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Árido: um caminho

Atualizado: 14 de set. de 2021

Relato por Tiago Delácio.


Vários pavios culturais explodiram na década de 90 em Pernambuco, mas o big bang foi o movimento mangue beat. Nessa época, a minha passagem do ensino médio para o curso de Jornalismo da UFPE seria também o sentimento de fazer parte do cinema que estava novamente brotando das ruas do Recife. E, da poltrona do Teatro do Parque, como espectador, me senti dirigindo junto com Paulo e Lírio, o Baile Perfumado para então reafirmar minha opção por viver ao lado do nosso cinema. O Baile foi tão impactante sobre as rochas dos cânions do São Francisco, ao som do Nação Zumbi, Fred Zero4 e Mestre Ambrósio que semeou a retomada da produção do cinema em Pernambuco. Esse experimentalismo foi responsável pelo impulso criativo e a percepção ampliada até de um jeito local de fazer filmes, a brodagem do cinema pernambucano.


Meus dias eram de cinema e movimento estudantil. Comprei minha primeira filmadora parcelada no cartão de Chico de Assis, tocava com uma galera o Cineclube Barravento, batia ponto na Classic Vídeo e percorria os bairros de Olinda com o projeto Cinema na Praça. Até que parti para um sonho da época, cursar um taller na EICTV, em Havana. De lá, comecei a acompanhar a movimentação de duas equipes de produção. Estavam contratando para o novo filme de Lírio, Árido Movie, e outra equipe, montando para rodar o Cinema, aspirina e urubus de Marcelo Gomes. Ainda em Cuba mandei uns e-mails para as produções com o currículo e vontade, enquanto lia “Cine Imperfecto” de García Espinosa ficava mais longe minhas chances de fazer parte de uma delas.


Tiago Delácio nas filmagens do filme Árido Movie - Fotos: acervo pessoal.

Dias se passaram, contatos foram feitos, mas a equipe estava formada quando cheguei em Recife. De um lado as vans subiam para Arcoverde para preparar a filmagem do Árido, um pouco mais ao norte, a equipe do Cinema, Aspirina e Urubus, na Paraíba, entre Pocinhos e Cabaceira. Mesmo com os primeiros dias de set filmados, Júlia Moraes, assistente de direção do Árido, me convida para fazer a segunda assistência. No outro dia, estava eu lá em Arcoverde virado no mói de coentro. Dois dias depois, uma rearrumação na equipe e me transformei no continuísta do filme, nessa hora só tentava lembrar o que Adelina Pontual tinha falando em alguma aula. Lá fui eu com a prancheta, caneta e cronômetro vivendo aquele dias de sonho e trabalho.


Os moradores de Arcoverde paravam para acompanhar as filmagens e ver rostos conhecidos de Giulia Gam, José do Monte, Matheus Nachtergaele, Paulo César Pereio, Mariana Lima, Selton Mello e José Celso Martinez. O calor massacrante da estrada, as locações sinistras, a arte oposta de Renata Pinheiro dava o ambiente subjetivo que o filme precisava. O cenário do "O POSTO" onde o protagonista Lázaro sai com Wedja ao som de Renato e seus Blue Caps destranca um roteiro aberto, cheio de fragmentos e histórias não encerradas, como é a nossa própria existência, sem fim até depois da morte. Enquanto Lírio tinha o filme na cabeça, os demais quebravam a cabeça para encaixar no plano de filmagem, o filme em si estava bem longe do próprio roteiro e essa era a ideia.


Nunca li tanto um roteiro como o Árido, era imprevisível entregar a minutagem, a descrição da cena, as tomadas, o tipo de filtro e o número do negativo para a montagem fazer os encaixes. Lírio confiava nos atores e na capacidade de improvisar o texto, mandava a fotografia rodar mesmo que a película de 35mm quantas vezes precisasse, a produção ali só não fez chover e, no final, astralizava e, pronto, dava tudo certo.


Não foi fácil, mais do que ter uma memória visual e um acompanhamento cirúrgico das falas, ações, gestos, figurinos, para garantir o plano de filmagem, cabia também ao continuísta lembrar do enquadramento da câmera, a lente, o filtro daquela cena, a minutagem e em qual rolo está cada cena. Entre tantos desencontros, um copião extraviado no laboratório do Rio exigiu que fosse refilmado algumas cenas meses depois de desprodução. Foi uma loucura que valeu mais que qualquer curso de cinema. Embora para quem assiste ao filme, a narrativa não se encerra, quem é o doido de fazer o segundo filme?


Em 2020, fui ao Festival de Cinema do Rio de Janeiro exibir o curta-metragem Enraizada e assisti ao lançamento do Aqua Movie com Lírio e parte da equipe. O Aqua é mais que uma continuação, é uma espécie de reencarnação e que compõe mais um pouco desses fragmentos tortuosos entre mar e seca, litoral e sertão, raízes e asas. Claro, são filhos do mesmo pai, voaram pelos mesmos caminhos e também ficaram presos nas mesmas agruras e limites de seus voos.


Muito distante dos sonhos da década de 2000, uma grande tormenta social descambou no Golpe de 2016 e a eleição de um presidente cuja marca é a destruição das políticas de fomento ao audiovisual e a caçada ideológica contra os artistas. Um país com mais de meio milhão de mortes pela pandemia, quase todos os cinemas fechados e um governo com viés facista, nos leva a acreditar - apenas - que a Montanha do Cachorro que está na cidade ficcional de Rocha antes dos homens existirem, vai continuar existindo.


Sobre o autor:

Realizador audiovisual, com especialização na Escuela Internacional de Cine y TV (Havana) e mestrado em Desenvolvimento Urbano (UFPE), Tiago Delácio é coordenador do Museu de Animação Lula Gonzaga (MUCA) e da Mostra de Cinema Ambiental do Recife (MARÉ). Dirigiu os curtas: La espera (8’, 2003), Velocidade Máxima (7’, 2013), Enraizada (8’, 2018), Eu o declaro meu inimigo (2’, 2018) e Martelo (6’, 2021).
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