgiu em 2017 e desde então a gente está produzindo.


Créditos, Produção Gráfica: Virgínia Guimarães

Em relação ao trabalho agora com Agda no disco, eu vi que você realizou a produção do design do encarte, como foi essa tua experiência?

Foi o meu primeiro projeto assim de disco. Nunca havia feito e foi um grande desafio e que foi um grande mergulho também, com ela e comigo e com todos nós, porque não foi construído só por mim, foi construído também com ela e com todos. Foi uma experiência transformadora descobrir também como aplicar artisticamente no design uma coisa tão profunda que diz também sobre mim, porque o disco também fala muito sobre a cidade. Como é que você vai contar em imagens todas essas cores, todos esses sabores que é Agda também, sabe? E que é a gente também. Achei muito bom e muito transformador e muito feliz de que eu seja daqui, que ela tenha me convidado, que ela seja daqui, então, pra gente tentar traduzir em imagens, em design. E toda essa história que é parte da gente também.


Como você enxerga a representatividade cultural aqui de Santa Cruz? Do que que a gente realmente precisa para esse fortalecimento e essa movimentação cultural aqui na cidade?


Engraçado, você fala do movimento, né? O movimento existe enquanto ele está acontecendo, né? E acredito que a cidade é cheia de artistas, cheia de trabalhadores, de costureiras, de vendedores, de imigrantes, de gente que mexe com teatro, de gente que mexe com música, gente atenta ao mundo, gente sensível, Poetas aqui na nossa cidade existem, mas a gente precisa que o movimento se engate, né? E de onde ele vem também, né? De várias e várias frentes, políticas públicas. Toda essa história que a gente já conhece e que é necessária a difusão, apoio dos órgãos públicos. Porque tem muito artista aqui, muita gente sensível. Eu vejo uma cidade muito potente nesse sentido. Temos a Novo Século, que é a primeira banda, a banda mais antiga da cidade, né? A cidade tem 70 e poucos anos de emancipação, a Novo Século tem mais de 120. Uma coisa que vem antes desse nome. Uma terra que antes de ser Santa Cruz, era o nome indígena Tapera, nome de riacho, que é o riacho onde eu nadei quando eu era criança. Então isso é muito importante, né? Por isso que eu não deixo que chamem a cidade bolsonarista, sabe? A diferença de votos foi muito pouca. Aqui tem muita gente trabalhadora, sabe? É isso, muita gente artista.



Teresa Benassi - artista nascida em Pernambuco. Uso da imagem permitido apenas para fins não comerciais e com o devido crédito da autoria. Mais informações: teresabenassi1@gmail.com





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